O Vaticano e a China podem renovar, em breve, um acordo sigiloso. Eis uma análise dessa relação

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13 Agosto 2020

A bordo do voo que o trazia do Japão, no final de 2019, o Papa Francisco conversou com os repórteres sobre a esperança que ele tem de visitar a China.

“Eu gostaria de ir a Pequim. Amo a China”, declarou ele.

Desde então, as tensões em torno do país asiático só aumentaram, com as revoltas em Hong Kong, com os relatos em torno das violações dos direitos humanos no país e com a pandemia de covid-19.

A reportagem é de Claire Giangravé, publicada por Religion News Service, 11-08-2020. A tradução é de Isaque Gomes Correa.

A renovação de um acordo sigiloso entre o Vaticano e a China, a ser assinado em setembro, já divide os católicos e corre o risco de aumentar as tensões ainda mais.

As autoridades no Vaticano acreditam que um acordo com a China melhoraria a vida dos católicos no país asiático, especialmente os católicos da igreja clandestina. Os críticos, porém, temem que o acordo esteja silenciando o Papa Francisco sobre os abusos dos direitos humanos cometidos pelo governo chinês, incluindo a repressão dirigida aos uigures muçulmanos.

Na maior parte, o conteúdo do acordo não nos é conhecido. Em setembro de 2018, assinou-se um acordo provisório entre as autoridades chinesas e vaticanas, mas a maioria dos detalhes permanece não divulgada.

Esse acordo permite que a Associação Católica Patriótica Chinesa – ACPC escolha os candidatos para o bispado, cujos nomes serão submetidos à aprovação papal.

Um acordo assim não é inédito na história da Igreja Católica, especialmente quando os países temiam a influência política e territorial excessiva do clero estrangeiro.

As relações sino-vaticanas já eram difíceis desde o começo.

Os missionários católicos começaram a chegar ao país a partir do século XIII, convertendo um grande número de chineses. Quando, em 1949, o Partido Comunista assumiu o controle, expulsaram todos os missionários cristãos.

Consequentemente, o Vaticano e a China interromperam as relações diplomáticas. O governo asiático criou a Associação Católica Patriótica Chinesa para supervisionar os católicos no território, porém a Santa Sé não a reconheceu.

Atualmente, existem 9 milhões de católicos na China, segundo o estudo de 2011 do Centro de Pesquisas Pew. Um total de 5,7 milhões estão sob a égide da ACPC. Este elevado número de fiéis motivou os esforços de vários pontífices no sentido de superar a divisão.

Há outras razões pelas quais seria benéfico à Igreja Católica fechar um acordo com a China.

Uma parcela significativa dos católicos no país pertence a uma “igreja clandestina”, não reconhecida pelas autoridades estatais chinesas e que corre o risco de sofrer sanções ou ser perseguida.

Como um líder para facilitar as intermediações, o Papa Francisco reconheceu oito bispos escolhidos pela CPCA que haviam sido excomungados pela Igreja Católica anteriormente.

Por sua vez, o governo chinês reconheceu três bispos da “igreja clandestina”.

Há ainda mais bispos que guiam a comunidade católica clandestina, na China, e cuja situação, assim como a dos fiéis, corre risco. Assegurar um acordo entre o Vaticano e a China pode ser o único modo de garantir a segurança dessas pessoas e a possibilidade de professarem sua fé abertamente.

Começaram em julho as negociações entre as autoridades vaticanas e chinesas. De acordo com o vice-presidente da Conferência dos Bispos Católicos da China, Dom Zhan Silu, é provável que, em setembro, ambos os lados assinem um acordo oficial.

Este bispo contou ao jornal estatal chinês Global Times que o acordo por vir é “um elo fundamental que assegura os laços entre a China e o Vaticano e que pode contribuir para o fortalecimento das relações visando o passo seguinte”.

A segunda maior autoridade no Vaticano, o cardeal italiano Pietro Parolin, está entre os que apoiam o acordo. Em entrevista ao Global Times, o prelado, considerado um aliado próximo do papa, falou de “um aumento da confiança entre os dois lados”.

De acordo com Parolin, o acordo é “em benefício de toda a comunidade católica chinesa, a quem eu abraço fraternalmente – em primeiro lugar aqueles que mais sofreram e sofrem”.

