Somos realmente pessoas de pouca fé?

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26 Agosto 2020

A última pesquisa sociológica de Franco Garelli sobre a religião católica na Itália abriu um novo debate.

O comentário é de Luca Rolandi, publicado em Vino Nuovo, 22-08-2020. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

A pergunta nua e crua é esta: “É possível medir a fé?”. A pergunta surge espontaneamente após o lançamento da sempre interessante e aprofundada pesquisa sociológica realizada por um dos mestres da sociologia religiosa, o Prof. Franco Garelli, que fotografa as mudanças no sentimento religioso na Itália nos últimos 25 anos.

Dados que devem nos interrogar não tanto pela base estatística que apresentam, mas sim pelo pano de fundo que descrevem: uma época de transformação e de incerteza, em que se torna cada vez mais sutil o sentimento religioso, e a fé é mais uma experiência de solidão do que de partilha.

Na antecipação de “Gente di poca fede. Il sentimento religioso nell’Italia incerta di Dio” [Gente de pouca fé. O sentimento religioso na Itália incerta de Deus] (Il Mulino, 2020), publicado pelo portal sobre a Igreja global do La Stampa, Vatican Insider, Domenico Agasso Jr. sintetiza os seus principais dados.

Nos anos 1990, pouco menos da metade dos cidadãos da Itália dedicava todos os dias alguns minutos para uma oração pessoal: em 2017, apenas um em cada quatro. Um em cada 20 achava que só as pessoas mais ingênuas e iludidas acreditavam em Deus; hoje essa é a ideia de 23%.

A tendência de quem não se reconhece em nenhuma fé é de mais de 30%, o que equivale a um quarto da população, enquanto o percentual de quem acredita que a religião é determinante para encontrar o sentido da vida diminuiu de 80% para 65%.

Deus existe? Hoje, um terço dos italianos responde que “não”; no fim do século passado era de 10%. O número triplicou. O principal motivo? “Se realmente existisse um deus, ele não permitiria a propagação do mal, das tragédias, das calamidades e das injustiças no mundo.”

E ainda outros dados, superiores ao passado recente, que evidenciam um certo medo do futuro e um retorno ao pensamento de uma presença do maligno nas dobras da história e da existência contemporânea.

Portanto, somos gente de pouca fé? O declínio cada vez mais perceptível na participação ativa na missa ou na oração diária, em comparação com as pesquisas de campo que Garelli realiza a cada década como estudioso rigoroso e consultor da Conferência Episcopal Italiana, são apenas os principais elementos que emergem a partir das entrevistas feitas.

Na proporção da população, as pessoas que se aproximam dos ritos e da vida em comunidade estão se tornando cada vez menos numerosas em um cenário religioso, definido como “em grande movimento”, no qual crescem o ateísmo e o agnosticismo. Um lento e inexorável processo de secularização que avança sem que nem mesmo os fiéis se questionem, talvez se defrontando de forma séria, ampla, estruturada e difundida com o mundo secular.

Esses dados são muito indicativos de uma mudança social, individual e comunitária, que ainda nos anos 1990 foi bem descrita pelo livro de Pietro Prini “Lo scisma sommerso” [O cisma submerso] (Ed. Studium), no qual o filósofo católico examinava as causas da fratura profunda, comparando o cristianismo e as sensibilidades do mundo contemporâneo, e no ano 2000 por Gian Enrico Rusconi, no livro “Come se Dio non ci fosse” [Como se Deus não existisse] (Ed. Einaudi), a partir de uma perspectiva secular, a cisão entre moderno e religioso.

Relendo as indicações estatísticas de Garelli, vem à mente outro livro ágil, mas muito pesado pela profundidade dos seus conteúdos, como o de Michel de Certeau e Jean Marie Domenach, “Cristianesimo in frantumi” [Cristianismo aos pedaços], um diálogo sobre o estado e o futuro do cristianismo entre dois intelectuais franceses, ocorrido em 1973, republicado há alguns anos pela editora Effatà, iluminador, apesar da distância de quase 50 anos da sua publicação, para compreender os dados da pesquisa de Garelli.

