Cinco destaques do Relatório McCarrick

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11 Novembro 2020

O ex-cardeal Theodore McCarrick abusou sexualmente de seminaristas e crianças por décadas – tudo isso enquanto era promovido na hierarquia da igreja em uma velocidade extraordinária. Como isso aconteceu?

Dois anos atrás, o ex-embaixador papal nos Estados Unidos publicou uma carta difamando oficiais do Vaticano – sobretudo o papa Francisco – de terem conhecimento dos abusos de McCarrick, ignorando os fatos e optando por promovê-lo.

Hoje, o Vaticano publica um relatório sem precedentes, de 400 páginas, sobre quem exatamente sabia muito a respeito das más condutas de McCarrick e como ele esteve apto a ascender na hierarquia.

Destacamos os cinco ponto-chaves do relatório.

A reportagem é de Colleen Dulle, publicada por America, 10-11-2020. A tradução é de Wagner Fernandes de Azevedo.

 

1. Papa João Paulo II sabia sobre as más condutas de McCarrick e promoveu-o mesmo assim

De acordo com o relatório, De acordo com o relatório, ninguém reclamou ao Vaticano sobre McCarrick até 2000, quando McCarrick – agora um bem-sucedido arrecadador de fundos que havia sido bispo em Nova York e Nova Jersey – estava prestes a ser promovido a arcebispo de Washington, DC, e depois feito cardeal.

Em 2000, o cardeal John O’Connor, de Nova York, resumiu as queixas contra McCarrick em uma carta enviada a Roma.

A acusação mais contundente era que McCarrick havia abusado sexualmente de crianças na década de 1980, uma alegação considerada confiável em 2018. Mas a alegação não foi investigada na época porque foi feita de forma anônima. Não está claro se essa acusação chegou até João Paulo II.

A segunda reclamação foi feita por um ex-padre alegando que ele havia flagrado McCarrick engajado em “conduta sexual” com outro padre e que McCarrick também havia solicitado sexo a ele. Mas essa queixa foi rejeitada porque o padre que fez a acusação foi considerado culpado de abusar de crianças e não foi considerado confiável.

A última reclamação era que McCarrick havia compartilhado uma cama com seminaristas e “jovens adultos” em Nova Jersey. O Papa pediu a quatro bispos de Nova Jersey que investigassem essa alegação e eles concluíram que, embora McCarrick tivesse compartilhado uma cama com os homens, não puderam confirmar que ele havia se envolvido em “má conduta sexual”. Isso desempenhou um papel importante na tomada de decisão do Papa; mas este relatório revela que três desses bispos, todos mortos agora, deram a João Paulo informações incompletas ou enganosas.

João Paulo II também promoveu McCarrick porque confiava nele. Os dois se conheciam há muito tempo, e João Paulo passara por padres sendo falsamente acusados de todo tipo de coisas quando a Polônia estava sob o governo comunista. Então, quando McCarrick jurou que as alegações eram falsas, o Papa polonês acreditou nele.

 

2. O papa Bento XVI nunca aplicou sanções a McCarrick

Quando o cardeal Joseph Ratzinger se tornou o papa Bento XVI em 2005, ele não pediu que McCarrick fosse investigado porque presumiu que João Paulo II havia investigado as alegações e Bento XVI confiou no julgamento de seu antecessor.

Quando mais detalhes surgiram sobre os abusos de McCarrick a seminaristas adultos, conforme relatado pela primeira vez pelo padre abusado, as autoridades do Vaticano sob Bento XVI decidiram não investigar, mas em vez disso disseram a McCarrick para se aposentar após a Páscoa de 2006, o que ele fez, e começar a se manter discreto, ele não fez.

Essas instruções para manter um perfil mais baixo são a coisa mais próxima do que o arcebispo Carlo Maria Viganò descreveu como “sanções” em sua carta de 2018, alegando um encobrimento dos crimes de McCarrick nos níveis mais altos do Vaticano. Mas o relatório do Vaticano diz que não eram sanções formais e, diferente do que afirmou o arcebispo Viganò, as instruções não proibiam McCarrick de celebrar missas públicas. A principal orientação era que ele viajasse menos e diminuísse suas aparições públicas, o que parece não ter acontecido.

Depois que Francisco se tornou Papa, ele soube sobre essas instruções, mas não as razões por trás delas, de acordo com o relatório. Ele presumiu que a robusta agenda de viagens de McCarrick havia se mantido em sintonia com a forma como Bento XVI queria que as diretrizes fossem aplicadas, então ele permitiu que as coisas continuassem dessa forma.

 

3. Viganò foi incumbido de investigar, mas não investigou

Enquanto trabalhava na Secretaria de Estado do Vaticano, o arcebispo Viganò escreveu dois memorandos, em 2006 e em 2008, sugerindo que um processo canônico poderia ser aberto para determinar a verdade das alegações e rumores sobre a má conduta de McCarrick. Essa investigação nunca foi realizada.

