“A Bíblia nos ensina a proteger e amar a terra. A aliança entre ciência e fé é central”. Entrevista com o Cardeal Ravasi

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10 Março 2021

"Ama o próximo como a ti mesmo significa amar a terra como a ti mesmo: para a Igreja tudo o que é criação é ao mesmo tempo 'bom e belo' e ter rompido aquela harmonia original é um crime”. Em seu último livro, Il grande libro del Creato. Bibbia ed ecologia (O Grande Livro da Criação. Bíblia e Ecologia, em tradução livre, San Paolo ed.)

Sua Eminência Gianfranco Ravasi, especialista bíblico e de cultura judaica, cardeal desde 2010 e presidente do Pontifício Conselho para a Cultura e da Pontifícia Comissão de Arqueologia Sagrada, fala da riqueza "ecológica" da Bíblia e o valor simbólico da luz, água, montanhas, árvores, animais, alimento. E explica, com paixão, por que fé e ciência não são absolutamente divergentes, aliás, mesmo no que diz respeito ao meio ambiente, podem andar juntas, como mostrou a encíclica Laudato si' do Papa Francisco.

 

A entrevista com Gianfranco Ravasi é de Elisabetta Ambrosi, publicada por Il Fatto Quotidiano, 09-03-2021. A tradução é de Luisa Rabolini.

 

Eis a entrevista.

 

Il grande libro del Creato. Bibbia ed ecologia

Cardeal Ravasi, como foi que perdemos todo o senso da sacralidade da terra e de seus elementos e de que forma a Bíblia pode nos ajudar a redescobri-lo?

Não só na Bíblia, que é o grande código da cultura ocidental para crentes e não crentes, mas em todas as culturas existe uma concepção também simbólica da natureza, pela qual o mundo é quase como um texto a ser lido. Infelizmente, hoje prevalece uma concepção puramente funcional e técnica, que nem sequer é aquela própria da ciência. Na verdade, ciência é mais do que a técnica, representa também uma tentativa de descobrir os efeitos externos da pesquisa, sem confiar tudo à mera funcionalidade que é deletéria porque considera a natureza apenas como um instrumento a ser usado e jogado fora, quando não é mais útil e aproveitável.

Hoje fala-se muito sobre as causas humanas da exploração ambiental: é o conceito de "Antropoceno". Poderíamos também usar categorias éticas como aquela do pecado, do mal para descrever o que o homem fez à natureza?

Diante da agora evidente devastação do meio ambiente e dos diversos sinais de degradação, duas categorias foram adotadas. A primeira é o que poderíamos definir científico-econômica, específica dos grandes encontros internacionais, que colocam o problema da degradação do meio ambiente causada pelo homem, justamente o conceito de Antropoceno. Tratados como os de Kyoto e Paris são um elemento importante para reconhecer o que se fez de errado e deve ser corrigido.

E a segunda?

A segunda proposta é aquela das religiões, segundo as quais a questão ecológica também tem um viés ético e moral. A Bíblia começa com um grande afresco da criação. Os primeiros dois capítulos do Gênesis são a celebração de sua beleza. E lemos que Deus disse que a criação era "boa e bela", em hebraico tôb, justamente, que significa três coisas juntas, bondade, beleza, utilidade. No entanto, no terceiro capítulo logo é posto em destaque que o homem, chamado a "guardar e cultivar a terra", descobre que transformou o jardim da criação em uma terra que produz espinhos e cardos e se tornou um deserto. Aqui estão duas dimensões: a consciência "laica" de compreender que foi cometido um crime que repercute na natureza e a religiosa que torna a humanidade consciente de ter cometido um pecado que rompe a harmonia desejada pelo Criador.

As pragas do Egito mencionadas na Bíblia parecem ser a representação do que está acontecendo hoje: seca, gafanhotos, parasitas. Mesmo assim, não conseguimos interpretar esses sinais pelo que são.

