Ensaio em memória de Catarina Lutero e Jenny Marx por ocasião do jubileu das "Teses" (1517) e do "Capital" (1867)

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11 Agosto 2018

"Jenny von Westphalen Marx nasceu, tal qual Catarina von Bora Lutero, de uma família cujos membros foram um dia servidores da nobreza", escreve Paulo Suess, doutor em Teologia Fundamental, fundador do curso de Pós-Graduação em Missiologia, na então Pontifícia Faculdade Nossa Senhora da Assunção, em São Paulo, assessor teológico do Conselho Indigenista Missionário – Cimi e professor em várias Faculdades de Teologia no ciclo de Pós-Graduação em Missiologia. O artigo, originalmente publicado na revista Convergência, foi enviado pelo autor para ser publicado nos 200 anos do nascimento de Karl Marx, debatido na revista IHU On-Line, no. 525, sob o título Karl Marx, 200 anos - Entre o ambiente fabril e o mundo neural de redes e conexões.

Eis o artigo.

O ano 2017 nos lembra, além do início da devoção à Nossa Senhora de Aparecida (1717) e do centenário da Revolução Russa (1917), de duas publicações que fizeram história. Faz 500 anos que Lutero pregou 95 teses à porta da Igreja do Castelo de Wittenberg (Alemanha), e faz 150 anos que Marx publicou o primeiro volume do “Capital” com o título “Crítica da economia política”.

As “Teses”, de 1517, visavam à Reforma da Igreja Católica, o “Capital”, de 1867, à Revolução como emancipação da classe operária. A Reforma queria construir uma Igreja mais próxima ao Evangelho de Jesus. A Revolução visava, com o protagonismo da classe operária, instaurar a transformação moral de uma humanidade na qual haveria de coincidir o bem viver de cada um com o bem viver de todos. Ambas as publicações propuseram não somente interpretações diferentes da palavra de Deus e dos direitos humanos, mas novas práticas do ser cristão e do ser cidadão. Ambas as propostas de mudanças tiveram um grande impacto sociopolítico, e seus autores, de formas diferentes, foram perseguidos e tornaram-se refugiados: Lutero, em sua condição de herege proscrito, foi protegido por poderes políticos regionais; Marx, expulso de territórios ao alcance do governo da Prússia, foi apoiado por setores revolucionários ligados à classe operária. Dos “redimidos pela graça” de Lutero e da “classe redentora” de Marx, de suas esperanças e promessas de felicidade – assim no Céu como na Terra - nasceram militantes e mártires, santos e demônios.

Neste ensaio por ocasião do momento jubilar das “Teses” e do “Capital” quero lembrar e comparar, em suas semelhanças e diferenças, a vida sacrificada das mulheres de seus autores, a vida de Catarina Lutero (1499-1552) e Jenny Marx (1814-1881). Tenho uma suspeita prévia: A presença de Catarina e Jenny na vida de Lutero e Marx não pode ser reduzida a enfeites secundários de uma causa maior. A causa maior, as lutas por tolerância e diversidade, por justiça e igualdade, por emancipação e participação andam mancando e são destinadas ao fracasso se não tiverem um rosto feminino e masculino.

1. Catarina Lutero

Catarina retratada por Lucas Cranach
Imagem: Herzog August Bibliothek Wolfenbüttel
Wikimedia Commons

Catarina nasceu em 29 de janeiro de 1499, em Zülsdorf, junto à Lippendorf, ao sul de Leipzig (Alemanha). Aos três anos de idade perdeu sua mãe e com cinco anos foi deixada numa escola de religiosas Beneditinas de Brehna. Com 16 anos, tornou-se religiosa num convento cisterciense de Nimbschen. Graças à passagem pela vida conventual, Catarina recebeu uma boa formação, aprendeu a ler e a escrever (um privilégio naquela época), apropriou-se do latim litúrgico, de saberes elementares da cozinha e costura, da medicina natural e da agricultura.

