Bose, sombras vaticanas na comunidade limítrofe

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01 Junho 2020

"É mais fácil que sobre Bose esteja sendo jogado um jogo importante, que diz respeito às estruturas da Igreja Católica: experiência anômala que deve ser reconduzida a um mais rígido controle romano? E, neste caso, Francisco não seria tanto a vítima (atingir Bose para atingir o papa) quanto o killer. Além disso, especialmente após o Sínodo na Amazônia, que o caminho da reforma eclesial tenha ficado atolado é um fato. Entre tantas dúvidas, uma confirmação: a total opacidade do Vaticano", escreve Luca Kocci, em artigo publicado por Il Manifesto, 30-05-2020. A tradução é de Luisa Rabolini.

Eis o artigo.

Enzo Bianchi deixará a comunidade Bose por ordem do Vaticano. Essa é a única notícia certa - a menos que ocorram improváveis reconciliações - que vem do mosteiro fundado após o fim do Concílio Vaticano II pelo próprio Enzo Bianchi. Todo o resto, ou seja, os termos e as verdadeiras razões do confronto em andamento e, acima de tudo, o verdadeiro jogo eclesiástico que está sendo disputado em torno de Bose, está envolto em uma espessa neblina produzida no Vaticano. A Santa Sé emitiu uma medida de extrema severidade: a ordem de afastamento da comunidade do fundador e, junto com ele, de dois monges e uma freira. Mas ele não explicou, mesmo para os direitos envolvidos - pelo menos é assim que Bianchi declara -, o quê, o como e o porquê, deixando tudo em uma indeterminação que dá vazão às ilações mais díspares e alimenta um debate construído sobre hipóteses.

Em 1965, no auge da estação de renovação conciliar, quando Enzo Bianchi, estudante de economia de 23 anos em Turim - que já havia reunido um grupo de jovens católicos, valdenses e batistas em sua casa - se mudou para uma fazenda em Bose, um pequeno distrito semiabandonado nas colinas de Ivrea, para criar uma comunidade inspirada na tradição mais genuína do monasticismo ocidental. Logo se unirão a ele outros jovens. Assim nasceu a comunidade monástica de Bose: homens e mulheres, clérigos e leigos (aliás, o próprio Bianchi não é padre, assim como não eram Bento de Nórcia, em quem Bose se inspira e Francisco de Assis), católicos e não católicos que vivem uma experiência de monasticismo tradicional, mas "limítrofe", tanto que o bispo de Biella proíbe celebrações litúrgicas públicas pela presença de muitos não-católicos (será o cardeal Pellegrino, bispo de Turim, que conseguirá remover o interdito). Ao longo dos anos, a comunidade tornou-se uma ponto de encontro para a busca espiritual de muitas pessoas e um ponto de referência para o ecumenismo, olhando principalmente para o Oriente. E Bianchi se torna uma figura pública, estimada pelos pontífices e muito presente na mídia, mesmo naquela laica.

Mas também Bose é investida pela dinâmica que geralmente ocorre nas comunidades nascidas em torno de um líder carismático. Uma primeira visita apostólica (uma inspeção) foi marcada pelo Vaticano em 2014. No final, os "inspetores" - um abade belga e uma abadessa francesa - elogiam as qualidades ecumênicas da comunidade, mas também recomendam que a liderança do mosteiro fosse exercida de maneira “não autoritária, mas transparente e sinodal” É o início da transição que ocorre em 2017, quando Bianchi deixa a direção ao monge Luciano Manicardi, abandona o papel de “prior” e conserva o de “fundador”, permanecendo em Bose.

A transferência de responsabilidade, apesar de acordada, não funciona e, em dezembro de 2019, chega outra inspeção da Santa Sé, solicitada pelos próprios monges. Ao final da qual os três "inspetores" (o abade beneditino-sublacense-cassines Guillermo León Arboleda Tamayo, o canossiano Amedeo Cencini, consultor da Congregação do Vaticano para os institutos de vida consagrada, e a abadessa Anne-Emmanuelle Devêche, já presente na visita de 2014) entregam seu relatório à Santa Sé. E em 13 de maio, sob a forma de um "decreto singular" (ou seja, inapelável) assinado pelo cardeal secretário de Estado Pietro Parolin e aprovado pelo Papa Francisco, chega a sentença: Bianchi, juntamente com dois monges e uma freira, deve deixar a comunidade e se mudar para outro lugar.

Por quê? Por causa de "uma situação tensa e problemática em nossa comunidade em relação ao exercício da autoridade do fundador, à gestão do governo e ao clima fraterno", explica um comunicado do mosteiro de Bose. Os monges acrescentam que a situação teria piorado após a "recusa de providências por alguns destinatários", algo que "determinou uma situação de confusão e desconforto ainda maiores".

Em outras palavras, apesar da renúncia, Bianchi teria continuado a agir como "prior-sombra", junto com seu "círculo mágico". Uma acusação que, no entanto, o fundador rejeita: "Eu nunca contestei com palavras e atos a autoridade do legítimo prior, Luciano Manicardi", aliás, "meu colaborador próximo por mais de vinte anos e vice-presidente da comunidade". E ele pergunta: "Que a Santa Sé nos ajude e, se tivermos feito algo que contrasta a comunhão, que sejamos informados."

Está claro que a história está incompleta. Os problemas no exercício da autoridade não justificam a severa providência do Vaticano: se fosse apenas isso, metade dos conventos e a maioria dos dicastérios da Cúria Romana seriam fechados. Há mais, o que não é dito. Revelações "que não podem ser contadas"? É possível, mas não muito provável, à luz da história da comunidade.

É mais fácil que sobre Bose esteja sendo jogado um jogo importante, que diz respeito às estruturas da Igreja Católica: experiência anômala que deve ser reconduzida a um mais rígido controle romano?

E, neste caso, Francisco não seria tanto a vítima (atingir Bose para atingir o papa) quanto o killer. Além disso, especialmente após o Sínodo na Amazônia, que o caminho da reforma eclesial tenha ficado atolado é um fato. Entre tantas dúvidas, uma confirmação: a total opacidade do Vaticano. A única ação esclarecedora da Santa Sé seria a transparência. Mas talvez seja mais fácil um camelo passar pelo buraco de uma agulha.

 

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