Maria Madalena, a figura mais difamada e incompreendida do cristianismo

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24 Julho 2021

 

Maria de Magdala talvez seja a figura mais difamada e incompreendida do cristianismo primitivo.

O comentário foi publicado por FutureChurch. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Na arte e na hagiografia cristãs, Maria foi romantizada, alegorizada e mitificada de forma irreconhecível. Desde o século IV, ela é retratada como uma prostituta e pecadora pública que, depois de encontrar Jesus, se arrependeu e passou o resto de sua vida em oração e penitência privadas.

Pinturas – algumas delas, pouco mais do que uma espécie de pornografia piedosa – reforçam a crença errônea de que a sexualidade, especialmente a sexualidade feminina, é vergonhosa, pecaminosa e digna de arrependimento. No entanto, o verdadeiro relato bíblico sobre Maria de Magdala apresenta um retrato muito diferente daquele da meretriz reformada de seios nus da arte renascentista.

 

Nem prostituta, nem pecadora pública: a primeira testemunha

 

Em nenhum lugar das Escrituras Maria de Magdala é identificada como pecadora pública ou prostituta. Em vez disso, as Escrituras a mostram como a primeira testemunha dos eventos mais centrais da fé cristã, nomeada exatamente da mesma maneira (Maria e Madalena) em cada um dos quatro Evangelhos escritos para diversas comunidades de todo o mundo mediterrâneo. Era impossível relatar a história da Ressurreição sem incluir “Maria, a de Magdala”.

O texto de Lucas 8,1-3 nos conta que Maria viajou com Jesus no discipulado galileu e, com Joana e Susana, sustentou a missão dele com seus próprios recursos financeiros. Nos Evangelhos sinóticos, Maria lidera o grupo de mulheres que testemunham a morte de Jesus, o sepultamento, o túmulo vazio e a sua ressurreição. Os sinóticos contrastam o abandono de Jesus pelos discípulos homens com a força fiel das discípulas que, lideradas por Maria, o acompanham até a morte.

O Evangelho de João nomeia a força fiel das discípulas que, lideradas por Maria, o acompanham até a morte. O Evangelho de João nomeia Maria de Magdala como a primeira a descobrir o túmulo vazio e mostra o Cristo Ressuscitado enviando-a para anunciar a Boa Notícia da sua Ressurreição aos outros discípulos. Isso levou os primeiros Padres da Igreja a chamá-la de “a Apóstola dos Apóstolos”.

O fato de a mensagem da Ressurreição ter sido confiada primeiro às mulheres é considerado pelos estudiosos das Escrituras como uma forte prova da historicidade dos relatos da Ressurreição. Se os relatos da Ressurreição de Jesus tivessem sido fabricados, as mulheres nunca teriam sido escolhidas como testemunhas, já que a lei judaica não reconhecia o testemunho das mulheres.

Os primeiros escritos cristãos não canônicos mostram comunidades de fé que cresciam em torno do ministério de Maria, nos quais ela é retratada como alguém que entendeu a mensagem de Jesus melhor do que Pedro e os discípulos homens. Os estudiosos nos dizem que esses escritos não são sobre as pessoas históricas de Maria e de Pedro, mas refletem tensões sobre o papel das mulheres na Igreja primitiva. Lideranças proeminentes como Maria e Pedro foram evocados para justificar pontos de vista opostos. O que não é contestado é o reconhecimento de Maria de Magdala como uma importante líder mulher do cristianismo primitivo.

Por que os cristãos contemporâneos estão desinformados sobre o discipulado fiel e o papel de liderança proeminente de Maria na Igreja nascente? Uma explicação é uma comum leitura errada do Evangelho de Lucas, que nos diz que “sete demônios haviam saído dela” (Lucas 8,1-3).

Para os ouvidos do primeiro século, isso significava simplesmente que Maria havia sido curada de uma doença grave, e não que ela fosse pecadora. De acordo com biblistas como a Ir. Mary Thompson, a doença era comumente atribuída à obra de espíritos malignos, embora não necessariamente associada ao pecado. O número sete simbolizava que a doença dela era crônica ou muito grave.

 

Mulheres líderes suprimidas

 

Em 312, quando Constantino fez do cristianismo a religião do império, a comunidade cristã foi apanhada em um conflito cultural ao passar do culto em igrejas domésticas, onde a liderança feminina era aceita, para o culto em locais públicos, onde a liderança feminina violava os códigos sociais romanos de honra e pudor.

No século seguinte, os líderes religiosos do sexo masculino no Concílio de Laodiceia suprimiram as líderes mulheres por causa da crença de que as mulheres haviam sido criadas subordinadas aos homens. Durante esse mesmo período, vemos a memória de Maria de Magdala como uma forte discípula e proclamadora da Ressurreição mudando para a de uma prostituta arrependida e pecadora pública. Estudiosos como a Dra. Jane Schaberg acreditam que isso foi feito deliberadamente para desencorajar a liderança feminina na Igreja.

