Covid-19 mata Aruká Juma, último ancião de seu povo

Foto: Fotos Públicas

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19 Fevereiro 2021

Aruká sobreviveu ao massacre dos Juma, na década de 1960, mas não resistiu ao novo coronavírus; entidades cobram responsabilidade da Funai.

A reportagem é publicada por Instituto Socioambiental - Isa, 18-02-2021.

Morreu, nesta quarta-feira (17/2), o último ancião do povo Juma. Aruká Juma estava internado há cerca de um mês devido ao agravamento do quadro de Covid-19. Aruká deixa três filhas, Mandeí, Maitá e Borehá, além dos netos Bitaté, Puré, Kunhãvé, Kuaimbu, Kajubi, Thiago Tembu, Mborep, Morangüi, Tejuvi, Anaíndia, Poteí; bisnetos, parentes e amigos. 

Aruká Juma. Foto: Kanindé - ISA

Aruká começou a apresentar sintomas ainda em janeiro e ficou alguns dias internado em Humaitá (AM). Em 26 de janeiro foi hospitalizado novamente e, no dia 2 de fevereiro, foi transferido para o Hospital de Campanha de Porto Velho (RO).

Aruká foi um dos sete sobreviventes do massacre no rio Assuã, no sul do Amazonas, em 1964. O ataque foi perpetrado por comerciantes de Tapauá interessados na sorva e na castanha do território Juma. Mais de 60 pessoas foram assassinadas, em mais um triste capítulo na história de sucessivos massacres que atingiram o povo Juma ao longo dos séculos.

No fim dos anos 1990, Aruká conquistou o reconhecimento de seu território e virou um símbolo de luta e resistência dos povos indígenas da Amazônia. Estima-se que no século XVIII existiam 15 mil indivíduos do povo Juma. A expansão das frentes extrativistas trouxe consigo a violência, e os Juma se viram reduzidos a poucas dezenas na década de 1960. Em 2002 restavam apenas cinco indivíduos: um pai com suas três filhas e uma neta. Os Juma são falantes de uma língua Tupi-Kagwahiva, a mesma dos povos Uru-eu-Wau-Wau, Amondawa, Tenharim e Parintitim.

O antropólogo Edmundo Peggion, que trabalhou com os Juma durante anos, descreveu Aruká como um homem respeitado. “Um homem que detinha muito respeito. Uma pessoa séria, que carregava no semblante toda a experiência de sofrimento, e que trazia com ela a tradição Tupi-Kagwahiva”, afirmou.

Em 1998, os Juma foram transferidos para a Terra Indígena Uru-Eu-Wau-Wau, onde as filhas de Aruká, Mandeí, Maitá e Borehá, se casaram com indígenas Uru-Eu. Anos depois, a família retornou à Terra Indígena Juma. Dois parentes de Aruká faleceram na TI Uru-Eu-Wau-Wau depois da mudança. Hoje, cerca de 17 indígenas habitam a TI Juma. Além de Aruká, outros sete Juma foram contaminados, mas estão em recuperação.

Para Jordeanes do Nascimento Araujo, Professor de Antropologia da Universidade Federal do Amazonas (UFAM), a morte de Aruká deve entrar na conta da Fundação Nacional do Índio (Funai). “Essa contaminação é fruto de total negligência da Funai, que não tem até agora um plano de contigência”, disse. Ele critica o fato de o órgão não ter feito nada para impedir a contaminação de um grupo pequeno, de 17 pessoas. “É a continuidade do extermínio do povo Juma”, lamentou.

A Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib) e o Observatório dos Povos Indígenas Isolados emitiram uma nota sobre o episódio.

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