“O caso Karadima não é só um caso de abusos, é uma tendência sectária dentro da Igreja”. Entrevista com Eduardo Valenzuela

Fonte: PxHere

04 Agosto 2021

 

Para o sociólogo e decano da Faculdade de Ciências Sociais, da Pontifícia Universidade Católica do Chile, que analisou a crise da Igreja Católica chilena, o escândalo dos abusos no Chile favoreceu a compreensão atual do problema em nível global e alimentou a tese de que suas causas estavam na estrutura interna da própria Igreja.

Para Eduardo Valenzuela, a partir da crise desencadeada pelo caso Karadima, a Igreja Católica chilena avançou muito na investigação e prevenção de abusos. No entanto, “o que está pendente é a reconciliação com as vítimas” e sem isso é impossível “virar a página”, adverte. Algo que foi feito em muitas partes do mundo, mas que no Chile demorou a se concretizar por uma “responsabilidade da própria Igreja”, segundo o sociólogo.

Sua avaliação, que compartilha nesta entrevista, é fruto do longo trabalho realizado como presidente da comissão criada pela Pontifícia Universidade Católica, em 2018, para analisar a crise da Igreja Católica chilena. Um trabalho no qual participaram 16 integrantes de diferentes disciplinas e que, entre outras coisas, avaliou o caso Karadima e a situação dos abusos na igreja local. O “caso chileno” deu “uma dimensão mundial” ao problema, sustenta no relatório.

A entrevista é de Juan Paulo Iglesias, publicada por La Tercera, 31-07-2021. A tradução é do Cepat.

 

Eis a entrevista.

 

Qual foi a verdadeira dimensão do caso Karadima na crise da Igreja Católica chilena?

Em todas as Igrejas houve um caso acentuado, emblemático, e Karadima foi o caso mais importante da Igreja chilena. O de Karadima é o que se chama de uma tendência sectária, ou seja, um grupo que é cativado por uma liderança atraente que se entrincheira dentro da Igreja e se fecha inclusive dentro dela mesma em uma pretensão de ser diferente, exclusivo moralmente, religiosamente puro.

O caso Karadima compromete uma parte da Igreja, um grupo significativo dentro dela, vocacionalmente exitoso, bem conectado aos círculos tanto eclesiais como não eclesiais. Para a Igreja chilena, foi um desafio enorme se deparar com uma tendência sectária no interior da Igreja diocesana, ou seja, da estrutura regular da Igreja.

Muitas destas tendências sectárias se deram dentro de movimentos apostólicos que operam à margem da estrutura diocesana, como os Legionários de Cristo ou a Comunidade de São João, na França. Mas esta estava instalada dentro da própria Igreja.

Há fatores próprios da sociedade chilena que favoreceram para que isso acontecesse?

A grande característica do caso é que acontece no seio da elite, a elite católica do país. Grande parte das pessoas que frequentavam El Bosque pertenciam a essa elite, estavam ligadas ao mundo empresarial, ao mundo cultural, institucional, político. Então, além disso, temos esse componente adicional. É um caso que atinge e golpeia o topo, a parte alta da pirâmide da estratificação social.

Mas o importante é perceber que Karadima não é apenas um caso de abuso sexual, como aconteceu em outros lugares, em outras situações, mas é uma tendência sectária que inclui, de modo muito especial, o abuso de consciência, o abuso espiritual. Grande parte das vítimas ou muitas delas não foram abusadas sexualmente, mas foram abusadas em sua liberdade de consciência e utilizando os recursos espirituais que a religião oferece para exercer essa coação indevida.

Então, é um caso que foge da norma habitual dos casos de abusos de menores em que muitos outros sacerdotes caíram. Também isso o torna diferente. Não é apenas um sacerdote que se perverteu sexualmente, mas que criou uma organização sectária dentro de sua própria Igreja e fez isso, como acontece em todas as seitas destrutivas, através de recursos religiosos que envolviam um abuso de poder.

Que fatores facilitaram para que durasse tanto tempo e nada fosse feito?

Em geral, os grupos sectários têm suas técnicas de acomodação, de invisibilização, levam a muito engano. Em muitos sentidos, a paróquia de El Bosque oferecia a si mesma como modelo de conduta religiosa, de pureza e de correção moral. E visto de fora era muito pouco provável que alguém, de fato, percebesse o que acontecia lá dentro. Efetivamente, houve certa dificuldade em entender o que realmente estava acontecendo.

Um dos pontos que vocês destacam no relatório sobre a crise da Igreja é que ela foi incapaz, em uma primeira etapa, de responder de forma adequada. Por que isso aconteceu? O peso que Karadima tinha dentro da Igreja influenciou?

A Igreja é uma instituição moral e as instituições morais custam a reconhecer que existe imoralidade em seu seio. A relutância em ver, reconhecer e agir decisivamente é bem característica das Igrejas em geral, das instituições morais.

