“Os instrumentos que o Papa Francisco implementou e que são vinculantes devem nos libertar das amarras da nossa cultura”. Entrevista com o Padre Paul Béré

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02 Outubro 2019

O padre Paul Béré é jesuíta, originário de Burkina Faso, professor permanente do Pontifício Instituto Bíblico de Roma. Desde 2008, colaborou como especialista, respectivamente, na Secretaria-Geral do Sínodo dos Bispos (2008-2014), no Pontifício Conselho para a Cultura (desde 2014) e no Pontifício Conselho para a Promoção da Unidade dos Cristãos (2018). Ele, juntamente com Charles Taylor, receberá o Prêmio Ratzinger 2019.

Nesta entrevista, aborda a questão dos abusos sexuais na Igreja.

A entrevista é de Lucie Sarr, publicada por La Croix Africa, 01-10-2019. A tradução é de André Langer.

Eis a entrevista.

O Papa Francisco é apresentado como aquele que tem a missão de trabalhar pela reforma da Igreja. O que você pensa sobre isso?

João Paulo II teve um longo pontificado. Ele chegou em um momento de grandes mudanças no mundo. Quando João Paulo II morreu, era difícil saber quem o substituiria. A escolha de Bento XVI não é insignificante. Ele tinha uma grande autoridade entre os cardeais. Eleito, ele sabia como conduzir a Igreja por uma certa transição. É uma leitura posterior ao fato.

Mas antes da eleição de seu sucessor, havia as congregações gerais, isto é, as reuniões do Colégio de Cardeais para examinar a vida da Igreja. E foi este Colégio Cardinalício que indicou a necessidade de uma reforma. O Papa Francisco chega na sequência de todo esse trabalho, ciente de que os cardeais em seu discernimento desejam que sua missão integre o esforço de reformar a Igreja.

Na história, sempre que houve a necessidade de reformas, foram criados mecanismos. O Concílio de Trento criou um conselho para fazer as reformas. O Papa Francisco fez o mesmo com o C9, que depois se tornou o C6. Ele então publicou a Evangelii Gaudium, onde apresenta sua visão da Igreja. Mas na implementação, ele usa a sinodalidade para não refletir sozinho. A questão do diaconato das mulheres é uma ilustração disso.

A atitude mais importante de Francisco é a do discernimento. Ele quer que a reforma seja feita não apenas ao nível das estruturas, mas primeiro ao nível interno. Buscar como comunidade eclesial a vontade do Espírito Santo na Igreja. É uma cultura difícil de implementar quando se está acostumado com uma Igreja de princípios e de leis a serem aplicados. O chefe dita a lei e ela é executada sem levar em conta os fatores da fragilidade e da temporalidade. A lei é um horizonte para o qual nos ajuda a caminhar. Esperamos que o Papa Francisco consiga iniciar essa cultura do discernimento.

O Papa Francisco empenhou-se particularmente na luta contra o clericalismo e a questão dos abusos. Que análise faz do seu enfoque?

Foram realizados estudos para tentar compreender os abusos (psicológicos, físicos, sexuais etc.) e nos demos conta de que eles derivam em grande parte da relação de poder, da qual o clericalismo é uma forma degenerada. Ambos os fenômenos estão intimamente ligados. Isso não é algo próprio à Igreja. Há pessoas que são abusadas pelo seu superior hierárquico. Os abusos ocorrem no contexto das relações de poder. São também o fruto da nossa história. O clericalismo é o prisma da fonte da autoridade na Igreja.

A princípio, com Santo Tomás, a fonte da autoridade estava na relação de ordem que encontra sua fonte em Deus. Nós a reduzimos à vontade de quem detém o poder: o bispo e o padre. Gradualmente, chegamos a empoderar o clero. Essa exaltação do clero na visão da Igreja como sociedade perfeita degenerou em clericalismo.

O que o Papa Francisco está tentando nos fazer entender é que a Igreja é antes de tudo o Povo de Deus (ver o Vaticano II). É esse Povo de Deus que deve ser o ponto de partida. Não há clero que esteja acima de todos em uma pirâmide. Somos uma comunidade, um povo. Daí a piada: “Deus não têm netos!” (Ou netas!). O Papa está no processo de redescobrir um valor profundo da Igreja: o Povo de Deus como fonte dos próprios ensinamentos da Igreja.

A tarefa é difícil, porque os abusos mostram que durante muito tempo vivemos na negação. Novamente, não devemos apressar demais as coisas, porque ninguém deve ser deixado na beira do caminho. Precisamos encontrar uma maneira de não escandalizar os pequenos. Isso significa que precisamos encontrar uma maneira de converter os responsáveis, preparar o Povo de Deus e levar em consideração os mais frágeis. Aqui está uma visão geral da complexidade dessa situação que existe há muito tempo. Mas o Papa Francisco permanece sensível à perspectiva inclusiva. Isso é mais importante que a busca frenética por resultados.

Que análise você faz da situação na África e da postura exibida pela maioria dos bispos do continente? Existe finalmente uma inculturação a ser feita do ponto de vista metodológico para explicar a todos o que são os abusos e combater o clericalismo e os abusos no continente?

Nosso contexto africano é bastante complexo a esse respeito. Temos dificuldades para colocar na praça pública os problemas que encontramos. O que eu chamo de praça pública não está necessariamente fora da Igreja. A cultura dos sínodos não se desenvolveu na África. Mas a sinodalidade faz parte da tradição da Igreja. É no sínodo que toda a comunidade (sacerdotes, religiosos, leigos) pode se reunir para discutir, refletir e discernir a vontade de Deus. Essa sinodalidade, que não entrou na cultura eclesial da Igreja africana, faz com que não tenhamos espaço para discutir nossos problemas.

Nossa cultura local (africana) é, às vezes, uma cultura da vergonha. Se há assuntos de que não nos orgulhamos, não sabemos como falar sobre eles. Infelizmente, a negação é uma maneira de evitar o que sentimos. Os instrumentos que o Papa Francisco implementou e que são vinculantes devem nos libertar das amarras da nossa cultura.

Infelizmente, nós não soubemos nos antecipamos o suficiente. Por exemplo, se um padre é acusado de pedofilia e um outro agente de pastoral é informado, ele deve informar o bispo, que, por sua vez, deve tomar providências de acordo com as medidas estabelecidas por Roma. No contexto atual, devemos aprender a antecipar. Os especialistas nos alertam que a tendência ao suicídio dos acusados é grande.

A Igreja na África deve se apropriar das novas disposições e realizar um trabalho aprofundado vinculado à nossa cultura local, onde o poder e a sexualidade são dois temas muito sensíveis.

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