Aurélia, nascida em Auschwitz: “Minha mãe sobreviveu, depois ela me contou sobre o inferno”

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19 Janeiro 2021

Quando eu lhe telefono, é o dia de seu aniversário. Ela completa 75 anos. Mas neste caso, juntamente com a data de nascimento, conta o local onde isso aconteceu. A Sra. Aurélia Gregori veio ao mundo no campo de concentração de Auschwitz em 13 de janeiro de 1945. A história dela é inédita. É a história de uma das duas crianças italianas cuja identidade foi reconstruída através da análise de documentos preservados no Arquivo de Auschwitz, a lista das mulheres com filhos internadas, após o nascimento, no hospital instalado no antigo campo de concentração imediatamente depois da chegada dos soviéticos, cujos dados foram analisados e comparados com a documentação italiana de vários tipos e da Cruz Vermelha internacional. É um trabalho coordenado por Marcello Pezzetti, um dos principais estudiosos do Holocausto, em conjunto com a historiadora Sara Berger, que, com Pezzetti, para a Fundação Museu da Shoah de Roma, realizou a pesquisa para a realização da exposição “Da Itália para Auschwitz”, de Liliana Picciotto e sua equipe do Centro de Documentação Judaica Contemporânea de Milão, de Laura Tagliabue, da ANED de Sesto San Giovanni, e de Dunja Nanut, da ANED de Trieste.

A reportagem é de Walter Veltroni, publicada por Corriere della Sera, 14-01-2021. A tradução é de Luisa Rabolini.

O que está se montando é um quadro completamente inédito da deportação da Itália para Auschwitz, cheio de novidades absolutas, muitas vezes chocantes. Uma delas é a deportação de um número incrivelmente grande de mulheres de Trieste, presas em toda a costa do Adriático, encarceradas na penitenciária de Coroneo e deportadas para Auschwitz, como todas as pessoas de origem judaica. Entre essas mulheres estavam as duas jovens que deram à luz a um menino e a uma menina nas condições insustentáveis do campo de Auschwitz.

Uma delas foi Aurélia Gregori, uma garota de 23 anos de Trieste que deu à luz, naquele inferno, a uma menina a quem ela então deu o seu mesmo nome. “Minha mãe não era judia e não era antifascista. Ela era uma garota como muitas outras. Ela foi presa por dois fascistas que a sequestraram e a levaram para Villa Triste, onde foi estuprada. Em seguida, eles a colocaram em um daqueles trens chumbados, com destino a Birkenau". Villa Triste era na via Bellosguardo número oito, em Trieste. Foi a casa de uma família judia que, por retaliação implacável, foi transformada na sede da Inspetoria Especial de Segurança Pública onde funcionava o bando Collotti, que tirou o nome de um policial que Paolo Rumiz descreveu da seguinte forma: “O chefe era tal Gaetano Collotti, um sujeito distinto que ia à missa todas as manhãs antes de começar a trabalhar. Para que não se escutassem os gritos dos desesperados - na sua maioria eslovenos do Carso e outros antifascistas de língua italiana – colocava para tocar uma música a todo volume”.

Muitos foram torturados ali e também no quartel dos Carabinieri, na via Cologna. É novamente Rumiz quem dá voz à história desse martírio através das palavras de Sonia Amf Kanziani: “Um dia me enforcaram com outras três mulheres. Só tínhamos os dedos dos pés tocando o chão. Olhe, eu ainda tenho as marcas das cordas em meus pulsos. Eles nos espancavam e Collotti ficava olhando, impassível. Ele dizia: se você falar vamos te ajudar. Mas ele tinha dois cachorros pastores prontos a rasgar a nossa carne. De repente, murmurei em esloveno: Jesus, eles te atormentaram por três dias, já estou aqui há três meses. Você demorou três horas para morrer, eu morro todos os dias ... Então me espancaram ainda mais forte, gritando que eu não devia falar aquela língua nojenta. Muitos me viram sair da sala desmaiada e coberta de sangue. Quando a guerra acabou, um médico me visitou e me perguntou como eu tinha conseguido sair viva de tamanha provação”.

