“A Igreja está parada há décadas, e Roma deve entender isso”. Entrevista com Eberhard Schockenhoff

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26 Setembro 2019

“Na Alemanha, temos a impressão de que, em Roma, ainda não se tomou consciência da situação e da extensão real da crise que a Igreja Católica enfrenta, não só na Alemanha, mas no mundo. Desse ponto de vista, para recorrer a um grande paralelo histórico, a situação é semelhante à que existia às vésperas da Reforma.”

A reportagem é de Matteo Matzuzzi, publicada em Il Foglio, 24-09-2019. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Quem disse isso em uma conversa com o jornal Il Foglio foi o professor Eberhard Schockenhoff, sacerdote e docente de Teologia Moral da Universidade de Friburgo, membro da Comissão Alemã de Ética e conselheiro da Conferência Episcopal local.

Ele é considerado um dos maiores moralistas contemporâneos. Com o Sínodo Amazônico às portas, existe outro Sínodo que poderia criar mais de um problema para a unidade da Igreja Católica, e é o anunciado nos últimos meses pelo cardeal Reinhard Marx, com o aplauso quase unânime de todos os bispos do país.

Do Vaticano, chegou um sinal de alerta, com uma advertência sobre o risco de violar o Código de Direito Canônico. O problema é que a agenda decidida pelos prelados alemães é problemática, e, além disso, eles estabeleceram que os resultados serão vinculantes. Em relação a isso, Roma não pretende dar a sua luz verde.

“No momento em que as dioceses alemãs, sob a orientação dos seus bispos, adotam a via sinodal para se consultarem sobre a renovação da Igreja, o resultado não pode deixar de ser vinculante”, diz Schockenhoff, que acrescenta: “Os temas que serão abordados – os abusos sexuais, as estruturas de poder eclesiásticas, a moral sexual, o papel das mulheres e a forma de vida sacerdotal – constituem para muitas pessoas, dentro e fora da Igreja, um grande obstáculo que pesa sobre a credibilidade do anúncio do Evangelho por parte da Igreja.”

E a reação vaticana?

Foi uma surpresa para nós, mas, por outro lado, estamos acostumados ao fato de que os bispos, que não conseguem convencer os seus coirmãos, depois vão chorar com Roma. O modo unilateral com que eles apresentam os acontecimentos, fixando-se nos fenômenos negativos, reforça o ponto de vista do Vaticano e não contribui para uma melhor compreensão.

A referência, nem tão velada, é aos três bispos (dos 27) que votaram contra as diretrizes estabelecidas pela maioria, entre as quais o cardeal arcebispo de Colônia, Rainer Maria Woelki.

Mas não há o risco de que o fato de ter posto na pauta questões tão divisivas possa criar mais de um problema para o papa, com o risco de enfraquecê-lo?

A Igreja, nessa questão, não alcança mais o coração dos seus próprios fiéis. Muitos se afastam interiormente da Igreja e a consideram irreformável. O fato de o papa estar sujeito a fortes pressões de grupos tradicionalistas não pode ser imputado aos católicos moderados alemães. Aliás, estes últimos também se identificam, em sua maioria, como conservadores, pois querem manter a Igreja de pé e servi-la, para que possa seguir em frente no seu caminho com determinação e coragem, como o papa Francisco continuamente diz nas suas exortações.

Quanto aos temas, diz o teólogo, “o novo papel da mulher na Igreja e na sociedade é um dos ‘sinais dos tempos’ que o Concílio Vaticano II indicou expressamente como um grande desafio para a Igreja”.

“É verdade que o debate sobre o modo como as mulheres, com a sua contribuição, podem dar forma à Igreja, frequentemente, na Alemanha, se reduz a discutir por que as mulheres não podem ser ordenadas ao diaconato ou ao sacerdócio. No entanto, as razões levantadas pelo magistério não convencem mais ninguém nas nossas dioceses, exceto uma pequena minoria que está prestes a desaparecer.”

Mas a solução para a crise da Igreja universal pode realmente vir das receitas elaboradas por um Sínodo vinculante realizado na Alemanha?

“Os problemas que afligem a Igreja hoje não se manifestam apenas nas dioceses alemãs: aqui, eles simplesmente se tornam visíveis com antecedência e, talvez, são analisados de maneira mais franca do que em outras realidades eclesiásticas. Em muitas grandes cidades da Europa oriental, o processo da secularização que avança se manifesta hoje com efeitos semelhantes aos que experimentamos na Alemanha. Portanto, a discussão sobre a falta de padres, sobre a mudança da moral sexual e sobre a posição da mulher na Igreja adquire uma relevância que vai muito além das Igrejas alemãs locais. A ‘via sinodal’ certamente não é um modelo imediatamente aplicável em todas as outras Igrejas locais. Na Alemanha, existem tradicionalmente estruturas vivas, mediante as quais os leigos colaboram e que dão forma à presença da Igreja e da fé cristã na esfera pública. Estas são, por um lado, os colégios pastorais em nível de paróquias e dos decanatos, por outro, as múltiplas e bem organizadas associações em nível federal. O fato de a representação do laicato ser bem organizada e ter no Comitê Central dos Católicos Alemães uma plataforma comum torna praticável aqui o experimento da ‘via sinodal’. Mas, em todos os casos, isso continua sendo um experimento, cujo sucesso depende da coragem e da vontade de ambas as partes em encontrar um acordo.”

O papa, voltando da sua viagem à África, no início do mês, falou sobre o cisma. Logo se pensou nos Estados Unidos, onde a compacta galáxia conservadora ainda não havia se sintonizado com as frequências do pontificado bergogliano. Mas não é que, na realidade, os maiores riscos vêm da Alemanha? Parece que ouvimos o eco da “Declaração de Colônia”, com a qual, há 30 anos, dezenas de teólogos colocaram o magistério de João Paulo II no Índex.

Schockenhoff não nega:

“No Vaticano, quando se evoca o ‘espírito de Colônia’, não se faz nada mais do que incitar fantasmas. As Igrejas alemãs não sofrem apenas com recentes escândalos, mas também com um declínio no número de fiéis e na participação na missa. Mesmo na Cúria, eles precisam se acostumar com o fato de que passaram os tempos em que se podia fazer e desfazer à vontade, sem considerar as Igrejas locais. Enquanto em Roma se continuar pensando em perpetuar o impasse das reformas, com o qual a Igreja sofre há décadas, adiando as decisões indefinidamente, a atmosfera nas relações entre as Igrejas locais alemãs e a Cúria Romana permanecerá tensa.”

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