O presidente da Pontifícia Academia de Ciências, que promove o diálogo entre a Igreja Católica e a comunidade científica, também defende o acordo sino-vaticano. Em conversa com jornalistas locais, Dom Marcelo Sánchez Sorondo falou da China como o país que “melhor implementa a doutrina social da Igreja”.

Em 2019, o presidente da ACPC participou do Sínodo dos Bispos, realizado no Vaticano, sobre “Os jovens, a fé e o discernimento vocacional”, naquilo que parece ser mais um passo em direção à possibilidade de que o papa um dia realize a aspiração de ser o primeiro pontífice a visitar a China.

Embora muitos tenham saudado a possibilidade de um acordo, este mesmo acordo tem sido objeto de severas críticas vindos de católicos de dentro – e de fora – da China.

“O acordo que o Vaticano fez com a República Popular da China, em 2018, do qual ainda não há registro público, vem sendo, na prática, um repúdio ao tremendo sofrimento de incontáveis confessores da fé chineses e de mártires da fé nas mãos do governo comunista ateísta, resultando apenas em uma perseguição ainda maior aos católicos chineses”, disse o Cardeal Raymond Burke em entrevista ao jornal The Australian no último mês de abril.

O cardeal afirmou que algo “está muito errado” no Vaticano, que elogiou o auxílio médico recebido da China e não aquele recebido de Taiwan.

O Vaticano esteve entre os primeiros países a reconhecer Taiwan, país insular que passou a ser o lar dos políticos chineses pró-democracia após a ascensão do Partido Comunista. O futuro das relações entre o Vaticano e a China está em jogo, dependendo do resultado do acordo.

Mas não são só os conservadores católicos que criticam a suposta “vista grossa” adotada pelo Vaticano quando se trata de chamar a atenção do governo chinês por seu comportamento.

Em 8 de agosto, mais de 70 líderes religiosos de denominações judaicas, budistas, muçulmanas e cristãs assinaram uma declaração que condena o tratamento dado, pela China, aos cerca de 1 milhão de muçulmanos uigures no país. Os líderes religiosos descreveram a política de esterilização em massa, opressão, perseguição e internação adotada pelo país asiático como “uma das tragédias humanas mais flagrantes desde o Holocausto”.

Esta declaração acusa a China de perpetrar um “genocídio” que “se permitido continuar impunemente, põe em dúvida, de modo mais grave, a disposição da comunidade internacional em defender os direitos humanos universais para todos”.

O Cardeal Charles Maung Bo, presidente da Conferência dos Bispos da Ásia, e Dom Ignatius Suharyo Hardjoatmodjo, da Arquidiocese de Jacarta, estão entre os que assinaram o texto.

O Papa Francisco tem se mantido calado com respeito à situação da comunidade uigur na China, e seus críticos acreditam que este silêncio é porque ele não quer minar as relações antes de assinar o acordo.

As reticências de Francisco em condenar a China também foram vistas durante a bênção semanal que ele proferiu na Praça São Pedro, em 5 de julho. O seu discurso pré-escrito incluía um comentário sobre as manifestações sociais havidas em Hong Kong devido ao desejo de a China impor uma de segurança nacional na região. O papa não leu o discurso, o que acabou gerando muita polêmica.

O ex-bispo de Hong Kong, Cardeal Joseph Zen, tem criticado abertamente o acordo sino-vaticano e já condenou as violações dos direitos humanos na China, especialmente no tocante às minorias religiosas. Zen também falou em nome da Igreja Católica clandestina chinesa.

Uma série de reportagens publicadas pela agência de notícias AsiaNews, veículo oficial de comunicação do Pontifício Instituto para as Missões Estrangeiras, destacou as limitações que continuam a existir entre católicos que desejam viver de acordo com sua fé, desde o fechamento de igrejas até a proibição da educação religiosa antes dos 18 anos de idade.

Para complicar ainda mais as coisas, há a informação de que os chineses hackearam os computadores do Vaticano antes das negociações em maio. Essa história, publicada primeiramente pelo New York Times, revelou que hackers mantidos pelo governo chinês tentaram furtar informações da missão vaticana na China.

Antes da assinatura do acordo em 2018, a Igreja Católica havia paralisado as suas relações com a China. Atualmente, abriu-se a possibilidade de o Vaticano ter algo a dizer a respeito do futuro dos muitos católicos que vivem país.

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