Sozinhos e à deriva: bispos dos EUA se reúnem e perdem o foco. Artigo de Massimo Faggioli

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26 Novembro 2019

A Igreja não está mais dividida entre o antigo modelo monárquico e o moderno modelo democrático; agora, ela se divide entre viver sinodalmente em lugares reais com pessoas reais, e aderir a um modelo midiático e de comunicação destinado a ajudar a preservar o status quo.

A opinião é do historiador italiano Massimo Faggioli, professor da Villanova University, em artigo publicado em Commonweal, 25-11-2019. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Segundo ele, "apesar das expressões de comunhão com Roma ocasionalmente sinceras e às vezes ritualísticas, o esforço para neutralizar a mensagem do Papa Francisco nos Estados Unidos continua existindo. A Igreja norte-americana não está apenas à deriva, mas também cada vez mais sozinha no mundo".

Eis o texto.

A reunião de outono de 2019 dos bispos dos EUA em Baltimore não teve o drama do encontro do ano passado, onde ficou visível para todos um colapso nas comunicações entre a Conferência dos Bispos dos EUA (USCCB, na sigla em inglês) e Roma sobre o enfrentamento da crise dos abusos sexuais (um embaraço para o qual a explicação oficial contradiz a história bem documentada).

Desta vez, os bispos evitaram grandes equívocos públicos, e tudo parecia estar indo conforme o planejado. Eles aprovaram o documento revisado sobre as prioridades estratégicas para 2021 a 2024 (evangelização, vocações, vida e dignidade da pessoa humana, proteção das crianças). Elegeram o novo secretário da Conferência, assim como o presidente da Comissão para a Liberdade Religiosa e o presidente eleito de cinco comissões permanentes adicionais. Eles nomearam o bispo Andrew Cozzens para suceder o bispo Robert Barron como presidente da comissão de evangelização. Cozzens, bispo auxiliar de St. Paul-Minneapolis, é conhecido pela sua simpatia pela Fraternidade Sacerdotal de São Pedro, neotradicionalista, e pela missa em latim do rito pré-Vaticano II. E houve a eleição de um novo presidente: o arcebispo de Los Angeles, José Gómez, que se torna o primeiro latino a ocupar o cargo. O novo vice-presidente é o bispo de Detroit, Allen Henry Vigneron, que, se for eleito presidente daqui a três anos, completará 75 anos durante o seu mandato e, portanto, teria que apresentar sua renúncia ao papa.

As eleições enfatizam o fato de que os bispos das eras João Paulo II e Bento XVI continuam sendo a maioria da Conferência e o seu centro de gravidade. Isso também ficou aparente no acalorado debate sobre a preparação do guia Cidadania Fiel para as eleições de 2020. Um pequeno grupo de bispos, que, assim como Francisco, acreditam que o ensino sobre o aborto deve ser apresentado no contexto mais amplo das questões da vida (incluindo as mudanças climáticas e a pobreza), procurou incluir um parágrafo da encíclica papal Gaudete et exsultate, que expressa essa ideia. A proposta foi rejeitada.

Por outro lado, a maioria aprovou cinco pequenos roteiros de vídeo e um breve parágrafo introdutório, identificando o aborto como a “prioridade proeminente” para o próximo ano eleitoral. Isso destoa muito do pensamento político de muitos eleitores católicos, para os quais as questões de imigração, do cuidado com a criação e de justiça econômica – sem falar da própria presidência Trump – também ganham destaque. De certa forma, as próximas eleições têm a ver com o tipo de cristianismo que a Igreja Católica dos EUA escolherá encarnar em um país em mudança como os EUA. A maioria dos bispos reunidos em Baltimore pareceu não ter nenhuma consciência disso.

Eles também pareceram não apreciar as críticas educadas e pontuais feitas pelo núncio papal dos EUA, arcebispo Christophe Pierre, em seu discurso de abertura à Conferência. Ao encorajar os bispos a avaliarem honestamente o progresso da nova evangelização, ele disse o seguinte: “Embora tenha havido uma forte ênfase na misericórdia por parte do Santo Padre, às vezes, paradoxalmente, as pessoas estão se tornando cada vez mais julgadoras e menos dispostas a perdoar, como testemunhado pela polarização que domina esta nação”. Ele deixou claro – em sua maneira diplomática – que não passou despercebido o fato de que muitos bispos dos EUA ignoraram amplamente os dois documentos mais desafiadores do magistério de Francisco: a Amoris laetitia e a Laudato si’. A recepção fria deles em relação a Pierre parece ser outro indicativo da sua falta de vontade ou de incapacidade de se envolver com os nossos tempos.

