“Super Mário” da Itália, definido para ser o primeiro-ministro, é um amigo próximo dos Jesuítas

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06 Fevereiro 2021

Desde que foi eleito em março de 2013, o Papa Francisco viu cinco primeiros-ministros italianos irem e virem, e logo ele verá o sexto a assumir o poder – Sim, são sei primeiros-ministros em menos de nove anos. Bem vindos à Itália, onde a mudança de governo é o esporte favorito do país.

A reportagem é de John L. Allen Jr., publicada por Crux, 04-02-2021. A tradução é de Wagner Fernandes de Azevedo.

Depois dos esforços do primeiro-ministro Giuseppe Conte para manter a maioria do parlamento colapsarem na terça-feira, o presidente da República, Sergio Mattarella, anunciou que o mandato de Conte será entregue para ser formado um novo governo com o ex-presidente do Banco Central Europeu, Mario Draghi – ou, como ele é conhecido entre os italianos, “Super Mário”, em referência ao jogo de videogame.

Imagina-se que escutando as notícias, o Papa Francisco não poderia deixar de sorrir.

O Vaticano realmente gostou de Conte, um católico praticante cujo tio era capuchinho e ajudante do Padre Pio no famoso santuário de San Giovanni Rotondo. No entanto, Draghi é igualmente católico e, o que é mais importante, a ordem religiosa com a qual ele tem laços pessoais é a própria Companhia de Jesus, do papa. Para completar, Draghi é membro da Pontifícia Academia de Ciências Sociais e não é todo dia que um membro de uma academia papal se torna Chefe de Estado.

Para ser claro, Draghi ainda não está no comando. Ele primeiro tem que ganhar um voto de confiança nas duas casas da legislatura italiana, e não é uma conclusão precipitada que ele vai conseguir.

Um dos líderes do Movimento Cinco Estrelas, um partido populista com força parlamentar, chamou Draghi de “apóstolo da elite” na terça à noite e disse que votaria não, enquanto o líder do partido de centro-direita Fratelli d'Itália (“Irmãos da Itália”, o título do hino nacional) resmungou, “Chega de governos nascidos nos laboratórios do palácio!”, e exigiu novas eleições.

Por outro lado, os observadores acham que será difícil para a maioria dos legisladores votar contra a figura pública mais famosa da Itália internacionalmente, um homem descrito pela Forbes em 2015 como o “segundo maior líder” do mundo (depois de Tim Cook, CEO da Apple) e que foi descrito por Paul Krugman como indiscutivelmente “o maior banqueiro central dos tempos modernos”.

Draghi foi governador do Banco Central Europeu de 2011 a 2019, durante o pico da crise da zona do euro, e é amplamente creditado por salvar a união fiscal e monetária da Europa. A certa altura, ele se comprometeu a fazer “o que fosse preciso” para evitar que o euro fracassasse, e ele cumpriu.

Seja o que for que valha à pena, enquanto os políticos italianos decidem se vão ou não abraçar Draghi, eles vão tomar essa decisão sabendo que ele tem a bênção tácita do Vaticano e do Papa Francisco.

Draghi se encontrou com o papa pelo menos duas vezes, uma em outubro de 2013 em uma audiência privada com sua família e novamente em maio de 2016 durante uma cerimônia para presentear Francisco com o Prêmio Carlos Magno para a Unidade Europeia. Na ocasião, Draghi estava sentado na primeira fila junto com Angela Merkel, Jean Claude Junker, Martin Schultz e Donald Tusk.

À primeira vista, Francisco e “Super Mário” podem parecer um casal estranho. Francisco é o campeão dos pobres e patrono dos “padres das favelas”, enquanto Draghi habita o mundo das altas finanças e do capitalismo global, e há muito é o campeão da privatização de empresas públicas.

Ainda arranhando abaixo da superfície, a simpatia entre os dois homens tem raízes profundas.

Nascido em Roma em 1947, Draghi perdeu os pais aos 15 anos e foi acolhido por uma tia, que mandou ele e seu irmão para o Instituto Massimiliano Massimo de Roma, uma prestigiosa escola local administrada pelos jesuítas. Draghi passou a maior parte da década de 1970 na escola, onde estabeleceu uma amizade pessoal com o jesuíta que dirigiu o lugar durante seus últimos cinco anos, um italiano chamado padre Franco Rozzi.

(Em 2005, Draghi, na época chefe do Banco da Itália, foi flagrado por jornalistas um dia caminhando pelo centro de Roma perto da residência do então primeiro-ministro Silvio Berlusconi, e foi questionado se ele estava a caminho de cortar algum negócio. Draghi teve que explicar que ele estava realmente indo visitar Rozzi, que estava em uma instalação jesuíta nas proximidades).

Em 2010, quando Rozzi morreu, Draghi escreveu uma homenagem no L'Osservatore Romano, o jornal do Vaticano.

“Sua autoridade estava além da discussão”, escreveu Draghi, “sua justiça administrada com lucidez e equilíbrio, sempre bem explicada e frequentemente temperada com ironia”.

Os Jesuítas retribuíram o favor, vendo Draghi há muito tempo como um amigo e ponto de referência.

Em 2019, quando Draghi terminou seu mandato no Banco Central Europeu, a revista jesuíta La Civiltà Cattolica, editada pelo padre Antonio Spadaro, talvez o conselheiro mais próximo do Papa Francisco, publicou uma exultação de 13 páginas a Draghi.

“Numa situação totalmente inédita, dominada pela incerteza e pelo ceticismo, Draghi soube tomar decisões com base em análises rigorosas, com ousadia e guiados pela visão mais elevada da Europa, unida por muito mais que dinheiro, em linha com o projeto dos fundadores ”, dizia o ensaio.

Lembre-se de que, no jargão do Papa Francisco, chamar alguém de “audacioso” é um grande elogio.

O vínculo com os jesuítas é tão forte que uma popular revista de notícias italiana em 2015 apelidou Draghi de “o governador dedicado a Santo Inácio”, referindo-se a Santo Inácio de Loyola, fundador da ordem.

Politicamente, Draghi é um adversário firme do populismo nacionalista. Ele acredita na unidade europeia e na solidariedade internacional, e também é basicamente um social-democrata que apoia uma forte rede de seguridade para a classe baixa. Estas são posições consistentes com a visão do próprio Francisco, especialmente como blocos de construção de um mundo pós-Covid.

Em suma, em breve a Itália terá um papa jesuíta e um primeiro-ministro de inspiração jesuíta. O que restar ver é se esses dois filhos de Inácio conseguirão fazer música juntos.

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