Em 1517, as Teses de Lutero começaram a agitar o país. Apesar do silêncio rigoroso imposto à comunidade cisterciense, Catarina e outras religiosas do convento souberam do movimento de Wittenberg e simpatizaram com as ideias do reformador. Em 1523, Catarina conseguiu fugir de sua clausura para Wittenberg, acompanhada por um grupo de aventureiras corajosas. Algumas delas retornaram às suas famílias, outras foram ajudadas por Lutero e seus amigos a se reencontrar no mundo através de um trabalho e um casamento. Catarina ficou por dois anos como doméstica na casa do pintor Lucas Cranach, que nos deixou um quadro bonito dela. A sina das mulheres da época era essa: da tutela do pai às prendas domésticas e à obediência de um marido.

O ano de 1525 foi de grande convulsão social. Os camponeses se revoltaram contra sua condição de vassalos de príncipes e nobres. Depois do grande massacre dos camponeses em Frankenhausen, um dos seus líderes ideológicos, Thomas Müntzer, pastor protestante e ex-aluno de Lutero, em Mühlhausen, 27 de maio 1525, foi publicamente decapitado. No mesmo ano, o reformador já se havia pronunciado “Contra as hordas salteadoras e assassinas dos camponeses”. A libertação dos camponeses do jugo feudal fracassou, não sem o apoio de Lutero. Em sua análise clássica “As guerras camponesas na Alemanha” (Grijalbo 1977), Friedrich Engels opina: Lutero, o protegido do príncipe da Saxônia e professor renomado de Wittenberg deixou cair por terra os elementos populares de sua Reforma e se tornou representante de uma Reforma burguesa.

Em 13 de junho de 1525, poucas semanas depois da chacina dos camponeses, Lutero e Catarina se casaram - ela com 26 anos de idade e por opção, ele com 42, empurrado pelos amigos. Ambos se formaram em conventos e não estavam propriamente preparados para a vida conjugal. O monge Martinho gostava de trabalhar no silêncio e, ao mesmo tempo, era detentor cortejado do monopólio da palavra, no púlpito e na mesa. A monja Catarina, que escapou do silêncio obrigatório dos cistercienses, gostava da prosa contínua. O início da convivência não foi fácil. Mesmo assim, na literatura, seu matrimônio se tornou por séculos o modelo de uma união de pastores, com divisão de trabalho: a esposa cuidando da organização do lar e o marido concentrado na parte espiritual e no pastoreio, mas também como pai amoroso. Tudo segundo e, às vezes, além do modelo de uma família burguesa da época. Da conquista do México e da derrota dos Astecas, em 1521, que o próprio Cortez amplamente descreveu em suas Cartas que circulavam pela Europa, não se encontra nenhum eco na fala nem nos escritos do reformador.

O príncipe Johann da Saxônia, irmão de Frederico, o Sábio, recém-falecido, que era o grande protetor de Lutero, doou ao casal o mosteiro dos agostinianos de Wittenberg e suas dependências. Portanto, também depois do casamento, Lutero estava em sua casa conventual, porém sem guardião e ecônomo, como é costume nos conventos. Essa parte foi assumida por Catarina, que transformou o convento em casa movimentada por amigos, viajantes e hóspedes, e numa pensão para estudantes, que se tornou uma fonte de renda. Lutero, em tom de admiração e queixa de sua “domina Käthe”, que não era uma assídua leitora da Bíblia, escreve a Justo Jonas, prepósito da igreja do Castelo e seu amigo sobre Catarina, que se assemelhou mais com a Martha do Evangelho do que com a Maria: “Ela lida com carroças, prepara a terra, apascenta e guia o gado, faz cerveja etc. Entre uma e outra atividade também começa a ler a Bíblia”. Nem sempre teve tempo para assistir, à noite, as famosas “Conversas à mesa”. Dos axiomas do marido (ser salvo “somente pela fé”, “somente pela graça”, “somente pela cruz de Cristo”) compreendeu o essencial. Sua religiosidade estava mais próxima à fé das mulheres do povo do que à compreensão dos teólogos. Para compreender a venda das indulgências como obra do diabo não precisava de um estudo teológico aprofundado. Catarina acompanhou as discussões teológicas de Martinho com o bom senso de uma dona de casa e com o realismo de alguém que diariamente precisa cuidar da comida na mesa e da hospedagem de uma casa de trânsito para amigos, estudantes e admiradores do marido. A imagem que temos de Catarina consta em alguns escritos de Lutero e de gente que passou por sua casa. Dela mesmo, praticamente, a história não preservou nenhum escrito.