À medida que o conhecimento das muitas discípulas de Jesus desaparecia da memória histórica, as histórias delas se fundiam e se turvavam. A terna unção de Maria de Betânia antes da paixão de Jesus era ligada à mulher “conhecida como pecadora”, cujas lágrimas lavaram e ungiram os pés de Jesus na casa de Simão. Os textos da unção combinavam todas essas mulheres em uma pecadora pública genérica, “Madalena”. A identificação errada de Maria como pecadora pública reformada alcançou um status oficial com uma poderosa homilia do Papa Gregório, o Grande (540-604).

Daí em diante, Maria de Magdala tornou-se conhecida no Ocidente não como a forte líder mulher que acompanhou Jesus em uma morte tortuosa, que testemunhou por primeiro a sua Ressurreição e eu proclamou o Salvador Ressuscitado à Igreja primitiva, mas como uma mulher devassa que precisava de arrependimento e de uma vida de penitência oculta (e esperançosamente silenciosa). Curiosamente, a Igreja oriental nunca a identificou com uma prostituta, mas a homenageou ao longo da história como “a Apóstola dos Apóstolos”.

 

Código Da Vinci

 

A publicação de “O Código Da Vinci” em 2002 desencadeou uma ampla controvérsia sobre o verdadeiro papel de Maria de Magdala. Infelizmente, o livro de Dan Brown, embora sendo uma narrativa fictícia envolvente, prestou um desserviço à Maria de Magdala histórica e a outras mulheres líderes da Igreja.

Embora “O Código Da Vinci” transmitisse um belo ideal da unidade essencial entre masculino e feminino, em última análise ele é subversivo em relação à liderança plena e igual das mulheres na Igreja, porque se concentra na ficção do estado civil de Maria, em vez da sua liderança na proclamação da Ressurreição de Jesus.

Não há quaisquer dados históricos ou bíblicos para sustentar a especulação de que Maria de Magdala era casada com Jesus. A alegação de que os escritores antigos não mencionam o seu casamento e descendência por medo da perseguição judaica não se sustenta, porque o Evangelho de João e a maior parte da literatura apócrifa foram escritos após a queda de Jerusalém, quando não haveria nada a temer das autoridades judaicas.

Se Maria de Magdala fosse a esposa de Jesus e mãe de sua prole, é altamente improvável que esses textos omitiriam esses fatos importantes, especialmente porque ela é retratada proeminentemente tanto como a primeira testemunha da Ressurreição quanto como uma líder feminina que, de muitas formas, entendeu a missão de Jesus melhor do que os discípulos homens.

Se Jesus foi casado, não foi com Maria de Magdala, porque então ela seria conhecida como “Maria, a esposa de Jesus”, e não como Maria de Magdala. As convenções literárias e sociais da antiguidade ditavam que, se as mulheres fossem mencionadas (uma ocorrência muito rara), elas quase sempre eram nomeadas pela sua relação com a casa patriarcal, por exemplo: “Joana, mulher de Cuza, alto funcionário de Herodes” (Lucas 8,1-3).

Atipicamente, Maria de Magdala era nomeada de acordo com a cidade de onde ela provinha, e não pelo seu relacionamento com um homem. Os biblistas acreditam que isso indica que ela provavelmente era uma mulher rica e independente, não ligada à casa patriarcal.

Os estudos contemporâneos restauraram com justiça a nossa compreensão de Maria de Magdala como uma importante líder cristã das origens. Agora, ela se torna o mesmo modelo inspirador para os discípulos do século XXI. Maria de Magdala foi a primeira a descobrir o túmulo vazio e mostra o Cristo Ressuscitado enviando-a para anunciar a Boa Notícia da sua Ressurreição aos outros discípulos. Isso levou os primeiros Padres da Igreja a chamá-la de “a Apóstola dos Apóstolos”.

O fato de a mensagem da Ressurreição ter sido confiada primeiro às mulheres é considerado pelos biblistas como uma forte prova da historicidade dos relatos da Ressurreição. Se os relatos da ressurreição de Jesus tivessem sido fabricados, as mulheres nunca teriam sido escolhidas como testemunhas, já que a lei judaica não reconhecia o testemunho das mulheres.

 

Referências e indicações de leitura:

 

BROCK, Ann Graham. Mary of Magdala, the Struggle for Authority. Cambridge, MA.:Harvard University Press, 2003.

EISEN, Ute E. Women Officeholders in Early Christianity: Epigraphical and Literary Studies. Collegeville, MN: Liturgical Press, 2000.

FIORENZA, Elisabeth Shussler. “Feminist Theology as Critical Theology of Liberation,” Theological Studies, 1975.

HASKINS, Susan. Mary Magdalen, Myth and Metaphor. New York: Harcourt-Brace, 1993.

HOUSLEY, Kathleen. “Solid Citizen or Prostitute - Two Millennia of Misinformation” Dialog, Fall, 1998.

KING, Karen. The Gospel of Mary of Magdala: Jesus and the First Woman Apostle. Polebridge Press, 2003.

KITZBERGER, Ingrid Rose. “Mary of Bethany and Mary of Magdala,” New Testament Studies, Oct. 1993.

RICCI, Carla. Mary Magdalen and Many Others. Minneapolis: Fortress Press, 1994.

SCHABERG, Jane. The Resurrection of Mary Magdalene. New York: Continuum, 2002.

THOMPSON, Mary R. Mary of Magdala, Apostle and Leader. New York: Paulist Press, 1995.

 

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