Bispo vítima de abuso sexual fala sobre a crise na Igreja

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21 Setembro 2018

Vincent Long é Bispo de Parramatta, diocese ao noroeste de Sydney. Ex-Assistente Geral da Ordem dos Frades Menores Conventuais, ele é o primeiro bispo da Austrália nascido na Ásia e o primeiro bispo nascido no Vietnã a liderar uma diocese fora do Vietnã.

Em 2017, o Bispo Long testemunhou para a Comissão Real da Austrália. Em testemunho ele revelou, “Eu também fui vítima de abuso sexual do clero quando vim pela primeira vez à Austrália, embora eu já fosse adulto, e, por causa disso, senti um forte impacto e uma necessidade de, sabe, ir atrás de outras vítimas e realmente se esforçar em busca de justiça e dignidade para elas.”

Essa é a terceira entrevista de uma série que Jim McDermott, jesuíta, está conduzindo sobre a crise dos abusos sexuais. Ela foi realizada por e-mail.

A entrevista é publicada por America, 19-09-2018. A tradução é de Victor D. Thiesen.

Eis a entrevista.

Bispo Long, quais foi a sua reação aos eventos das últimas três semanas que ocorreram nos Estados Unidos e em outros lugares? O que você pensa do momento atual da Igreja?

Os eventos dessas últimas semanas, incluindo as acusações sensacionalistas contra o próprio Papa Francisco pelo ex-núncio nos Estados Unidos, causou grande turbulência na Igreja. A crise de abusos sexuais está se espalhando por toda a igreja como um tsunami e tem o potencial de causar danos que perdurariam por muito tempo, caos e até um cisma. É a maior crise desde a Reforma e expõe um conflito ideológico que percorre toda extensão da Igreja universalmente.

As forças anti-Papa Francisco aceleraram os ataques mais direto a ele de maneira coordenada e virulenta. Não há piedade alguma e eles aproveitaram desse momento de turbulência para enfraquecer o seu papado e atrapalhar seu processo de reforma. O que é interessante, também, é o número de bispos que escolheram simpatizar com essas forças e, desse modo, mostrar a sua desaprovação nada sutil em relação ao modo como o papa está conduzindo a Igreja.

Claramente, Francisco terá de encarar à bordo tanto a tempestade quanto o motim. Eu só espero e rezo para que ele siga no percurso porque nada além de uma reforma compreensiva irá restaurar a confiança e a fé na Igreja. É hora da Igreja, especialmente seus líderes, escutar todos com grande humildade e embarcar numa jornada de conversão radical. Eu acredito firmemente que devemos encarar essa época de crise como um catalisador para a mudança e não como uma aberração temporária. Devemos ter a coragem de fazer o que for preciso recuperar a Igreja que é estimada por Cristo e pelo seu Evangelho.

Não devemos temer desta vez, pois esta pode ser uma grande oportunidade para agirmos.

A Igreja da Austrália parece estar, de alguma forma, numa posição similar à dos Estados Unidos no momento, em grande busca atrás de próximos passos. Quais você pensa que são os próximos passos que o episcopado deveria dar?

Qualquer tentativa de livrar a Igreja dos casos de abuso sexual terá de lidar com suas causas originais. Acredito que a crise de abusos sexuais na Igreja seja um sintoma de uma cultura disfuncional, corrosiva e destrutiva dentro da instituição. O Papa Francisco frequentemente denuncia o clericalismo, que é endêmico para diversos setores e cargos da Igreja institucional como a Cúria Romana, as estruturas diocesanas, seminários, etc. Ultimamente, não se trata mais de uma questão de manifestações individuais do clericalismo. É uma questão de clericalismo inerente à própria cultura da Igreja, para a qual devemos olhar com muito cuidado.

Se quisermos fazer com que a Igreja seja um ambiente saudável e seguro para as crianças e os adultos que sejam vulneráveis, não devemos apenas responsabilizar os infratores e os facilitadores, mas também explorar as reformas culturais e estruturais necessárias para fazer a Igreja ir adiante.

O que também se destaca nessa cultura é o exercício do poder. Um abuso de natureza sexual é, geralmente, uma manifestação do abuso de poder. Uma resposta efetiva à crise deve incluir, dessa maneira, um exame do exercício de poder, não somente no clero, mas também nas partes mais estruturais da Igreja. Um modo saudável de dar ordens e exercer o poder está conectado à consciência do poder como uma destinação e uma relação ao serviço, muito mais do que domínio, títulos e privilégio.

Esses são os maiores passos que eu acredito que sejam necessários os líderes da igreja tomarem: deixar que as vítimas tenham a verdade, a justiça e a cura; criar um ambiente mais saudável na igreja para as crianças e os adultos que sejam vulneráveis; e facilitar para que os fiéis, principalmente as mulheres, participem ativamente da vida da igreja, das estruturas de administração e das tomadas de decisão.

Em todas essas medidas, é necessário ter uma equipe provida de perícia, experiência e independência para que possa investigar, rever, exigir medidas das administrações e coordenadorias das dioceses, das paróquias e das instituições, inclusive em relação a problemas de transparência, intimação e consultas e a participação de leigos e mulheres.

É muito difícil para as pessoas compreender como a cultura da igreja continua permitindo a ofuscação, o encobrimento e, às vezes, uma recusa de se tornar responsável por erros graves. Como você enxerga essas coisas? Por que ainda agora, e ainda entre os líderes que fizeram muitas outras coisas boas, elas persistem? O que deverá, em sua opinião, ser feito para mudar a cultura da Igreja?

A cultura da hegemonia no clero ficou solidamente entranhada na Igreja Católica desde que ela começou a se tornar grande no Império Romano. É um subproduto do modelo da igreja, que parece se ver como autossuficiente, superior e separada do resto do mundo. O centro das atenções são a seguridade, a reputação e as relações internas. A Igreja nesse modelo se tornou a igreja dos ordenados às custas dos batizados. Como resultado, os ordenados se tornaram um grupo exaltado e elitista que protege os interesses e privilegia seus membros. Isso explica o ofuscamento e o encobrimento, que é tão endêmico à mentalidade desse grupo. Está muito longe da imagem do Lava-Pés na Santa Ceia e é um ingrediente e uma condição ideal para que a doença do clericalismo infeccione.

Na minha opinião, nós realmente deveríamos, de uma vez por todas, abandonar esse modelo clericalista da igreja. Ele nos serviu muito além de seu prazo de validade. A Igreja, como entendida e articulada pelo Concílio Vaticano II, vê a si mesma como o peregrino Povo de Deus encarnada no mundo. Estamos lidando com um novo paradigma - um paradigma que está baseado na mutualidade e não na exclusão, no amor e não no medo, no serviço e não no clericalismo, no compromisso com o mundo e não no isolamento em relação a ele ou na hostilidade contra ele, na graça encarnada e não no dualismo. Chegou a hora de nos dedicarmos e implementarmos sem hesitação, definitivamente, a visão da igreja peregrina que o Concílio Vaticano II nos confiou. Chegou a hora da Igreja ser verdadeiramente a igreja dos batizados e, juntos dos ordenados, todas o Povo de Deus pode criar uma cultura nova de humildade, de prestação de contas e de serviço.

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