Da união de Lutero com Catarina nasceram seis filhos. Em 1529, com a morte da irmã de Lutero, o casal acolheu ainda as seis crianças dela. O antigo convento dos agostinianos tornou-se também uma casa de trânsito para a irmã morte. A primeira filha do casal, Elizabeth, morreu aos oito meses de idade, e Madalena, a segunda, faleceu aos 13 anos. Repetidas vezes, Lutero chamou Catarina de “estrela da manhã de Wittenberg”, já que diariamente ela se levantava às quatro horas da madrugada, mas também porque se tornou luz em suas noites escuras de depressão e, com o saber da medicina popular da época, enfermeira de um marido com múltiplas doenças e superstições da época, indisciplinado no trabalho e na comida. Ao ler o “Catecismo Menor” (1529), os sermões e a correspondência daquele tempo, percebe-se como a experiência familiar enriqueceu a vida cotidiana do Dr. Lutero.

Depois da morte do marido (1546), Catarina experimentou o desamparo das viúvas bíblicas. Perdeu a segurança do lar, garantida pela autoridade de Lutero e por seu salário da universidade, de 100 florins. Teve de enfrentar processos jurídicos pela herança, presenciou lutas religiosas (“guerra smalkaldiana”) e fugiu, com os filhos, da peste que devastava Wittenberg. A caminho de Torgau, acidentou-se gravemente com sua carroça. Às feridas do acidente juntou-se uma pneumonia. Dia 20 de dezembro de 1552 veio a falecer.

Numa carta a um amigo, Lutero teria escrito: “Minha querida Cate me mantém jovem [...]. Sem ela, eu ficaria totalmente perdido. Ela aceita de bom grado minhas viagens e, quando volto, está sempre me aguardando com alegria. Cuida de mim nas minhas depressões e suporta meus acessos de cólera. Ela me ajuda em meu trabalho, e acima de tudo, ama a Cristo. Depois Dele, ela é o maior presente que Deus já me deu nesta vida. Se algum dia vierem a escrever a história de tudo o que já tem acontecido (a Reforma), espero que o nome dela apareça junto ao meu”. Não consegui identificar a fonte desse diálogo. Mas, mesmo como fioretti contém um núcleo de veracidade. Certamente, Catarina não foi a propulsora da Reforma, mas seu sustentáculo.

2. Jenny Marx (1814-1881)

Jenny ao lado de Karl Marx | Foto: Portal Vermelho

Jenny von Westphalen Marx nasceu, tal qual Catarina von Bora Lutero, de uma família cujos membros foram um dia servidores da nobreza. Jenny tinha dois anos quando seu pai foi transferido para Trier, onde assumiu no governo distrital o cargo de um funcionário superior. O pai Heinrich, de Karl Marx, era um “cristão novo”. Depois da presença napoleônica na Renânia (“Reino Real de Westfalen”, 1807-1813), a Prússia se apropriou, em 1815, de muitas partes territoriais da Renânia, e aboliu a legislação progressista de Napoleão. Assim, a região católica de Trier foi governada pela Prússia luterana que não permitiu o exercício profissional de Judeus na esfera do direito. Teria sido ainda um vento tardio do antijudaísmo de Lutero? O jovem Heinrich Marx passou do judaísmo para o protestantismo na cidade católica de Trier, onde se tornou um advogado reconhecido. As famílias de Jenny e Karl tiveram contatos sociais nos círculos esclarecidos de Trier, e foi Ludwig von Westphalen quem introduziu Jenny e Karl nas ideias da Revolução Francesa. Marx dedicou sua tese doutoral ao futuro sogro, Ludwig von Westphalen.

