O alimento é uma religião. Artigo de Marino Niola

Revista ihu on-line

Metaverso. A experiência humana sob outros horizontes

Edição: 550

Leia mais

Caetano Veloso. Arte, política e poética da diversidade

Edição: 549

Leia mais

Mulheres na pandemia. A complexa teia de desigualdades e o desafio de sobreviver ao caos

Edição: 548

Leia mais

Mais Lidos

  • Celibato dos padres no centro do Sínodo. O caso dos abusos impulsiona as reformas

    LER MAIS
  • A geração Z é a geração ‘do Fim do Mundo’. Entrevista com Carlos Tutivén Román

    LER MAIS
  • Ratzinger, além de Munique, há uma página negra em seu pontificado. Artigo de Marco Politi

    LER MAIS

Newsletter IHU

Fique atualizado das Notícias do Dia, inscreva-se na newsletter do IHU


16 Julho 2021

 

"Na disseminação contemporânea de dietas baseadas na privação, na abstinência deste ou daquele alimento, num intransigente ascetismo secular, reaflora a longa sombra dos preceitos religiosos. E de ideais religiosos como a askesis, isto é, a pureza, da qual deriva a palavra ascese. Que consiste em praticar um estilo de vida moderado, de renúncia, comedido e não violento. Hoje diríamos politicamente correto. Obviamente na mesa é lícito fazer o que cada um pensa. Saciar-se ou abster-se, recompensar-se ou punir-se. Mas é útil saber que a nossa crença nutricional quase sempre tem uma crença religiosa por trás dela. Afinal, crentes ou não, gostemos ou não, toda vez que nos sentamos à mesa tentamos comer como Deus manda", escreve o antropólogo italiano Marino Niola, professor da Università degli Studi Suor Orsola Benincasa, em Nápoles, Itália, em artigo publicado por La Repubblica, 15-07-2021. A tradução é de Luisa Rabolini.

 

Eis o artigo.

 

Sacrificar aos deuses significa principalmente alimentá-los. Quem afirma isso, é o filósofo alemão Ludwig Feuerbach. É como dizer que se o homem é o que come, Deus também o é. Porque na realidade, desde que o mundo é mundo, através das escolhas alimentares cada povo constrói simultaneamente a imagem de si e da divindade. Nesse sentido, o alimento, justamente como combustível da história, é também a matéria-prima da religião. E as normas alimentares são o fundamento das normas morais, não sua consequência.

Todo decálogo religioso, de fato, é um menu disfarçado. O que é lícito e o que é proibido, os tempos e as modalidades de cozimento, da produção e do consumo, o convívio, a comunhão, a troca, as formas de sacrifício, as regras de abate de animais e produção de alimentos, têm sempre um fundamento sagrado. No sentido em que os homens atribuem à vontade dos deuses normas, usos e consumos que na realidade eles próprios criaram. Mas que adquirem uma autoridade indiscutível, superior, quando são sacralizados. Esta passagem de mãos, dos humanos para os divinos, serve, em princípio, para pôr um limite aos apetites individuais, transformando o excesso em pecado, para favorecer uma redistribuição mais ampla dos recursos alimentares.

É por isso que as religiões enfatizam a importância da partilha, da comunhão alimentar. Que para os cristãos tem o seu modelo na Última Ceia, quando Cristo oferece à humanidade o dom-perdão do seu corpo, transubstanciado em pão e vinho. Como se o alimento partilhado adquirisse um valor acrescido, um plus espiritual, que nutre a alma e a carne juntas. E é por isso que no Antigo Testamento o profeta Amós, setecentos anos antes de Cristo, troveja contra o sobrepeso. "Ouvi esta palavra vós, vacas de Basã, que oprimis aos pobres". Também bate forte nessa tecla Isaías, que coloca os obesos entre os ímpios, porque sua voracidade ultrapassa os limites do lícito e do justo. Por uma razão semelhante, Dante joga os glutões no Inferno.