Além de refutar a alegação do arcebispo Viganò sobre Francisco supostamente suspender as sanções contra McCarrick, o relatório acusa diretamente Viganò de não ter investigado McCarrick quando lhe foi pedido.

Em 2012, diz o artigo, o arcebispo Viganò encaminhou uma reclamação sobre o abuso de seminaristas por McCarrick à congregação para bispos. O cardeal Ouellet, que dirigia aquela congregação e era um dos maiores críticos do arcebispo Viganò, disse ao arcebispo que investigasse McCarrick, o que ele não fez.

 

4. Francisco não sabia que McCarrick havia abusado de crianças

Como já foi dito, este relatório do Vaticano vai contra a alegação do arcebispo Viganò de que Francisco sabia do abuso de McCarrick. A reclamação de Viganò girou em torno de uma conversa que ele disse ter tido com o Papa em 2013, na qual, disse ele, contou a Francisco sobre McCarrick. O relatório do Vaticano diz que não há documentação dessa conversa acontecendo e, se aconteceu, as evidências estão “profundamente divididas” sobre o que foi dito.

O relatório afirma que, entre 2013 e 2017, as atividades de McCarrick, bem como informações internas sobre seu suposto abuso, foram levantadas ocasionalmente com o papa Francisco. Mas, até 2017, Francisco não sabia que McCarrick estava sendo investigado por pedofilia.

Assim que as alegações de abuso sexual contra um menor foram consideradas confiáveis por uma investigação conduzida pela Arquidiocese de Nova York, Francisco removeu McCarrick do ministério e exigiu sua renúncia do Colégio de Cardeais. Ele foi o primeiro cardeal removido por abuso sexual.

O que Francisco sabia é que, segundo boatos, McCarrick havia molestado e dormido com seminaristas. Rumores sobre isso estiveram circulando no Vaticano por um longo tempo – então vamos falar sobre por que nada foi feito.

Um grande motivo é que abusar sexualmente de adultos não é considerado tão grave quanto abusar sexualmente de crianças. Foi apenas nos últimos anos que as medidas antiabuso do Vaticano começaram a se referir a “adultos vulneráveis”, além das crianças, como vítimas potenciais. Também foi apenas nos últimos anos que o Vaticano começou a implementar medidas para disciplinar os bispos que usam sua posição de poder para abusar sexualmente de outras pessoas. Os bispos foram deixados de fora da primeira resposta do Vaticano à crise dos abusos em 2002.

Outra é que as alegações sobre McCarrick abusar de padres e seminaristas foram rejeitadas ou minimizadas sob João Paulo II, seja por causa de relatórios enganosos de bispos, ou porque as alegações foram feitas anonimamente ou por pessoas consideradas não confiáveis. E, como já descrevemos, os líderes subsequentes basearam-se nesse fracasso fundamental. A boa notícia é que agora existem diretrizes do Vaticano em vigor, desde o ano passado, que exigem que até mesmo alegações anônimas sejam investigadas.

 

5. O relatório deixou questões em aberto

Mas este relatório não resolveu tudo – longe disso.

A maior questão em aberto é sobre responsabilidade. Embora este relatório seja um grande passo para a transparência do Vaticano, ele deixa em aberto a questão de saber se as pessoas que encobriram os abusos de McCarrick ou não investigaram minuciosamente enfrentarão quaisquer punições.

Também levanta a questão de saber se isso estabelecerá um novo padrão de transparência ou se o Vaticano simplesmente voltará à sua maneira usual de operar. Em ambos os lados do Oceano Atlântico, isso levanta algumas questões, incluindo:

• As conclusões do relatório ajudarão a solidificar as reformas introduzidas pelo papa Francisco para eliminar o clericalismo e garantir a transparência e a responsabilidade na igreja, particularmente na proteção de menores e adultos vulneráveis?

• Isso levará a uma maneira melhor de lidar com comunicações anônimas, conforme preconizado pelo novo manual do Vaticano para lidar com alegações de abuso sexual?

• Irá melhorar o modo como a informação é tratada de forma expedita no combate ao abuso de poder, abuso de consciência e abuso sexual de menores e adultos vulneráveis por clérigos?

• Vai garantir que os bispos forneçam informações completas e honestas quando solicitadas pelo núncio, também na investigação e avaliação dos candidatos a serem nomeados bispos?

Se há uma coisa que aprendemos desde o verão de 2018, a crise dos abusos sexuais na Igreja Católica ainda não acabou. O relatório do Vaticano sobre a ascensão de McCarrick responde a algumas perguntas – e levanta muitas outras.

 

 

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