Aquelas páginas são, obviamente com as categorias científicas da época, a representação de fenômenos modernos e atuais. Na história das pragas do Egito, por exemplo, está o Nilo vermelho, que é o resultado de microrganismos que, ao se degradarem, poluem a água; depois há a retirada do Nilo, com a produção de alguns parasitas e piolhos ligados às áreas africanas; tem a mosca tropical que ataca animais e humanos, enfim os gafanhotos que causam prejuízo à agricultura e até, na sexta praga, uma espécie de problema de pele provavelmente causado pelo antraz e uma situação ambiental degradada.

O senhor não considera, entretanto, que o mundo católico tem ignorado a questão ambiental por muito tempo, talvez para se concentrar em pecados talvez menos graves?

No relato do Gênesis, o homem está no topo de todas as outras criaturas, mas é criado no sexto dia. E sabemos que o “seis” na Bíblia é um sinal de imperfeição, na verdade o sétimo dia é o tempo de Deus, do transcendente. Portanto, o homem e a mulher são relevantes na criação, mas são relevantes com suas limitações, para o bem, mas também cada vez mais para o mal. De vice-rei, aquele que dá nomes aos animais e cultiva a terra, o homem, transforma-se em um tirano. É importante que as religiões voltem a enfatizar essa irmã que é a natureza: ame o próximo como a si mesmo e também a terra é nosso próximo.

É o significado da Laudato si' do Papa Francisco, que deu uma virada "ambiental" à Igreja. A Laudato si' por um lado celebrou o valor simbólico e espiritual da criação, que inclui também um aspecto que vai além da religião, o aspecto estético, o da maravilha, a contemplação do céu, das estrelas, as "constelações obras dos seus dedos", como diz o Salmo 8.

Mas nesta encíclica o Papa Francisco combina este aspecto espiritual com os temas das mudanças climáticas, biodiversidade, das gerações, dos OGM e assim por diante, mostrando que as questões espiritual e científica são dois caminhos, mas caminham juntas. No meu livro dedico um capítulo precisamente à relação entre ciência e fé: para além das diferentes metodologias, são dois trilhos que devem correr paralelamente, mas às vezes é necessário que se cruzem para permitir que a humanidade viva.

O problema da proteção ambiental pode, portanto, relançar uma nova aliança entre leigos e católicos?

Reitero mais uma vez a centralidade da aliança entre ciência e fé. Em conexão com a palavra "fé", também podemos colocar filosofia, arte, poesia. Não existe apenas a resposta tecnológica, como infelizmente muitos acreditam hoje: o próprio Steve Jobs, em seu famoso discurso em Harvard aos alunos, disse que uma combinação de tecnologia e cultura, humanismo e ciência é necessária para garantir que uma "música flua do coração". Não só isso: colocar o homem e a natureza no centro poderia ser o elemento radical de um novo diálogo intercultural e inter-religioso e de um novo universalismo.

Mas na sua opinião de onde virá a mudança? Da política? Da sociedade?

É inevitável que agora, depois da falta de visão manifestada por alguns políticos, se crie cada vez mais uma sociedade que tem uma sensibilidade ecológica que se entrelaça com aquela econômica, no sentido de que se sabe que, se a natureza é explorada ou devastada em demasia, não sobrevivemos mais. Além da experiência da pandemia que gerou um choque existencial, começamos a entender que o consumismo desmedido e a industrialização sem limites nos colocam em uma crise geral. É também a experiência da morte, tanto de um mundo que se torna deserto, como da própria morte das pessoas humanas.

E os jovens como Greta Thunberg?

É significativo que as gerações mais jovens sintam a emergência ambiental mais do que nós. Estamos vinculados a modelos industriais do passado. E a Laudato si' quis colocar uma espécie de selo neste anseio de humanidade. Greta pode ser um símbolo, mas o importante é que haja sensibilidade entre todos os jovens. Jesus mudou a representação de crianças e jovens que no antigo Oriente não tinham personalidade jurídica e nem eram registrados até a maioridade. Jesus diz: "A menos que você se torne como eles, não entrará no reino dos céus". E, portanto, os jovens podem ser uma lição que penetra em nossas consciências endurecidas de adultos.

 

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