Celebrando Santa Maria Madalena, recordamos que a ressurreição também é para nós

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20 Julho 2021

 

“Ao celebrarmos a festa de Santa Maria de Magdala, convido todas as pessoas que sofrem nas mãos das lideranças da Igreja a se lembrarem de Maria de Magdala, a rezarem com ela e a confiarem no amor e no cuidado incondicional de Deus por vocês. A ressurreição também é para vocês.”

Publicamos aqui uma reflexão sobre a festa de Santa Maria Madalena, que ocorre na próxima quinta-feira, dia 22 de julho. O autor é Russ Petrus, codiretor da FutureChurch, uma organização pela reforma da Igreja que busca mudanças que proporcionem a todos os católicos romanos a oportunidade de participar plenamente na vida e na liderança da Igreja.

Antes do seu trabalho com a FutureChurch, Russ atuou no ministério paroquial em Boston e Cleveland. Ele tem mestrado em Teologia pela Escola de Teologia e Ministério do Boston College, tendo realizado a maior parte de seus estudos na Weston Jesuit School of Theology.

Para ler os textos bíblicos da festa de Santa Maria Madalena, clique aqui.

O artigo foi publicado em New Ways Ministry, 18-07-2021. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

 

Eis o texto.

 

O dia 7 de julho foi o meu sexto aniversário de trabalho com a FutureChurch, uma organização pela reforma da Igreja que busca mudanças que proporcionem a todos os católicos romanos a oportunidade de participar plenamente na vida e na liderança da Igreja.

Sem eu saber de nada, meu marido, Daniel, compartilhou essa lembrança do Facebook, escrevendo: “Que grande mudança nas nossas vidas quando você se mudou para este trabalho...”. Eu fiquei inundado de emoção ao lembrar daquele dia.

À medida que nos aproximamos da festa de Santa Maria de Magdala, no dia 22 de julho, percebo cada vez mais os ecos da história de Maria na minha própria história. E, rezando com o seu testemunho, encontro-me – de uma maneira inteiramente nova – encarregado e enviado para anunciar a ressurreição, assim como ela há cerca de 2.000 anos.

Depois de muitos anos sabendo que eu era gay, finalmente tomei coragem para “sair do armário” em 2001, quando eu era um calouro no Canisius College, uma instituição jesuíta em Buffalo, Nova York. Eu pulei para os braços abertos da equipe da Pastoral Universitária que celebrou a mim mesmo, os meus dons e as minhas relações.

Foi durante os meus quatro anos na graduação que eu discerni um chamado ao ministério. Namorei e me apaixonei por Daniel, que agora é meu marido. Finalmente vivendo autenticamente, me amando e sendo amado por quem eu era, eu me senti verdadeiramente vivo. E especialmente quando eu estava engajado no ministério.

O texto de Lucas 8,2-3 nos diz que, tendo sido curada de sete demônios, Maria de Magdala – junto com outras mulheres – seguiu Jesus e sustentou o seu ministério com seus recursos. Eu me pergunto: de quais demônios Maria foi curada? Sabemos que não eram os sete pecados capitais (esta é uma invenção posterior, imposta a ela pelo Papa Gregório I). Mas eram o tipo de dúvida pessoal, medo de rejeição, imagens de um Deus que não a amava, uma misoginia internalizada semelhante à homofobia internalizada – questões às quais nós, como católicos LGBTQ+, também somos muito familiares?

Ou eram doenças físicas, como a depressão fisicamente incapacitante, a ansiedade, o abuso de substâncias ou os pensamentos suicidas que muitas pessoas LGBTQ+ carregam consigo?

E como foi quando Jesus a curou? Foi tão simples quanto mostrar o seu amor incondicional e abraçá-la por quem ela era e pelos dons que ela tinha para compartilhar?

Vivificado pelo meu chamado ao ministério, eu segui com ele para a Weston Jesuit School of Theology, em Cambridge, Massachusetts, e obtive um mestrado em Teologia, aprendendo tudo o que eu podia, absorvendo o amor de Deus por mim – por todos nós – assim como Maria de Magdala fizera enquanto seguia Jesus da Galileia.

Seja qual tenha sido a sua cura, Maria deve ter se sentido verdadeiramente viva depois disso – abraçando a si mesma, seguindo Jesus, amando e sendo amada por ele, aprendendo com ele e compartilhando o seu ministério. O que mais poderia tê-la compelido a segui-lo até a cruz, mesmo quando os discípulos homens fugiram de medo?

Depois de anos vivendo com integridade, as coisas começaram a mudar para mim quando eu comecei a trabalhar nas paróquias diocesanas. A vida honesta e autêntica que um dia eu abracei não era acolhida e abraçada na minha própria Igreja. De fato, ser autêntico se tornou um risco – uma ameaça ao meu sustento e a tudo pelo qual eu trabalhei e estudei tanto.