Minha mãe”, diz Aurélia Gregori hoje, “foi estuprada ali pelos torturadores que a transferiram para Auschwitz-Birkenau. Só quando eu era mais velha ela me contou o que havia sofrido no campo: os galpões, os corpos dos moribundos trazidos à noite para serem removidos, mortos, na manhã seguinte. O horror das kapó que se vendiam aos nazistas. Ela me contou sobre quando contraiu tifo, no sexto mês de gravidez, e quantas pessoas ela viu caindo ao seu redor de cansaço, fome, frio. Não conseguimos imaginar como era o inverno ali. Mamãe costumava ir com as outras presas esvaziar os baldes com fezes pela manhã na tundra, no frio congelante, abaixo de zero e sem nenhuma roupa adequada. Ela não aguentava mais, queria acabar com tudo, estava no nono mês, estava exausta. Uma de suas companheiras havia fugido e os nazistas, quando alguém escapava, soltavam os cães que pegavam os fugitivos e os despedaçavam. As SS não haviam notado que a mamãe estava grávida porque era alta e escondia a barriga. Caso contrário, eles certamente a teriam enviado para a câmara de gás. Ela teve sorte e eu com ela. Com o tifo ela teve medo de não sobreviver, ela me disse que pensava: “Estou morrendo e estou morrendo junto com você”. Deus nos salvou, juntas. Eu nasci em janeiro. O parto foi feito em uma mesa de pedra. Mamãe não tinha dores, não tinha contrações, não conseguia dar à luz. Ela estava muito fraca, estava com fome, não comia nada, esperava que alguém morresse para pegar um pedaço de pão. Ela me disse: “Eu tinha que fazer sobreviver você e eu. Éramos duas. Eu pensava que você teria se parecido com um monstro. Se tivesse sido assim eu lhe teria deixado aí, debaixo da neve. Em vez disso, apesar de tudo, você foi uma linda menina. Você tinha muitos pêlos e isso lhe salvou de ser marcada com o número que os nazistas queriam lhe dar”.

Em vez disso, minha mãe tentou, com um cirurgião, fazer com que aqueles números impressos em seu braço sumissem. Em Trieste, depois da guerra, quanto menos você falasse dos campos de concentração e dos nazistas, melhor. Eu, que trabalhava no hospital na enfermaria geriátrica, ficava quieta. Na escola primária as professoras, que eram judias, certamente se assustaram quando leram o lugar onde eu havia nascido, mas nunca me disseram nada”. Aurélia permaneceu viva porque não era judia, do contrário teria sido eliminada como as muitas crianças cujas fotos o Memorial de Auschwitz publica nas redes sociais todos os dias. Cerca de duzentos e trinta mil crianças e adolescentes foram levados para o campo de concentração, algumas centenas sobreviveram. Há páginas atrozes como aquela do martírio de vinte crianças judias sequestradas por Mengele para os experimentos e depois assassinadas na escola de Bullenhuser Damm ou a história de Shlomo Venezia, um dos deportados, que contou ter testemunhado com seus próprios olhos um recém-nascido arrancado do peito da mãe morta na câmara de gás e atirado para o alto pelos nazistas que atiraram nele assim. Aurélia volta a falar: “Nunca quis ir para Auschwitz, mas a minha mãe voltou com a associação. Ela sofreu muito, a vida toda. Ela trabalhava como faxineira em condomínios. Ela faleceu em 2012, no dia 14 de março”. Os dados frios dos arquivos falam o seguinte sobre ela: "Aurelia Gregori (1921-2012), nascida em Santo Antonio (Villa Decani, Capodistria, hoje na Eslovênia) foi presa em 24 de maio de 1944 em Trieste em sua casa no Largo Barriera Vecchia n 14. Quando ela foi deportada para Auschwitz, onde chega em 25 de junho de 1944, está grávida de três meses. Registrada sob o número 82120, ela resiste às pavorosas condições higiênico-sanitárias do campo e em 13 de janeiro de 1945, duas semanas antes da chegada do Exército Vermelho, consegue dar à luz a uma menina que recebe seu mesmo nome: Zlatka/Aurelia Gregori. A menina foi batizada em fevereiro em uma igreja em Brzeszcze. Aurélia regressa a Trieste a 20 de setembro de 1945”. Da outra criança nascida em Auschwitz sabemos apenas que, quando cresceu, não sobreviveu.

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