O sobrevivente dos abusos sexuais, Juan Carlos Cruz, chileno, novo membro da Comissão antiabusos: “Um reconhecimento pelas tantas vítimas”

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25 Março 2021

 

“Um reconhecimento do Papa pelas tantas vítimas que ainda sofrem, que denunciam ou que ficam em silêncio. Meu empenho neste novo encargo vai todo para elas”. Em Filadélfia, onde começou uma nova vida depois de ter abandonado aquele Chile que o lembra dos abusos sofridos, são recém 7 horas da manhã quando um boletim do Vaticano comunica sua nomeação como novo membro da Pontifícia Comissão para a Proteção de Menores, o órgão instituído pelo Papa Francisco em 2014 para combater a chaga dos abusos na Igreja. Juan Carlos Cruz, um adolescente vítima das violências sexuais do padre Fernando Karadima, o sacerdote chileno que foi um agressor em série destituído da função de padre por Francisco em 2018, entra integralmente por três anos no organismo liderado pelo cardeal de Boston, Sean O'Malley.

A reportagem é de Salvatore Cernuzio, publicada por Vatican Insider, 24-03-2021. A tradução é de Luisa Rabolini.

“Estou feliz que o Santo Padre me mostre esta confiança e este afeto, estou muito emocionado”, confidencia Juan Carlos ao telefone ao Vatican Insider, desculpando-se pelas constantes notificações do smartphone que informam as chamadas recebidas ou as tags nas redes sociais. Para ele, que durante anos denunciou junto com outras duas vítimas de Karadima, James Hamilton e José Andrés Murillo, o mal sofrido, mas também o sistema de encobrimento e o código de silêncio da Igreja chilena, trata-se de um reconhecimento significativo. “É um empenho para continuar a luta para que a chaga dos abusos seja definitivamente erradicada. São tantas as vítimas - crianças, adolescentes, adultos vulneráveis - que neste preciso momento estão sofrendo. Quero oferecer à Comissão o meu empenho de acompanhá-los, falar com eles e por eles, também à luz da minha experiência”.

Sua experiência é a de um garoto, um dos muitos que frequentavam a conhecida paróquia “El Bosque” em Santiago do Chile, que tentou entrar no seminário para reprimir sua homossexualidade. Naqueles anos, durante anos, ele foi gravemente abusado pelo padre Karadima, o carismático pároco amigo das elites chilenas e de vários membros das hierarquias eclesiásticas. Juan Carlos, chantageado para que mantivesse o silêncio caso contrário Karadima e seus colaboradores revelariam a sua homossexualidade, encontrou forças para denunciar depois de muito tempo.

Escreveu cartas, foi falar com bispos e cardeais, um dos quais inclusive lhe disse que talvez, dada a sua orientação, tivesse tido prazer com os abusos. Ainda hoje se comove ao contar aquela história, porque aquela recusa, diz ele, o magoa tanto quanto as violências sexuais.

Junto com Hamilton e Murillo, Cruz quando adulto se tornou um dos representantes mais ativos da luta contra os abusos do clero no Chile. Ele havia perdido toda confiança na Igreja e considerava o Vaticano e o Papa "o mal absoluto", corresponsáveis pelos crimes sofridos. Depois conheceu Francisco. Na viagem de janeiro de 2018, Jorge Mario Bergoglio se viu diante de uma situação inflamada no Chile, que explodiu após o caso do bispo Juan Barros, protegido do próprio Karadima, de quem o Papa inicialmente saiu em defesa. Enquanto os manifestantes protestavam na rua, Francisco quis se encontrar com os três sobreviventes. Depois daquela entrevista, de volta a Roma, enviou ao Chile seu emissário, o bispo maltês Charles Scicluna, que investigou a fundo e lhe entregou um relatório de mais de 2 mil páginas.

O Pontífice então sancionou Karadima, demitindo-o do estado clerical, e então escreveu uma sincera carta aos fiéis chilenos admitindo erros de avaliação. No Vaticano convocou toda a Conferência Episcopal Chilena que renunciou em bloco e nos meses seguintes foram recebidos os sacerdotes que sofreram abusos ou que haviam acompanhado as vítimas e os três sobreviventes Murillo, Hamilton e Cruz, que na época falaram de um longo e comovente encontro nas salas de Santa Marta.

Desde então, Juan Carlos manteve contato constante com Francisco, com quem se encontrou em várias outras ocasiões em Roma, a última antes do início da pandemia. “Ele é como um pai para mim”, diz Cruz, “ele sempre mostrou compaixão e acolhimento. Ele sempre me encorajou e agradeceu por minha coragem”.

Hoje o Papa quis recompensar o empenho desse jovem escritor e jornalista. O pontífice também confirmou e prorrogou por um ano o cargo dos atuais membros da Pontifícia Comissão, que no passado experimentou várias turbulências com a renúncia em 2017 de Marie Collins, vítima irlandesa, em polêmica com o sistema vaticano que, segundo ela, prejudicava o trabalho da Comissão, e depois de Peter Saunders, já suspenso em 2016 devido a divergências sobre a atitude do Cardeal George Pell.

Em dezembro de 2017 expirou o mandato de todos os membros da Comissão, o Papa a reconstituiu ex novo em 17 de fevereiro de 2018, nomeando os novos membros, hoje reconfirmados: Dom Luis Manuel Alí Herrera, Padre Hans Zollner, Irmã Jane Bertelsen, Irmã Arina Gonsalves, irmã Kayula Lesa, irmã Hermenegild Makoro, Ernesto Caffo, Gabriel Dy-Liacco, Benyam Dawit Mezmur, John Owen Neville, Nelson Giovannelli Rosendo dos Santo, Hanna Suchocka, Myriam Wijlens, Sinalelea Fe'ao e Teresa Kettelkamp Morris.

Também hoje foi informada outra importante nomeação de uma pessoa apreciada pelo grande público: Irmã Alessandra Smerilli, nomeada subsecretária para o Setor de Fé e Desenvolvimento do Dicastério para o Desenvolvimento Humano Integral. Em 2019, Francisco já a havia nomeado Conselheira de Estado da Cidade do Vaticano.

 

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