Nesse ambiente hostil, assim como os homens que seguiram Jesus, eu me vi negando... escondendo... traindo. Logo eu estava de volta ao armário, coagido por conselheiros e pastores bem-intencionados, e por ameaças de autoridades eclesiásticas. Bloqueei a minha conta do Facebook e cuidadosamente selecionei tudo o que eu havia postado ou havia sido postado sobre mim.

Daniel e eu sempre moramos do outro lado da paróquia, para que ninguém acidentalmente nos visse juntos. Se alguém se deparasse conosco em um encontro, eu o apresentava como “meu amigo”.

Com o passar do tempo, meu corpo começou a se revoltar, apresentando sérios sinais de estresse crônico. Dois terapeutas me disseram que eu não poderia continuar vivendo essa vida “fechada no armário”. Dado o estresse sobre nós dois, não surpreendentemente, meu relacionamento com Daniel estava em uma fase conturbada. No entanto, eu não sabia mais o que fazer. Ainda estava pagando pelo meu diploma e não pude deixar de me perguntar se os 14 anos anteriores e os milhares de dólares gastos não tinham sido em vão.

Os Evangelhos nos dizem que, seja sozinha (Jo 20,1), seja com outras mulheres (Mt 28,1; Mc 16,1; Lc 23,55-24,3), Maria de Magdala se dirigiu ao sepulcro naquela primeira e perigosa manhã de Páscoa. O que passou pela sua cabeça para fazê-la ir ungir o corpo de Jesus? Será que ela se perguntou se tudo tinha sido em vão? Será que ela se arrependeu de “desperdiçar” seus preciosos recursos? Será que a unção do corpo dele levaria a encerrar um ciclo? Será que ela seria capaz de fazer as pazes com tudo o que acontecera? E, ao olhar para o túmulo vazio, será que ela se sentiu confusa e com medo de não saber o que fazer em seguida?

Então aconteceu – o Jesus Ressuscitado se revelou a ela! Ele lhe confiou a Boa Notícia da Ressurreição e a enviou para proclamá-la em seu nome. E, como fiel seguidora que sempre foi, ela foi anunciar a notícia aos apóstolos. Ressurreição! A vida mudou – não apenas para ela, mas para todos e para sempre.

Enquanto espiava na minha própria caverna escura, eu finalmente cheguei à conclusão de que era hora de fazer uma mudança – seja lá o que isso significasse. E assim eu abri uma janela do navegador de internet e comecei a minha busca por uma nova forma de ministério. E, para a minha surpresa, encontrei uma vaga para diretor de programa em tempo integral na FutureChurch, uma organização dedicada à justiça na Igreja. Candidatei-me e fui contratado!

Assim como Maria de Magdala, eu não podia saber o que encontraria ao enfrentar o meu túmulo, mas não devia ficar surpreso ao encontrar o amor de Deus por mim, até mesmo naquele lugar desolado.

Hoje, eu vivo a minha vida e o meu ministério com o meu “eu” autêntico. E, com gratidão, lembro o que aquela mudança significou para mim e para Daniel: nós dois poderíamos viver e ser as pessoas que Deus amou e trouxe à existência. Quando a igualdade no casamento se tornou lei no país, nós nos casamos. Agora, podemos morar onde quisermos e, quando saímos para um encontro, posso orgulhosamente apresentá-lo como meu marido. Sou mais uma vez o católico gay orgulhoso e barulhento que sempre gostei de ser. Ressurreição!

Enquanto me esforço para viver o meu chamado, eu me solidarizo com outras pessoas que estão lutando – com Deus, com a Igreja, com a família, com os colegas de trabalho ou com outras pessoas significativas. Eu experimentei meus próprios demônios, meu próprio pranto sobre um túmulo vazio. Mesmo assim, felizmente, sei que a ressurreição não foi apenas para Jesus. Ele a compartilhou. Com Maria Madalena em primeiro lugar, e com todos nós – como algo a ser experimentado, como algo a ser proclamado – a cada dia das nossas vidas.

Por isso, ao celebrarmos a festa de Santa Maria de Magdala, convido todas as pessoas que sofrem nas mãos das lideranças da Igreja a se lembrarem de Maria de Magdala, a rezarem com ela e a confiarem no amor e no cuidado incondicional de Deus por vocês. A ressurreição também é para vocês.

 

Nota do Instituto Humanitas Unisinos – IHU

 

No dia 21 de julho de 2021, às 10h, o Instituto Humanitas Unisinos – IHU realiza a conferência A Inclusão eclesial de casais do mesmo sexo. Reflexões em diálogo com experiências contemporâneas, a ser ministrada pelo MS Francis DeBernardo, da New Ways Ministry – EUA. A atividade integra o evento A Igreja e a união de pessoas do mesmo sexo. O Responsum em debate.

 

A Inclusão eclesial de casais do mesmo sexo. Reflexões em diálogo com experiências contemporâneas

 

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