Olhando bem, o que é objeto de todos esses anátemas não é o sobrepeso em si, mas o egoísmo de quem come tudo, engordando às custas dos outros. E um padre da Igreja do calibre de Tertuliano afirma que uma pessoa magra terá menos dificuldade para entrar no reino dos céus que, notoriamente, tem uma porta estreita. Traduzindo em termos de peso e medida a parábola evangélica do camelo, que passa disparando pelo furo da agulha, enquanto o rico Epulão, aquele que segundo o evangelho de Lucas " vivia todos os dias regalada e esplendidamente", fica preso entre os alizares celestiais. De fato, não estamos longe do que dirá o Papa Paulo VI em 1967 na sua encíclica Populorum progressio, “os ricos saibam que os pobres estão à sua porta e esperam os sobejos dos festins”.

Também no mundo politeísta do Mediterrâneo, um fio duplo liga a mesa à religião. Na Grécia e em Roma, o consumo dos alimentos que constituem a base da tabela nutricional - cereais, carnes e vinho - está ligado aos deuses e às refeições sacrificais. Os animais são sacrificados de acordo com um ritual específico que em grego é chamado de thusia, oficiado por um sacerdote-açougueiro, o mageiros. Pele, gordura e ossos são jogados no fogo que arde no altar para oferecê-los aos imortais, que se nutrem de aromas e eflúvios. Enquanto dianteiros e quartos são devorados pelos cidadãos. Que socializam à mesa com os mais pobres através de instituições sagradas como as "ceias de Hécate", a deusa da noite, onde os alimentos do sacrifício, pagos pelos abastados, são rigorosamente consumidos pelos pobres.

Efetivamente, justamente desses banquetes sagrados nasce aquela que nós chamamos de esfera pública, koinon, em oposição à esfera privada, idion, distinção que ainda hoje alimenta nosso pensamento político. Em outras palavras, a democracia ateniense nasceu à mesa, mas uma mesa com vista para o Olimpo. Algo semelhante acontece em Roma. Na verdade, de acordo com um grande historiador das religiões como John Scheid, grande parte do nosso léxico político atual deriva precisamente da terminologia dos banquetes sacrificiais romanos.

Por exemplo, a palavra "participação", que para nós é o mantra da cidadania, vem de pars capere, literalmente participar da refeição sacrificial. E princeps, do qual o nosso príncipe deriva, vem de primus capere, ou seja, aquele que é servido primeiro. Em suma, o sacrifício serve para restabelecer um equilíbrio com o deus consagrando-lhe um alimento. Mas, ao mesmo tempo, determina a identidade de um povo, por meio do compartilhamento dos hábitos alimentares, influenciando o gosto, a sensibilidade, as relações sociais, as diferenças de gênero.

Segundo Pitágoras, o primeiro patrocinador do vegetarianismo, uma mulher que queria ser irrepreensível, piedosa, em uma palavra "perfeita", deveria preferir a alface, porque anestesia o desejo de que as jovens seriam ricas por natureza. Deixando de lado as carnes que ao invés excitam os sentidos e a alma. Quem sabe se a atual preferência feminina pelas saladas, além de ser por questões de educação e linha, tenha algo a ver com esse remoto eco religioso. Um eco que nunca mais deixou de habitar o nosso imaginário, gastronômico e não só. Porque ética e dietética, equilíbrio e consciência, saúde e salvação muitas vezes andam de mãos dadas.

E na disseminação contemporânea de dietas baseadas na privação, na abstinência deste ou daquele alimento, num intransigente ascetismo secular, reaflora a longa sombra dos preceitos religiosos. E de ideais religiosos como a askesis, isto é, a pureza, da qual deriva a palavra ascese. Que consiste em praticar um estilo de vida moderado, de renúncia, comedido e não violento. Hoje diríamos politicamente correto. Obviamente na mesa é lícito fazer o que cada um pensa. Saciar-se ou abster-se, recompensar-se ou punir-se. Mas é útil saber que a nossa crença nutricional quase sempre tem uma crença religiosa por trás dela. Afinal, crentes ou não, gostemos ou não, toda vez que nos sentamos à mesa tentamos comer como Deus manda.

 

Leia mais

Comunicar erro

close

FECHAR

Comunicar erro.

Comunique à redação erros de português, de informação ou técnicos encontrados nesta página:

O alimento é uma religião. Artigo de Marino Niola - Instituto Humanitas Unisinos - IHU

##CHILD
picture
ASAV
Fechar

Deixe seu Comentário

profile picture
ASAV