A USCCB também ignorou o discurso notável e importante que o bispo de San Diego, Robert McElroy, proferiu na St. Mary’s University, no Texas, uma semana antes da reunião de Baltimore. Esse discurso foi nada menos do que o equivalente norte-americano da “magna carta” sobre a sinodalidade que o Papa Francisco proferiu em outubro de 2017 no 50º aniversário da instituição do Sínodo dos Bispos por Paulo VI. McElroy levantou o argumento mais poderoso até agora sobre o estabelecimento de um processo sinodal para a Igreja dos EUA, baseando-se em seu duro diagnóstico sobre o estado da comunhão eclesial.

“A minha relutante conclusão é de que a Igreja nos Estados Unidos está agora à deriva em muitos níveis”, disse ele, “e que é necessário um momento fundamental de renovação. Um caminho sinodal seria uma oportunidade para pôr em movimento esse tipo de renovação”. Ao mesmo tempo, McElroy expressou esperança de que tal renovação seja possível, citando o “processo dialógico significativo” demonstrado no Quinto Encuentro Nacional de Pastoral Hispânica/Latina no ano passado. “Tal caminho sinodal não é estranho para a Igreja nos Estados Unidos, nem está além das nossas capacidades”, disse ele. Podemos nos apegar ao status quo, disse ele, ou escolher uma nova abordagem. “O grande perigo é que a nossa vida eclesial esteja se tornando como a nossa vida política – polarizada, distorcida e tribal. É por isso que um profundo e amplo processo de diálogo sinodal dentro da comunidade católica nos Estados Unidos poderia fortalecer um caminho alternativo.”

A sinodalidade tem sido vista em nível local nos EUA – em San Diego em 2016, por exemplo –, e, em junho, a Arquidiocese de St. Paul-Minneapolis iniciou um processo sinodal de dois anos, que levará a uma celebração final no fim de semana de Pentecostes de maio de 2021. Mas, por outro lado, a Igreja dos EUA está muito fora de ritmo com outras Igrejas do Ocidente. Apenas a ideia de um processo sinodal nacional, ou mesmo de um concílio plenário nacional, parece hostil à maioria das lideranças católicas dos EUA.

E não se trata apenas de um problema de política. Parece haver uma falta de familiaridade com o próprio conceito teológico de sinodalidade (considerem-se, por exemplo, os comentários do arcebispo da Filadélfia, Charles Chaput, em uma recente entrevista: “Eu não acho que alguém tenha uma ideia clara, porque não há definição [de sinodalidade]. Não há nenhum documento da Igreja no Ocidente que a explique. Na realidade, é um conceito da Igreja oriental mais do que um conceito com o qual estejamos familiarizados...”).

Mas os teólogos norte-americanos também não são especialistas, nesse sentido. Pesquise na internet por livros ou monografias sobre sinodalidade em inglês, e apenas alguns artigos em revistas acadêmicas especializadas aparecerão. Esse é um dos preços a pagar quando uma geração de teólogos profissionais leigos católicos se afasta do estudo das instituições eclesiásticas em favor de estudos antropológicos, sociológicos e culturais.

Também foi instrutivo ver a reunião de Baltimore à luz do Sínodo para a Amazônia realizado em Roma, apenas algumas semanas antes. Sob a liderança de Francisco, o Sínodo Amazônico tornou-se o lugar para as tensões eclesiais e teológicas se enfrentarem e serem sintetizadas, através de uma celebração da sinodalidade e da Eucaristia, em um ambiente espiritual. Não houve nenhuma transmissão ao vivo dos procedimentos e apenas um limitado acesso da imprensa.

Por outro lado, a reunião de Baltimore incorporou perfeitamente o ecossistema venenoso e profundamente danificado do catolicismo norte-americano online: transmitida ao vivo, desdobrando-se “de forma transparente”, de acordo com uma estratégia de comunicação cuidadosamente concebida para gerar comentários e recompensar as vozes católicas “mais barulhentas” online.

A Igreja não está mais dividida entre o antigo modelo monárquico e o moderno modelo democrático; agora, ela se divide entre viver sinodalmente em lugares reais com pessoas reais, e aderir a um modelo midiático e de comunicação destinado a ajudar a preservar o status quo. Lembre-se do aviso de Platão aos atenienses que haviam sido consumidos pela cultura do teatro sobre a incompatibilidade entre orthotes (retidão) e doxa (opinião superficial). Quando tudo em uma assembleia eclesial é teatro, faz pouco sentido assisti-la.

A impressão dominante deixada pela reunião de Baltimore? A de que, apesar das expressões de comunhão com Roma ocasionalmente sinceras e às vezes ritualísticas, o esforço para neutralizar a mensagem do Papa Francisco nos Estados Unidos continua existindo. A Igreja norte-americana não está apenas à deriva, mas também cada vez mais sozinha no mundo.

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