A intimidade sombria entre líder e povo. Artigo de Massimo Recalcati

Foto: Blink O'fanaye | Flickr CC

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14 Janeiro 2021

"[Trump] está tendo dificuldades para deixar o caminho livre, aceitando o veredicto da democracia. Seu Ego não pode tolerar a presença do adversário político ou mesmo de um simples contraditório. Quem ousa criticar a sua obra não exprime um ponto de vista diferente do seu, mas encarna o mal e, como tal, não merece uma resposta, mas apenas a sua extirpação. É a quintessência de todo populismo: a luta política não é luta entre diferentes interpretações do mundo, mas entre o bem e o mal", escreve Massimo Recalcati, psicanalista italiano e professor das universidades de Pavia e de Verona, em artigo publicado por La Stampa, 12-01-2021. A tradução é de Luisa Rabolini.

Eis o artigo.

A figura psicológica mais profunda de todo populismo é o incesto. Desse ponto de vista, o populismo nacionalista-soberanista de Trump não é exceção, refletindo uma concepção fechada, exclusiva e incestuosa da relação com o povo. Ele não apenas representa o povo, mas é o povo. O líder populista se dirige ao seu povo como se o "seu" povo fosse o povo. O medo do imigrante e o estímulo às pressões racistas fomentadas por Trump respondem a essa lógica.

Em primeiro plano está um processo de identificação simbiótica. Por isso Trump não suporta a contradição, o espírito crítico, o debate aberto, porque isso quebraria a parceria íntima com seu povo. Essa intimidade obscura que exclui qualquer forma de mediação simbólica é a figura incestuosa que estrutura geneticamente toda forma de populismo. Disso decorre o repúdio ao espírito da democracia que se baseia no princípio da representação e na difícil prova do pluralismo.

Trump não só não acredita na democracia concebida nesses termos, mas sempre a considerou hostil à sua afirmação pessoal como empresário, antes, e como presidente depois. Sua concepção de poder permanece anti-institucional e intimamente totalitária. Ele jurou sobre a constituição, mas seu juramento já era, na época de sua posse como presidente, um perjúrio porque seu credo não é a democracia. Ele só acredita no direito de seu Ego. As leis são vistas com desconfiança, pois impõem uma regulação arbitrária a esse direito que gostaria de ser absoluto.

A única coisa que o aproxima às classes médias, rurais, destituídas ou aos empresários em busca de resgate que votaram nele é a rejeição da política vista como lugar de impureza moral e corrupção que traiu o povo estadunidense. É por isso que Trump realmente autoriza o seu povo a invadir e devastar as instituições democráticas, pois elas são as principais culpadas dessa traição.

A falta de lealdade é outro traço óbvio da personalidade de Trump. Corresponde à ausência de autênticas paixões civis. Ao contrário dos líderes totalitários do século XX, ele não é movido por uma Causa ideal, por mais delirante que possa ser - a revolução, a luta de classes, a superioridade da raça - porque a única Causa que lhe interessa é a de seu Ego. Nisto ele é um expoente significativo da liderança na chamada época pós-ideológica. A sua ambição é aumentar ilimitadamente o poder do seu nome, é "tornar-se famoso", como afirmou várias vezes com uma franqueza de adolescente. Essa ausência de lealdade e idealidade é a expressão de um cinismo desencantado.

A corrupção, o racismo, o sexismo revelam uma concepção da vida como prevaricação do mais forte. Seu narcisismo, descrito por alguns psicanalistas em seu país como "maligno", é na realidade um "narcinismo", uma mistura turva entre o culto do próprio Ego e a ausência de paixões ideais autênticas. Sua nomeação como presidente ampliou fortemente sua megalomania, porque o levou a confundir a responsabilidade que seu papel comportava com a mera aquisição de uma propriedade. Por isso, agora está tendo dificuldades para deixar o caminho livre, aceitando o veredicto da democracia.

Seu Ego não pode tolerar a presença do adversário político ou mesmo de um simples contraditório. Quem ousa criticar a sua obra não exprime um ponto de vista diferente do seu, mas encarna o mal e, como tal, não merece uma resposta, mas apenas a sua extirpação. É a quintessência de todo populismo: a luta política não é luta entre diferentes interpretações do mundo, mas entre o bem e o mal.

Não é por acaso que a batalha pessoal de Trump é evocada para defender os ideais dos Estados Unidos (pátria, família, liberdade) de improváveis associações secretas pedofílicas e satanistas que recrutariam democratas de alto escalão (sic..).

Mas o ponto mais decisivo é que, aos seus olhos, é a própria política que é corrupta como tal. Não por acaso todo líder populista se orgulha de não ser proveniente da cultura política e ser profundamente alheio a ela. As instituições representam a Lei que obriga seu narcisismo sem limites a ver que ele não pode dobrar a realidade às suas fantasias mais regressivas e onipotentes.

E é precisamente a alteridade da realidade - como aconteceu com a gestão burlesca e irresponsável da pandemia - que agora lhe pede a conta. Aceitar o que é inaceitável para ele: o reconhecimento de uma derrota.

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