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04 Março 2021

 

"A oposição à Campanha, em linhas gerais, se deve a uma fé dualista. Querem separar de um lado a alma e a salvação após a morte; e de outro lado o corpo, a sociedade e o meio-ambiente. Não há lugar para o amor ao próximo que busca a promoção humana, nem para o Reino de Deus já presente neste mundo como semente germinando", escreve Luís Corrêa Lima, padre jesuíta, historiador e professor da PUC-Rio, trabalha com pesquisa sobre gênero e diversidade sexual.

 

Eis o artigo.

 

Afirmar que Ele é a nossa paz é repudiar o ódio, a discriminação, a violência e o racismo. Aí se menciona a cultura de violência contra mulheres, pessoas negras, indígenas e LGBTQI+.

Em meio a intensa polêmica, começou a Campanha da Fraternidade Ecumênica 2021. O seu tema é: "fraternidade e diálogo: compromisso de amor"; e o lema: "Cristo é a nossa paz: do que era dividido fez uma unidade" (Ef 2,14). O texto-base está disponível na íntegra aqui.

Desde 1964, a CNBB promove esta Campanha em nível nacional, no tempo da Quaresma. Há décadas, o papa envia anualmente na Quarta-feira de Cinzas uma mensagem de apoio. Pela quinta vez, a Campanha é ecumênica, envolvendo o Conselho Nacional de Igrejas Cristãs do Brasil (CONIC). Católicos, batistas, anglicanos, luteranos e presbiterianos a promovem.

O lema é tirado da Carta aos Efésios, onde se diz que Cristo "de dois povos fez um só, em sua carne derrubando o muro da inimizade que os separava". Este muro é menção a uma parede do Templo de Jerusalém que dividia o pátio, separando de um lado os judeus e de outro os gentios. Uma inscrição no local advertia os gentios de condenação à morte caso entrassem no espaço reservado aos judeus. Em Cristo, esta divisão não existe mais, pois os que nele creem podem viver em comunhão e diálogo plenos.

A palavra paz, nos idiomas originais da Bíblia, significa a vida em harmonia com o outro e também a integridade de um ser ou de uma sociedade, envolvendo saúde, bem-estar material e espiritual. A fé em Cristo nos ensina a trilhar caminhos de coexistência em sociedades divididas por muros de intolerância.

Afirmar que Ele é a nossa paz é repudiar o ódio, a discriminação, a violência e o racismo. Aí se menciona a cultura de violência contra mulheres, pessoas negras, indígenas e pessoas LGBTQI+.

Proliferou-se o uso indevido de redes sociais com a difusão de fake news (notícias falsas) e de discursos de ódio. Cometeram-se crimes contra ativistas de direitos humanos e lideranças públicas. O de maior repercussão foi o assassinato da vereadora Marielle Franco e do seu motorista Anderson Gomes. Grupos missionários invadem territórios indígenas, demonizando a fé destes povos. A mesma intolerância se dá contra as religiões de matriz africana, caracterizando racismo religioso. Alertar-se contra o aumento de homicídios da população LGBTQI+ e suas causas: o discurso de ódio, o fundamentalismo religioso e as vozes que se opõem ao reconhecimento de direitos desta população (n. 68).

É a primeira vez que a sigla da diversidade sexual e de gênero aparece em uma Campanha da Fraternidade. E aparece oito vezes. Lésbicas, gays, bissexuais, travestis, transexuais, queer gender (não-binários), intersexuais e outros são elencados, juntamente com aquilo que os ameaça.

Muitas são as formas do discurso de ódio homo transfóbico que estão impregnadas na cultura. São palavrões que se referem à pessoa ou à prática homossexual para ofender alguém; são pais que dizem preferir um filho morto a um filho gay, ou uma filha prostituta a uma filha lésbica; e tantas outras.

Quanto ao fundamentalismo religioso, mesmo quando não se interpretam várias passagens da Bíblia ao pé da letra, utilizam-se outras passagens em sentido literal para hostilizar os LGBTQI+. É o que os norte-americanos chamam "balas bíblicas", que devastam a autoestima desta população e podem levar à depressão ou ao suicídio.

Muito se pode aprofundar nos temas trazidos pela Campanha. cristã, direitos humanos e cidadania estão bem presentes e articulados no seu texto. O alcance da Campanha é extraordinário, pois ela é realizada em muitas comunidades religiosas pelo Brasil afora, atingindo até lugares bem longínquos. E muitas iniciativas concretas surgem daí.

A oposição à Campanha, em linhas gerais, se deve a uma fé dualista. Querem separar de um lado a alma e a salvação após a morte; e de outro lado o corpo, a sociedade e o meio-ambiente. Não há lugar para o amor ao próximo que busca a promoção humana, nem para o Reino de Deus já presente neste mundo como semente germinando. Falar de LGBTQI+, feminicídio e Marielle Franco é abominação.

Paradoxalmente, a oposição que gera polêmica acaba promovendo a própria Campanha. O seu belo Hino (disponível aqui) traz esta estrofe:

Venham todos, mulheres e homens,
Superar toda polaridade,
Pois em Cristo nós somos um povo,
Reunidos na diversidade

Oxalá a alegria de ser este povo nos ajude a vencer todo ódio, discriminação e violência.

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