‘E agora homilias e diaconato para as mulheres’, defende o teólogo tcheco Thomas Halik

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10 Março 2021

Não é o mundo que deve mudar, mas a Igreja; porque a mudança, que deve ser lenta e constante, é um elemento que lhe pertence. E esta é a hora das mulheres. Assim afirmou o teólogo tcheco Thomas Halik em uma longa entrevista, que aborda vários assuntos, publicada no portal alemão de informações religiosas katholisch.de (8/3) por ocasião do lançamento de seu novo livro, Die Zeit der leeren Kirchen (O tempo das igrejas vazias, em tradução livre).

Halik, 73, foi ordenado sacerdote clandestinamente em 1978 e foi um colaborador próximo do Card. František Tomášek, arcebispo de Praga de 1977 a 1991, e de Vaclav Havel. Ele é professor de sociologia e capelão da comunidade acadêmica de Praga; em 2010 recebeu o Prêmio Romano Guardini, e em 2014 o Prêmio Templeton.

A reportagem é de Ludovica Eugenio, publicada por Adista, 08-03-2021. A tradução é de Luisa Rabolini.

A entrevista parte da pandemia e de como, segundo Halik, a decisão de não celebrar a missa deve levar à solidariedade com as pessoas em situações irregulares que "afastaram a Igreja da mesa divina":

Halik se refere em particular nos divorciados novamente casados. “A Eucaristia não é uma recompensa, mas um reforço para nós, fracos, e para quem está em sua própria busca. Por outro lado, isso não significa que possa haver um convite para todos. Mas não podemos simplesmente excluir quem vive em ‘situações irregulares’. Entre eles, há muitos no caminho da fé, famintos e ávidos pelo ‘panis viatorum’. Fundamentalmente, deveríamos sempre nos concentrar nas pessoas que estão à margem. Os que estão nas beiras muitas vezes veem mais: tanto para dentro como para fora”.

Entre estes, as pessoas LGBT: “Olhar para as pessoas em ‘situações de limite’ - disse Halik - significa ampliar os próprios limites mentais. A experiência espiritual de quem está à procura deve ter um lugar na Igreja, pois representa um enriquecimento para ela.

É necessária uma mudança: e “a mudança não é fácil. Mas a Igreja é uma ecclesia semper reformanda. Houve tantas mudanças de paradigma na história da Igreja. Às vezes foi muito difícil. Mas nós mesmos entendemos a crença de maneira diferente hoje do que fazíamos há mil anos. Há uma obrigação de recontextualizar. Esta é a única maneira de permanecermos fiéis à tradição. O contexto deve ser levado a sério se quisermos manter a autenticidade. A autenticidade não reside na imobilidade reacionária. Devemos continuar a nos perguntar qual é a identidade do Cristianismo: não é algo que foi dado de uma vez por todas”.

Em suma, afirma o teólogo tcheco, as mudanças “fazem parte” da Igreja: “Está se tornando cada vez mais claro o quão importantes são as experiências das pessoas fora dela. Devemos finalmente levá-las a sério. A igreja não é um fim em si mesma. Só é preciso mais diálogo e respeito. O Papa Francisco fornece esses estímulos”. "Temos que superar o egocentrismo", continua. “Não só todos nós pessoalmente, mas também a Igreja. Deve renunciar ao seu egocentrismo e ao "narcisismo coletivo". Deve chegar ao cerne, afastar-se dos interesses do poder institucional para se dirigir à sociedade.

Para conseguir chegar a isso, a Igreja deve superar sua estrutura hierárquica: “É um erro de sistema. O Papa Francisco fala com razão de clericalismo”.

E no que diz respeito ao Caminho Sinodal que a Igreja alemã empreendeu precisamente para enfrentar o fracasso do sistema e iniciar um processo de mudança, Halik destaca a importância da reforma, mas também do fundamento espiritual.

Reforma que diz respeito principalmente ao papel das mulheres: “Estou convencido que seja a hora das mulheres. Não podemos perder esta oportunidade. A Igreja muitas vezes perdeu momentos importantes, os "kairos". No século XIX, perdeu a classe trabalhadora; depois muitos intelectuais, com um antimodernismo unilateral; os jovens na década de 1960 através da reação de pânico à "revolução sexual".

Agora vejo o perigo de perder as mulheres. Seu carisma precisa estar mais integrado no ministério”. Nesta conjuntura, Halik avisa: “temos que ir passo a passo, existem muitos estereótipos e preconceitos na Igreja. É uma batata quente. Todos nós sabemos. Neste ponto, existe a ameaça de um cisma. Para isso, precisamos de sabedoria. Um pequeno - muito pequeno - passo foi essa declaração do Papa para o leitorado e o acolitado”.

Em suma, não se deve ter pressa demais: “A reforma pressupõe uma atmosfera calma, mas profunda, de diálogo na Igreja. Temos que trabalhar nisso agora. Com constância, passo a passo”.

Um próximo passo poderia ser confiar às mulheres as homilias e depois o diaconato: “São duas passagens que agora podem ser feitas. A ordenação de sacerdotes é difícil. Não há nada contra da minha parte. Os argumentos contra não me convencem. Quando dizemos que Jesus chamou apenas homens, devemos também dizer que Jesus escolheu apenas judeus. Com tal lógica, não podemos nem mesmo ordenar eslavos, alemães ou chineses. Mas isso é uma questão de hábito, não uma questão realmente teológica. Isso foi decidido por João Paulo II. Esta passagem não é fácil”.

Mesmo sobre a teoria do gênero é presumível que haja progresso: em dez anos, escreve Halik em seu livro, a Igreja olhará para trás com a mesma vergonha que se sente hoje lendo as declarações do século 19 sobre liberdade de imprensa, a liberdade de consciência e a liberdade de religião. “Teremos vergonha de ter recebido os impulsos do Papa Francisco e de não os termos concretizados. O mesmo aconteceu com o Pacto das Catacumbas. Houve impulsos muito importantes de alguns bispos conciliares para seus confrades. Eles não foram ouvidos. O Papa Francisco fez alguns em seu estilo de vida. Esses sinais influenciam a maneira como as pessoas pensam. É por isso que Deus nos envia profetas”.

 

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