No início, atestar as denúncias contra Karadima e contra sacerdotes desse peso e dessa influência religiosa era muito difícil. Mais ainda, investigá-las seriamente e, ainda mais, puni-las. A Igreja, como em todas as partes do mundo, acionou tarde demais os procedimentos de certificação das denúncias, de investigação eficaz e de sanção exemplar.

Também é verdade que as Igrejas aprenderam e algumas aprendem mais rápido do que outras. É verdade, como diz o relatório, que não foram tiradas todas as conclusões que deveriam ser tiradas do caso Karadima e que não foram acionados de forma tão eficaz e oportuna todos os procedimentos que deveriam ser acionados.

A Igreja chilena perdeu a década que vai de 2010 a 2020 ao continuar lidando com os casos de uma maneira que poderíamos chamar de insuficiente. Com dificuldades para atestar as denúncias, com dificuldades para investigá-las com imparcialidade e com dificuldades para punir. E, aqui, sem dúvida, a influência de Karadima desempenha um papel. O papel que teve na formação de boa parte do clero diocesano foi decisivo.

Considerando esse último ponto, em que medida a cultura de Karadima penetrou o clero, contaminou a Igreja no Chile? Quanto custa limpar isso?

Há coisas que melhoraram claramente. Hoje, uma denúncia de abuso sexual ou não sexual se atesta com muito mais facilidade, as denúncias são investigadas com maior diligência e, inclusive, um sacerdote arrisca sua condição como tal quando faz estas coisas. A demissão do estado clerical está sendo utilizada como uma punição normal para casos graves como estes. Então, em matéria de investigação e de alerta se avançou muito. Em prevenção também.

O que faltou à Igreja chilena, o que está pendente, é a reconciliação com as vítimas. Ainda no geral, a maior parte das vítimas se encontra do outro lado do caminho, em uma atitude completamente contrária ao que a Igreja fez em relação a eles. E esse processo de reconciliação com as vítimas requer reparações efetivas, requer um trabalho longo e paciente de reconhecimento, de acolhida.

Inclusive, em muitos países, as vítimas fazem parte do próprio processo de prevenção e de alerta de tais coisas. São incorporadas no próprio processo de retificação que é necessário fazer. Tudo isso está pendente.

E por que considera que tem sido difícil avançar nisso?

É uma responsabilidade da própria Igreja. Quando o Papa percebe que comete um erro de avaliação sobre o que acontece no Chile, a primeira coisa que faz é chamar as vítimas, acolhê-las em sua própria casa e ouvi-las. Esse é o primeiro gesto. E é o gesto básico e fundamental.

Isso não foi feito aqui. Há uma carga de atitudes clericais, de uma inércia institucional muito pesada em relação a isso e a falsa convicção de que basta pedir perdão ou que basta acionar processos de correção institucionais.

Não se compreende cabalmente que esse é um processo que só se encerra quando as vítimas, ou um número significativo delas, conseguem se reconciliar com a própria Igreja que as lesou. Eu sei que é difícil que as vítimas se aproximem e perdoem, que cooperem e colaborem, mas é um processo indispensável, caso queiramos virar a página.

Considera que o caso Karadima é um fator decisivo na queda do número de fiéis, experimentada pela Igreja Católica, ou esse fenômeno corresponde a outras variáveis?

A queda dos católicos e em geral da frequência à Igreja tem um pano de fundo mais amplo que é uma mudança cultural que aponta em todas as partes do mundo para uma crescente secularização. Mas também é verdade que esta crise teve repercussões sobre o mundo católico e consequências graves sobre a confiança dos católicos em sua própria Igreja, sobre o que nós chamamos de a mediação sacerdotal de sua própria experiência religiosa. Sobre, inclusive, em alguns casos, a identificação das pessoas como católica.

E nesse ponto a Igreja também não soube se responsabilizar de que os abusos têm consequências que vão muito além das vítimas diretas, sobre todos os seus fiéis, sobre quem ela tem uma responsabilidade. Isso continua pendente, responsabilizar-se pelo desconcerto, o desapontamento e a indignação que os próprios católicos sentem em relação ao que aconteceu.

No relatório, vocês apresentam três pontos de inflexão na crise da Igreja católica chilena, o primeiro é o caso do padre Tato, depois Karadima e, finalmente, a visita do Papa...

Sim, esses são os três marcos. O padre Tato dá o primeiro sinal de alerta de que os sacerdotes poderiam estar abusando de meninos e meninas, o caso Karadima que tem essa conotação especial, que é muito mais do que um caso de abuso sexual, e depois a crise desencadeada pela visita do Papa e que é coroada, é preciso dizer, com um segundo caso igualmente emblemático como o de Karadima, que é o do padre Poblete.

Este também tem muitas repercussões e torna o ano de 2019 o pior ano para a confiança na Igreja. Renato Poblete era uma figura emblemática do catolicismo social, mais conhecida popularmente do que Karadima, então, seu caso foi muito impactante.

Hoje, a Igreja Católica tem uma presença no debate público muito menor do que no passado e a queda de católicos se acentuou. À luz disso, ainda podemos dizer que o Chile é um país católico?