Por outro lado, cresce um cristianismo identitário e de pertença educativa, uma religião civil e cultural que assume o predomínio sobre a experiência comunitária, a dúvida e a busca de um encontro cotidiano com a Palavra, a oração, a participação ativa, os católicos praticantes, a vida não só sacramental, mas também comum em apoio à atividade pastoral de padres e religiosos.

Entretanto, quem olha de longe para as Salas Sagradas, invoca mais aberturas e modernizações, por exemplo no que diz respeito ao papel das mulheres (sacerdócio feminino) e dos padres casados; enquanto quem permanece próximo do âmbito católico, por convicção ou por ideal sociopolítico, exige e exorta as hierarquias da Igreja, muitas vezes “com veemência”, a se manterem firmes “os princípios eclesiásticos, sem se deixarem influenciar pelas opiniões predominantes”.

Continua muito elevado o desejo de espiritualidade, as demandas de sentido não desaparecem e, muitas vezes, são frequentemente buscadas em experiências ecumênicas ou em outras formas de religiosidade ou de fés monoteístas ou na dimensão da meditação das tradições orientais.

E, a partir do que emerge da pesquisa, não existe um ateísmo militante e um agnosticismo ideológico forte, mas sim um progressivo abandono por parte de pessoas e famílias de um catolicismo de tradição cultural e superficial. Que depois, contudo, é reencontrado nos ritos de passagem da vida que enfraquecem o valor alto e misterioso da vida sacramental, reduzida a momentos da existência não muito diferentes dos outros (batismo, crisma, casamento, extrema unção, funeral).

Portanto, devemos nos preocupar ou assumir esse cenário como uma realidade com a qual devemos nos defrontar sem cair na angústia apocalíptica e na dimensão de fechamento e de confronto com o mundo. Mais de 50 anos depois do Concílio Vaticano II, ele parece distante e muitas vezes recordado como a era de ouro da Igreja a caminho que precisa se renovar e se converter dia após dia.

Resta ainda a questão que não tem respostas sobre o sentido último da existência, senão na confiança, e aqui nasce a profunda diferença entre fé e religião que nenhuma investigação sociológica pode medir. E, por outro lado, o filósofo Giovanni Fornero, ao comentar a investigação de Garelli, também no Vatican Insider, explica com precisão que, “para não criar confusões indevidas, é bom distinguir entre diminuição da participação religiosa e queda do sentimento religioso. Sobre o primeiro ponto, como Garelli documenta no seu livro, não há dúvidas. Sobre o segundo aspecto, a situação é mais complexa”.

Mas talvez ainda não seja suficiente sequer a profecia de Joseph Ratzinger, quando ele escrevia: “Em breve, teremos padres reduzidos ao papel de assistentes sociais, e a mensagem de fé, reduzida a uma visão política. Tudo parecerá perdido, mas, no momento oportuno, precisamente na fase mais dramática da crise, a Igreja renascerá. Será menor, mais pobre, quase catacúmbica, mas também mais santa. Porque não será mais a Igreja de quem busca agradar ao mundo, mas sim a Igreja dos fiéis a Deus e à sua lei eterna. O renascimento será obra de um pequeno resto, aparentemente insignificante, mas indomável, que passou por um processo de purificação. Porque é assim que Deus atua. Contra o mal, resiste um pequeno rebanho”.

Existe algo maior e insondável, que pressiona no coração de cada ser humano, uma sede de esperança e de sentido que insurge em todos. E, se o Evangelho nos diz: “Mas o Filho do Homem, quando vier, será que vai encontrar a fé sobre a terra?” (Lc 18,1-8), esse apelo deveria nos impulsionar ao compromisso da caridade unido à meditação e à oração, à busca e ao esforço de pensar, para continuar o caminho e abrir outros horizontes no testemunho, não só aqui e agora, mas também em um tempo a ser construído junto com toda a humanidade, sem qualquer exclusão.

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