Jenny e Karl se conheciam desde os tempos de colégio. Marx conquistou sua Jenny, que teve muitos pretendentes, com poemas de amor e investiu nessa relação com ela por longos anos e até por um noivado clandestino (1836).

Depois dos estudos de Karl em direito, filosofia, história em Bonn e Berlim, e um doutorado em Jena (1841), e depois de uma rápida passagem por Köln, como redator-chefe do jornal liberal Rheinische Zeitung, Jenny e Karl se casaram no civil e religioso, em 19 de junho de 1843, ela com 29 anos, ele com 25. Tiveram sete filhos, que nasceram em 1844 (Caroline), 1845 (Laura), Edgar (1847), Henry Edward Guy (1849), Francisca (1851), Eleanor (1855), e o último, que morreu logo após seu nascimento, em 1857. Três chegaram à idade adulta. Duas das três filhas sobreviventes, Eleanor (+1889) e Laura (+1911), se suicidaram.

Logo depois do casamento, Jenny e Karl se transferiram para Paris, já que o jornal de Köln, onde Marx trabalhava, estava proibido desde março daquele ano. Em Paris, onde Karl exercia um trabalho jornalístico, nasce Caroline, sua primeira filha. De Paris, datam também as relações com Engels, Bakunin, Heine e muitos outros. Contra os interesses de sua classe social, Friedrich Engels tornou-se o esteio financeiro da família Marx em períodos nos quais faltou comida para os filhos e dinheiro para pagar o aluguel. O brilho intelectual de Marx não resplandeceu em sua situação econômica.

Por intervenção do governo da Prússia, em 25 de janeiro de 1845, o casal foi expulso da França e refugiou-se em Bruxelas. Os governantes nobres da Prússia eram luteranos e antissocialistas. No exílio de Bruxelas, em 26 de setembro de 1845, nasce sua filha Laura e, em 3 de fevereiro de 1847, seu filho Edgar. Em Bruxelas, em 1848, foi publicado o “Manifesto do Partido Comunista”, escrito por Marx e Engels. Na única página do original que ainda existe, as primeiras linhas mostram a letra de Jenny. Em 4 de março de 1848, o “Manifesto” foi a razão da prisão e expulsão de Jenny e Karl de Bruxelas.

Jenny não foi um mero apêndice da fama de seu marido. Ela transformou a letra de Karl, às vezes quase ilegível, num manuscrito publicável e traduziu muitos dos seus textos para o francês, além de dominar o inglês. Várias de suas resenhas do teatro londrino foram publicadas em Frankfurt. Esse tempo de “secretária de Karl”, confessa Jenny, foi o tempo “mais feliz da minha vida”. Sem a compreensão intelectual desses textos ela não poderia ter feito esse trabalho de “tradutora”. A vida cotidiana em pobreza permanente, a ausência do marido por causa de viagens e congressos, sua embriaguez, doenças e a educação dos filhos representaram desafios na convivência familiar de Jenny com seu parceiro. Na Páscoa de 1852 morreu Francisca, por causa de uma bronquite. Na mesma noite, lembra Jenny em sua autobiografia, “nós nos deitamos no chão, as três crianças vivas conosco, chorando pelo anjinho, que frio e pálido descansou ao nosso lado. [...] Foi o tempo da nossa pobreza mais amarga”. Para comprar um caixão, Jenny bateu em muitas portas e foi, finalmente, atendida por um refugiado francês.

