Etty Hillesum, o abandono do sujeito

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16 Agosto 2018

Faz sentido hoje propor uma nova coletânea antológica de Etty Hillesum depois de terem sido publicados os seus diários e as cartas que chegaram até nós (também em tradução italiana)? Depois de tantos terem se defrontado com a figura da jovem judia holandesa (1914-1943), conquistados pela sua voz inédita e poderosa, só exteriormente apagada no inferno da Shoá?

O comentário é da historiadora italiana Mariangela Maraviglia, professora da Escola Teológica Diocesana de Pistoia, na Itália, em artigo publicado por Il Manifesto, 15-08-2018. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Faz sentido quando o texto nasce de uma longa maturação e souber oferecer um aprofundamento adicional em comparação com a bibliografia anterior. É o caso do Il gelsomino e la pozzanghera. Testi dal Diario e dalle Lettere [O jasmim e a poça. Textos do Diário e das Cartas, em tradução livre] (Ed. Le Lettere, 172 páginas), editado por Beatrice Iacopini – ex-co-autora, com Sabina Moser, de um denso estudo, Uno sguardo nuovo. Il problema del male in Etty Hillesum e Simone Weil [Um olhar novo. O problema do mal em Etty Hillesum e Simone Weil, em tradução livre] (Ed. San Paolo 2009) – uma antologia que se oferece como uma espécie de mapa orientador entre as milhares de páginas de Hillesum e um guia eficaz para a compreensão do seu percurso de crescimento humano e espiritual.

O extraordinária caso da jovem aspirante a escritora que, nas terríveis circunstâncias da ocupação nazista da sua terra, conseguiu desenvolver uma luminosa humanidade, no sinal de um centro unificador que ela chegou a chamar de “Deus”, é um caso requintadamente religioso, embora de uma religiosidade desprendida de qualquer dogmatismo ou pertencimento eclesial.

Iacopini enfatiza a dimensão mística dessa religiosidade, após um intenso ensaio inicial, uma escolha de textos, em uma nova tradução do original holandês, do qual valoriza a repetição de conceitos e palavras-chave que se referem implícita ou explicitamente àquela sabedoria.

Para nos limitarmos a poucos exemplos significativos: expressões como “pequeno eu”, “espaço interior”, “quietude”, “abandono confiante”, tomadas de empréstimo do amado poeta Rainer Maria Rilke, que lhe foram transmitidas por aquele singular “diretor espiritual” que foi o junguiano Julius Spier, descobertas no último período da sua vida nas páginas do renano Mestre Eckhart.

A organizadora também propõe um oportuno e pontual glossário desse léxico místico, que permite que o leitor se aproxime dele com cognição e compartilhe descobertas significativas: por exemplo, sobre a última expressão, “abandono confiante”, conceito central da filosofia alemã, como o holandês gelatenheid de Hillesum corresponde literalmente ao Gelassenheit eckhartiano.

Na esteira da grande tradição espiritual, o percurso de resistência e de libertação da jovem holandesa se apresenta como um caminho de distanciamento dos limites de um olhar autocentrado, de abandono das “representações convencionais da vida”, para se abrir a um “grande salto, o abandono do sujeito no cosmos”, a uma dimensão de amor e de “compaixão” universal.

Como observou Tzvetan Todorov, Etty Hillesum “afasta-se progressivamente da tradição do pensamento ocidental”, do predomínio do sujeito, “que representa os outros como os instrumentos eventuais das investigações realizadas pelo eu” (Resistenti. Storie di donne e uomini che hanno lottato per la giustizia [Resistentes. Histórias de mulheres e homens que lutaram pela justiça, em tradução livre], Ed. Garzanti, 2016).

Diante da indizibilidade do que estava acontecendo, ela se recusa a aderir pessoalmente à oposição política ao nazismo, interpretada como outra forma de prevalência do eu, poderíamos dizer com Todorov: ela adverte, ao contrário, que a sua tarefa é salvaguardar um núcleo de vida e de amor a partir do qual se possa recomeçar “do zero” na Europa do pós-guerra.

Para usar a bela página da qual o livro tira o título, ela consegue salvaguardar “o jasmim”, símbolo da beleza da vida, impedindo que se afogue nas “poças” do ódio suscitadas pela guerra e pela ocupação. Não retendo nada para si, mas consumindo-se, “bálsamo para muitas feridas”, até a morte conscientemente compartilhada com o seu povo no horror de Auschwitz.

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