Temos um processo de indiferença religiosa muito forte, estimado em torno de 30% da população que já está marcando nenhuma religião na hora em que é interrogada sobre a questão, especialmente jovens. Temos uma situação preocupante do ponto de vista da lealdade religiosa das pessoas.

O que é característico de nosso padrão de secularização é que não há deslocamento do catolicismo para o protestantismo. Os evangélicos não crescem muito, mas o que cresce é este bolsão de pessoas que diz para você que não possui mais nenhuma religião. No entanto, muitas delas continuam sendo crentes. E muitas delas têm crenças convencionais, convencionalmente católicas.

Então, efetivamente, há um retrocesso significativo do catolicismo no país, estatisticamente os católicos devem estar hoje em torno de 50%, em circunstâncias que estiveram em torno de 75%, há 25 anos. É um processo muito rápido, muito acelerado de desfiliação religiosa, provavelmente dos mais acelerados do mundo que eu saiba, mas, claro, tudo isso ainda imerso em uma cultura que permanece católica.

As culturas não mudam da noite para o dia, nem de uma pesquisa para outra. Não se deve desprezar a influência cultural do catolicismo, mesmo que, sem dúvida, sua influência política diminui rapidamente.

O caso Karadima e a situação dos abusos repercutiram para muito além do Chile. Por que considera que o caso chileno tem tanto impacto global na Igreja?

Originalmente, pensou-se que este era um problema norte-americano e que estava associado à liberalização da cultura estadunidense, ao liberalismo da cultura inclusive religiosa daquele país. Esse foi a espécie de modelo de compreensão, no início do problema dos abusos sacerdotais. Depois disso, estendeu-se para a Europa. A Igreja irlandesa e a Igreja alemã começaram a encontrar casos que tinham um formato idêntico ao dos Estados Unidos. Tornou-se então, por assim dizer, um problema das sociedades secularizadas do mundo moderno.

O caso chileno demonstra que esse é um problema mundial, que também pode acontecer em uma igreja periférica do cone sul da América, em um país que tinha um enorme prestígio social quando tudo isso começou. O Chile, de certo modo, é o que oferece a compreensão atual do problema, no sentido de que este é um problema que pode atingir qualquer Igreja, em qualquer parte do mundo, independente do contexto cultural em que esteja inserido e, por conseguinte, é um problema que tem a ver com suas próprias estruturas internas, com a forma como a própria Igreja está organizada.

E isso é o que alimentou a tese de que a origem mais profunda de tudo isso é o clericalismo, que é uma constante em todas as Igrejas católicas, independente do contexto em que se desenvolvem. Em vez de olhar para os fatores de contexto, passou-se a olhar para os fatores internos do problema. O Chile tem essa importância.

Isso explica, em sua avaliação, que o Papa tenha enviado uma missão especial ao Chile e o tema tenha despertado tanto interesse no Vaticano?

Claro. Adicionalmente, a preocupação do Papa era que, diante da situação chilena, não se repetissem as dificuldades que houve na Igreja norte-americana e na Igreja europeia em enfrentar o problema. Isso é uma sequência. Começa com a Igreja norte-americana, nela há aprendizagens efetivas de como essas questões devem ser abordadas, depois vem a Igreja europeia, são cometidos os mesmos erros que mencionamos, mas já existem aprendizagens sobre como se deve enfrentar o problema e agora aparece na América Latina o mesmo problema, as mesmas limitações, as mesmas dificuldades.

As Igrejas precisam aprender com o que aconteceu em outras partes e precisam saber enfrentar o problema de maneira muito mais eficaz, porque já possuem a experiência de como foram os problemas em outras partes. O Chile mostra o mesmo padrão, como se não tivesse aprendido nada do que aconteceu nos Estados Unidos e na Europa.

Para o Papa, é muito importante que os bispos de todas as partes do mundo e também na periferia, onde deposita maiores esperanças, atuem diligentemente e não cometam os mesmos erros do começo.

No entanto, ao contrário de outras partes do mundo, no Chile não houve uma comissão independente que investigou o tema e propôs reparações. Por que isso não aconteceu?

Sim, esse é outro aspecto importante de nossa crise. Estamos amparados em uma religião majoritária, com muita influência social e cultural. A imprensa é mais moderada, os tribunais de justiça e o Parlamento são muito mais recatados do que em países onde a influência cultural e política da Igreja é menor.

No Chile, assombra a completa inação dos poderes públicos em relação a um problema como esse. Em muitos países, foram os parlamentos que criaram uma comissão investigativa. E isso tem sua origem na deferência que existe nas relações entre a Igreja e o Estado. Aqui, o Estado não se mete com a Igreja e a Igreja também não questiona os atos do Estado. Há uma velha tradição de não interferência, de respeito à autonomia jurisdicional da Igreja.

É verdade que em nosso país, exceto os meios de comunicação que foram muito incisivos e, às vezes, decisivos no desvelamento de casos de abusos, é preciso admitir, os poderes públicos deixaram este problema de lado, apesar de o problema de abuso de crianças na sociedade ser um problema público de primeira importância.

 

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