Ecologia: dois séculos para abandonar o negacionismo

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01 Julho 2021

 

Durante muito tempo em minoria, os pensadores e cientistas que aos poucos foram tomando consciência dos males causados pelo homem à natureza acharam difícil livrar-se do jugo do produtivismo.

A reportagem é de Hervé Nathan, publicada por Alternatives Économiques, 30-06-2021. A tradução é de André Langer.

Houve um mundo sem Nicolas Hulot. Este mundo, em que nenhum partido político incluiu a defesa do meio ambiente em seu programa, teria considerado ainda mais incongruente que 150 cidadãos se reunissem em um prédio oficial para pedir-lhe que definisse os meios para combater o aquecimento global. Este mundo, tão indiferente à ecologia que a própria palavra não existia, não está tão distante de nós, pois dele apenas duas ou três gerações nos separam.

Recuar no tempo às lutas pelo meio ambiente, como propomos neste dossiê, é, portanto, redescobrir sociedades (principalmente ocidentais) em que a consciência da destruição infligida pela atividade humana à natureza parece reservada a artistas, como os pintores da escola de Barbizon, que, a partir dos anos 1860, obterão do imperador Napoleão III a criação de “reservas artísticas” na floresta de Fontainebleau. Mas o próprio nome do que hoje é o ancestral de todos os parques naturais do mundo mostra que esse progresso foi menos sobre a preservação dos espaços naturais pelo que são, do que pela satisfação do desejo estético dos contemporâneos.

Para o Jean-Jacques Rousseau do livro Os devaneios do caminhante solitário ou os românticos alemães, a natureza é, em primeiro lugar, um cenário esplêndido no qual o homem sente emoções ou se enraíza em seus mitos. Do outro lado do Atlântico, Henry David Thoreau também celebra a beleza das árvores da Nova Inglaterra com seu livro Walden ou a vida nos bosques. O precursor da desobediência civil de fato inventa o “nature writing”, um gênero literário tipicamente americano, mas não impede absolutamente o desmatamento.

Seus contemporâneos científicos não avançaram muito mais. “O termo ecologia vai reaparecer somente no final do século XIX na pena de botânicos que estudam as causas da distribuição das plantas na superfície do globo. Na verdade, trata-se de uma problemática ecológica, pois se trata de estudar as relações entre os seres vivos, as plantas e seu ambiente”, explica Patrick Matagne, historiador das ciências na Universidade de Poitiers.

Inventário dos seres vivos

Mas teriam esses “sábios”, como eram chamados na época, a consciência de serem ecologistas, no sentido que damos a este termo hoje? Podemos ter nossas dúvidas, se considerarmos o caso do próprio inventor da palavra ecologia, Ernst Haeckel. Este biólogo alemão usou este termo para designar o estudo das relações das plantas entre si, fora da pressão humana. Em sua defesa, devemos lembrar que a luta dos cientistas da época, além do trabalho ciclópico que constituía o inventário dos seres vivos, era fazer que a teoria da evolução fosse aceita contra o obscurantismo religioso. Uma luta nada fácil de ganhar, uma vez que ainda prossegue, principalmente nos Estados Unidos! Naturalistas e geógrafos dos séculos XVIII e XIX, como Alexander von Humboldt, também vivem suas contradições, pois muitas vezes participam, pessoalmente ou por meio de suas pesquisas, de expedições coloniais e, portanto, da exploração dos recursos desenfreados das terras conquistadas. Quando eles percebem isso, como Bernardin de Saint-Pierre, surpreso com o desaparecimento total da floresta primária da Ilha Maurício, só conseguem se dar conta da sua impotência.

A consciência ecológica não sufocou mais nosso famoso Iluminismo. Apenas Jean-Jacques Rousseau viu desde muito cedo como, na então emergente sociedade de luxo e de exploração, o homem perderia sua relação harmoniosa com a natureza. Mas por ter introduzido uma ruptura com Descartes, para quem o homem é “o senhor e dominador da natureza”, ele se viu isolado em sua própria corrente de pensamento. O confronto é radical: “os enciclopedistas veem no progresso tecnológico um fator de emancipação”, observa o filósofo e professor da Universidade Paris-Sorbonne Serge Audier, para quem essa cesura perdurará e se aprofundará nas décadas seguintes.

“Há em certas franjas do socialismo, do anarquismo e mesmo do republicanismo social, um certo número de personalidades ou de correntes que percebem a coerência do capitalismo como um sistema de dominação e de destruição, que destrói a vida dos trabalhadores, explorando-os, mas também destruindo e explorando a natureza e as paisagens, estima Audier. Esses libertários, progressistas ou socialistas românticos, compreendem mais ou menos a necessidade de articular a solidariedade social entre os seres humanos e a solidariedade com a natureza e com toda a Terra. Mas são muito poucos, e mesmo dentro dessas correntes minoritárias podemos constatar a crescente influência daquilo que chamo de hegemonia produtivista, que sustentará grande parte do progressismo de esquerda”.

Cegueira produtivista

Karl Marx, através da sua influência no movimento socialista, desempenha um papel considerável e, infelizmente, negativo. O autor de O Capital forjou as ferramentas intelectuais para entender como a lógica mercantil do capitalismo esgota as capacidades da natureza. Mas “está fascinado por este mesmo capitalismo, cuja ‘função civilizadora’ ele enaltece, que tira a humanidade do seu atraso e do culto regressivo da natureza e permite-lhe chegar a um estágio superior... desde que, claro, o supere!”, lembra Serge Audier. A cegueira produtivista ocidental será transmitida aos países do Terceiro Mundo depois que saírem da colonização. O exemplo mais gritante é o da Índia, que durante várias décadas negligenciou um ensinamento que Gandhi oferecia já em 1909.

A travessia do deserto durou até o final dos anos 1960 quando, como lembra Guillaume Carbou, mestre de conferências em Ciências da Informação e da Comunicação na Universidade de Bordéus, no nº 90 de L'Economie Politique (maio de 2021), “as lutas ambientalistas, somadas aos movimentos de emancipação a partir de Maio de 68, constituem importantes centros de reflexão ecológica. Através da oposição às usinas nucleares ou nas tentativas de inventar uma vida alternativa no planalto de Larzac, grupos militantes teorizam suas lutas e produzem toda uma ‘literatura cinza’ relativamente efêmera e dispersa (...). O best-seller mundial da bióloga Rachel Carson escrito em 1964, Primavera silenciosa, escancara os perigos da difusão em massa dos pesticidas para a biodiversidade. Por sua vez, o famoso Relatório Meadows para o Clube de Roma (1972) modela os vários riscos de colapso ecológico que nossa sociedade em crescimento pode enfrentar”. Então podem ser divulgadas na França as obras de André Gorz, Ivan Illich, Serge Moscovici, Françoise d´Eaubonne e Félix Guattari.

Serão necessários quase duzentos anos para que surja a ecologia política, “construída em oposição à economia de mercado, ao desenvolvimento tecnológico permanente e à cultura do excesso em todos os campos”.

Os profetas da ecologia provaram duramente o adágio que diz que “ninguém é profeta em sua própria terra”, e talvez devêssemos ser duplamente gratos a eles!

 

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