Desde sua passagem por Bruxelas, Jenny trouxe da casa de sua família uma empregada doméstica, Helene Demuth, nove anos mais jovem que ela, para ajudar em casa. Helene, que se tornou uma socialista respeitada, acompanhou a família Marx em todas as suas peripécias. Em 23 de junho de 1851, ela teve um filho com Marx, que para preservar a reputação do pai, foi oficiosamente assumido por Engels, de quem também levou o nome: Frederich Lewis Demuth (1851-1929). Freddy foi entregue para pais adotivos, em Londres, logo após seu nascimento, e só depois de 111 anos sua identidade se tornou pública. Wilhelm Liebknecht, que fazia parte do círculo londrino de Marx, resumiu esse acontecimento com a frase lapidar: “Se diz, que diante do seu camareiro ninguém é um grande homem. Diante de Lenchen (Helene), Marx seguramente não foi”. A presença de Helene, depois do nascimento de Freddy, balançou, mas não abalou, o companheirismo e o amor entre Karl e Jenny. Em sua autobiografia, “Contornos de uma vida movimentada”, de 1865, Jenny caracteriza os anos 1851 e 1852 como “os anos das maiores e, ao mesmo tempo, das mais mesquinhas preocupações, tormentos, decepções e privações”. Mas, ainda 15 anos depois do nascimento de Freddy, Karl escreveu a Jenny que estava de visita em Trier, para ver sua mãe no leito da morte: “Quando você está longe, meu amor para com você mostra-se como realmente é, como um gigante [...]. O amor [...] não ao proletariado, mas o amor para com a namorada e particularmente para com você, faz do homem novamente um homem”. Depois de 1851, a relação de Jenny com Karl continua respeitosa, amável, não resignada. Seus ideais e seu amor recíproco eram maiores que seus tropeços humanos. Jenny permaneceu amante da vida e de seu Karl. Já com as marcas da morte no rosto, ela escreveu ao médico Fernando Flecklers, em Carlsbad: “Gostaria de viver mais um pouco, meu querido doutor. É engraçado: quanto mais próximo chegamos ao fim da nossa história, tanto mais a gente fica amarrada neste `vale das lágrimas´” (29.09.1880). Jenny esteve ao lado de Karl até o fim, e Karl ficou profundamente abalado com a sua morte, falecendo um ano e meio depois de Jenny (14.03.1883).

3. Semelhanças e diferenças biográficas

A lealdade ideológica com seus maridos, o companheirismo familiar e a luta corajosa pela sobrevivência econômica aproximam Catarina Lutero e Jenny Marx. Catarina, 16 anos mais jovem que Lutero, já em condições estáveis, teve seis filhos, Jenny, em condições de migrante permanente e quatro anos mais idosa que Karl, teve sete filhos. A morte prematura perpassou as casas de ambas.

Na Igreja reformada, o prestígio de Lutero e a nobreza protestante regional garantiram certo conforto material à vida familiar cotidiana de Catarina e Martinho. Esta já não foi a situação de Jenny. A nobreza na mira do “Capital” de Marx perseguiu o casal desde os primeiros artigos publicados por Karl em Köln. O casal, que optou pela classe operaria, optou também pela pobreza e pela existência de migrantes e imigrantes na própria vida. Dos “lúmpen” do Capital e da comunidade revolucionária Karl e Jenny não esperavam privilégios.

Jenny e Karl se casaram apaixonados e sustentaram essa paixão como amor maduro até o fim de sua vida. O casamento de Catarina com Martinho era, no início, um casamento arranjado para Lutero, pois a Reforma entendia o casamento, não como sacramento, mas como algo que faz parte da criação divina e da vida humana. Porém, o casamento por motivo de coerência, com o próprio pensamento de Lutero, se transformou em estima, reconhecimento e amor incondicional de Martinho e Catarina.

