“Chega de gaiolas!”: Carlo Petrini e a batalha pelo bem-estar animal

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19 Julho 2021

 

 

Criação mais ética: a Comissão Europeia apresentará um projeto de lei em 2023 e a proibição deve começar a partir de 2027. O fundador do Slow Food: "Respeitar e acompanhar os produtores individuais para a mudança".

A partir de 2027 as gaiolas serão proibidas nas fazendas de criação, anunciou a Comissão Europeia. Uma decisão histórica, resultado de um movimento de sensibilização popular, criado pelos Cidadãos Europeus (Ice), que começou em 2018 com a petição "End the Cage Age", assinada por 1,4 milhão de cidadãos europeus, que obrigou as instituições a enfrentarem o tema. A Comissão declarou, portanto, que apresentará uma proposta de lei para 2023 para proteger várias espécies de animais objeto de criação intensiva, incluindo: galinhas, porcos, vitelos, coelhos, patos e gansos (mais de 300 milhões por ano na UE), com o programa para bani-las em 2027. Pedimos a Carlo Petrini, criador e líder do movimento Slow Food, um dos principais promotores e signatários da petição, que comentasse esta importante decisão e suas consequências.

“Nos últimos anos, a sensibilidade para as questões éticas relacionadas com a alimentação aumentou enormemente - afirma Carlo Petrini -. Isso graças a milhões de jovens em todo o mundo que pressionam para que a situação mude, garantindo à humanidade um maior respeito pelos ecossistemas e, acima de tudo, um futuro. Do meu ponto de vista, existem dois elementos que determinaram essa virada: o primeiro é o crescimento da sensibilidade humana em relação ao bem-estar animal; comparando com o período de minha juventude, o elemento ético e a empatia com as demais espécies que habitam nosso planeta adquiriram um peso muito importante no pensamento humano. O outro elemento é a necessidade de países como a Itália de reduzirem drasticamente o consumo de carne de forma significativa, porque é absolutamente insustentável tanto no que se refere à saúde, quanto ao manejo e sobrevivência dos ecossistemas”.

 

A entrevista é de Stefano Pesce, publicada por La Repubblica, 16-07-2021. A tradução é de Luisa Rabolini.

 

Eis a entrevista.

 

Vejamos também o lado dos produtores e das empresas: o que implicará essa mudança na gestão das criações intensivas? As empresas terão condições de se "converter" a tempo?

Não podemos prever o futuro, mas certamente, orientá-lo é possível. Essa transição deve acontecer respeitando e acompanhando os produtores individuais à mudança, na certeza de que a lenta conversão para produções mais equilibradas também pode ter sua própria sustentabilidade econômica. Aliás, é amplamente acertado e verificado que as formas de criação intensiva, típicas das economias em grande escala, são economicamente pouco sustentáveis para os próprios produtores, mas atendem perfeitamente o jogo dos empresários/varejistas, que têm todo interesse em ter uma matéria prima do menor preço possível, para aumentar suas margens de lucro na venda ao consumidor final. Ao contrário, um produtor dono da própria cadeia produtiva, que produz uma matéria-prima saudável e valorizada por um preço justo que ele atribui diretamente, é um produtor mais forte, que pode dialogar diretamente também com o consumidor final, estabelecendo relações virtuosas que dão sentido para o seu papel na sociedade. É um passo que exige paciência, criatividade e a convicção de que o caminho que estamos percorrendo é o único que conduz a um futuro harmonioso e vivível.

 

Para você, que dedicou a sua vida ao desenvolvimento e à promoção de uma ética do alimento e no alimento, que com o Slow Food mudou a forma de pensar no alimento e em tudo o que o rodeia, 2027 será uma grande linha de chegada ou um importante ponto de partida?

De vários ambientes escuta-se falar essa palavra mágica 'transição ecológica', palavra que na realidade identifica um período de tempo, que provavelmente será longo, durante o qual a humanidade será chamada a mudar radicalmente seus modelos de produção, sistemas de distribuição, forma de viajar, estilo de vida. Assim como a revolução industrial alterou todos os parâmetros da nossa vida civil três séculos atrás, e tudo isso perdura até hoje. A transição ecológica é indispensável, caso contrário a humanidade não terá futuro, mas deve ocorrer de forma gradual e respeitando as exigências de todos.

Portanto, vejo 2027 como um grande ponto de chegada, para aqueles que, como eu e como o movimento que represento, lutam por mudanças há quase quarenta anos; numa perspectiva mais ampla, a decisão da União Europeia aparece ao mesmo tempo como um primeiro ponto de partida importante, pois são muitas as cadeias produtivas que devem ser postas em discussão, não só aquela da carne, mas também a do pescado, que se baseia totalmente na exploração indiscriminada dos recursos marinhos, aquela vegetal que destrói ecossistemas inteiros em nome das monoculturas intensivas, e o que dizer à cadeia produtiva das embalagens: vivemos em um mar de plástico, graças à exasperação dos hábitos de consumo ligados ao conceito de porção individual e de uso único, que atendem o jogo da indústria, certamente não do planeta.

A partir disso entende-se que na base dessa transição ecológica, existe também a necessidade de mudar não só as cadeias produtivas, mas os nossos próprios comportamentos de consumo numa perspectiva de contração e convergência, e isso fica bem compreendido ao se analisar os consumos de carne no planeta, onde precisamos contratar 125 quilos per capita dos estadunidenses por ano e, ao contrário, redistribuir e convergir o desperdício de alimentos para compensar os 5 quilos anuais de cada habitante da África subsaariana. Nós, na Itália, hoje consumimos 95 quilos, mas quando eu era criança, na década de 1950, os italianos consumiam 40 quilos de carne per capita por ano, e o CREA, (ex-Instituto Nacional de Nutrição - ndr) afirma que meados da década de 1950 é o período em que os italianos comeram melhor em toda a sua história. Entendemos bem, portanto, que sem essa dupla passagem - mudança de estilos de produção e mudança de estilos de consumo - tudo o que dissemos é totalmente inútil.

 

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