Governo da Nicarágua desafia Igreja sobre celebração de festa religiosa

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18 Agosto 2020

Enquanto a Nicarágua celebrava a versão “pequena” da sua famosa festa mariana La Gritería no sábado, a hierarquia da Igreja Católica e o governo do presidente Daniel Ortega entravam em confronto sobre a pandemia global: os bispos a reconhecem; o presidente, não.

A reportagem é de Inés San Martín, publicada por Crux, 17-08-2020. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Todo dia 15 de agosto, quando a Igreja Católica celebra a festa da Assunção de Maria, a segunda maior cidade da Nicarágua, León, celebra La Gritería Chiquita – a pequena gritaria.

Na Gritería pequena, as pessoas começam a gritar a pergunta: “¿Qué causa tanta alegría?” (O que causa tanta alegria?), e outros respondem: “¡La Asunción de María!” (a Assunção de Maria).

A “gritaria pequena” tem a ver com a antiga “gritaria” nacional, cada vez maior, que ocorre no dia 7 de dezembro, quando, em todo o país, às 18h, as pessoas começam a gritar a pergunta: “¿Qué causa tanta alegría?” (O que causa tanta alegria?), e os outros respondem: “¡La Concepción de María” (a Concepção de Maria).

La Gritería Chiquita data de 1947, quando, segundo a piedade popular, a Mãe de Deus pôs fim à devastadora erupção do vulcão Cerro Negro, um dos mais ativos da América Central.

Na tentativa de conter a propagação do coronavírus e da Covid-19, Dom Sócrates René Sándigo, bispo de León, decidiu que a celebração seria um evento pequeno e privado na catedral local, sem a presença dos fiéis, que, em vez disso, foram convidados a organizar pequenos altares em homenagem à Virgem e a rezar em casa.

Devido à pandemia, o bispo deu o tradicional grito da Gritería a partir do altar da catedral em vez da sua porta. Ele continuou chamando-a de “Gritería de penitência”, exortando as pessoas a rezarem “neste dia muito especial, em uma circunstância muito especial”.

No entanto, o governo de Ortega instou seus partidários em León – uma fortaleza do movimento revolucionário sandinista – a desafiar o bispo e a sair às ruas, celebrar a Virgem Maria e erigir altares fora das suas casas, para manter a costumeira sensação festiva da celebração.

As autoridades nacionais se recusaram a reconhecer a pandemia, e a Nicarágua é um dos poucos países em todo o mundo que não fechou suas escolas para impedir a disseminação da doença.

De acordo com números oficiais, 123 pessoas morreram de coronavírus na Nicarágua, embora o observatório independente da Covid-19 – formado por médicos e voluntários em todo o país – tenha divulgado um comunicado no início deste mês dizendo que 2.591 pessoas morreram com sintomas de coronavírus, mas não foram testadas por falta de recursos.

No século XIX, a Gritería era usada como forma de protesto contra a elite espanhola, quando os pobres faziam enormes bonecos de papel machê de senhoras aristocráticas e se sentiam protegidos pela Virgem Maria enquanto expressavam sua rebelião interior.

Um padre local disse ao Crux que não causou “nenhuma surpresa” que a Igreja tinha convidado as pessoas a ficarem em casa enquanto o governo instou-as a saírem pelas ruas.

“Embora você possa argumentar contra o fato de os bispos serem tão abertamente críticos ao governo – assim como você poderia fazer se eles fossem abertamente apoiadores – acho mais difícil argumentar a favor do fato de o governo usar uma celebração evidentemente religiosa para continuar desafiando os bispos e colocando seu próprio povo em risco”, disse o padre.

Devido ao ambiente atualmente hostil, ele pediu para permanecer anônimo.

Nos últimos meses, ocorreram 24 ataques contra igrejas católicas na Nicarágua. Todos os ataques estão ligados a apoiadores do governo de Ortega e da sua esposa, a vice-presidente Rosario Murillo, que alegou que Deus os colocou no cargo e que Deus favorece suas ações contra o clero católico.

Escrevendo na revista italiana Famiglia Cristiana, Andrea Riccardi, fundador da Comunidade de Santo Egídio e um dos conselheiros mais confiáveis do Papa Francisco, observou que, em 1910, cerca de 97% da população nicaraguense era católica.

“Hoje, a metade dos seus cidadãos são neoprotestantes ou neocarismáticos, com uma atitude muitas vezes crítica, senão hostil, em relação à Igreja Católica”, escreveu ele, apontando que a mudança religiosa do catolicismo para o neocristianismo é comum em muitos países da América Central.

No entanto, argumenta Riccardi, “o clima de ódio não provém somente de um pano de fundo anticatólico, mas também da política ou é fomentado por ela. De fato, a Igreja assumiu uma atitude crítica em relação a algumas escolhas do presidente Ortega, a última das quais é a negação da existência do coronavírus, para cujo perigo a Igreja chamou a atenção.”

Depois de um incêndio criminoso no dia 31 de julho na Catedral de Manágua, a arquidiocese falou de “ódio à Igreja Católica e à sua obra evangelizadora”. Riccardi pediu que os acontecimentos sejam investigados e esclarecidos, mas não tem dúvidas: “A Catedral de Manágua, um lugar de fé, mas também de refúgio do espírito de paz, foi ferida por um ato de ódio antirreligioso”.

Um relatório do Centro Nicaraguense dos Direitos Humanos classificou o ataque à catedral como um ato de terrorismo. A polícia diz que o caso está “encerrado” e foi acidental. As duas mulheres que testemunharam um homem encapuzado jogar um explosivo caseiro na capela da catedral, no entanto, foram detidas e estão na prisão.

O Mons. Carlos Avilés, vigário da Arquidiocese de Manágua, disse à France 24 que as ações contra a Igreja visam a intimidar os católicos de apoiarem a oposição.

“Isso tem causado uma grande repressão por parte do governo, que não gostou do fato de a Igreja estar sempre apoiando a justiça, a verdade e as demandas legítimas do povo para acabar com a corrupção e os abusos dos direitos humanos”, disse Avilés.

 

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