Catarina e Jenny viveram na sombra e nos holofotes de seus maridos. Catarina correu aos braços do homem famoso que anos antes tinha publicado as “Teses”. Jenny acompanhou seu marido antes de escrever o “Capital”, que lhes trouxe austeridade e inimizades. Ambas assumiram e entenderam os axiomas fundamentais dos seus maridos e eram leais seguidoras, mesmo sendo pelas restrições legais da época barradas de frequentar universidades e estudos superiores. Neste ponto, Jenny tinha algumas vantagens, pela casa humanista em que nasceu e pelos amigos que a família e a causa operária juntaram no decorrer das suas fugas pelo mundo. De Catarina, praticamente nenhum escrito foi guardado. De Jenny, dispomos de uma autobiografia e de uma ampla correspondência. As amizades de Lutero eram mais restritas ao campo religioso. Suas máximas em torno da fé, da graça e de Jesus só interessavam aos camponeses e, provavelmente, também à classe operária na medida em que prometiam emancipação da miséria e da fome, além de alguma forma de protagonismo político. Esse já não foi o propósito de Lutero, que teve uma opção interclassista.

Os autores das “Teses” e do “Capital” não eram bons administradores de suas próprias economias e casas. Martinho e Karl deixaram esse papel para suas esposas, o que era mais fácil na casa estável de Lutero com um salário de 100 florins garantidos pela Universidade do que na itinerância e imprevisibilidade de remunerações por textos publicados ou de empréstimos de amigos.

Jenny e Catarina nos mostram que, para não reproduzir os vícios de uma sociedade no interior das grandes causas da humanidade, é preciso ampliar o território dessas causas defendidas, em nosso caso, por Lutero e Marx. Também as causas nobres podem tornar-se apriscos, cercas e muros. Nas reivindicações da fraternidade universal podem-se igualmente reproduzir hierarquias e uma divisão de classe entre “senhores” e “servidores”. Como socializar o gênio de uns com o não menos genial cuidado da sobrevivência do “gênio sacrificial” e serviçal dos outros? De certo modo, de ambos se espera que estejam dispostos a dar a vida pela causa de uma existência digna e emancipada que defendem. A vida emancipada não será o resultado final de uma luta, mas seu acompanhante em cada um de seus passos. A rigor, não é permitido distinguir entre protagonistas de causas e seus servidores ou servidoras. As causas realmente emancipadoras exigem a coincidência entre protagonista e servidor. As Jennies e Caties são as asas dessas causas que não levantam voo sem elas.

4. A Reforma continua, a Revolução mal começou

A Reforma de Lutero não rompeu com o feudalismo medieval nem com certo autoritarismo patriarcal e fundamentalismo bíblico. A consciência do indivíduo como última instância da ação, a reivindicação de direitos subjetivos, a socialização da Bíblia entre letrados e certo cuidado com a educação dos filhos, sejam meninos ou meninas, já carregavam elementos da modernidade e da sociedade burguesa. Ao reconciliar-se com a modernidade, a Igreja católica, hoje, incorporou reivindicações essenciais da Reforma em seu universo institucional. Em todo caso, a Reforma continua.

Para o epitáfio de um memorial imaginário de Catarina e Jenny alguém propôs a seguinte frase: “Sustentaram com sua vida a gratuidade dos bens celestes e a partilha igualitária dos bens terrestres”. Entre a obra de Lutero e a de Marx existe uma afinidade orgânica que se revela na proximidade daqueles seguidores que deram sua vida pelas vítimas dos poderosos e, ao mesmo tempo, perpassa o pensamento de ambos uma linha divisória irredutível, porque uns situam o reino do bem viver exclusivamente na Terra, e os outros apenas seu início, porque consideram que o reino do bem viver, em sua plenitude, não está ao alcance dos humanos. Sabem que a luta pelo paraíso terrestre de todos não vai mais longe que um sonho numa noite de verão ou de um aglomerado de fanáticos.

No epitáfio acima falta algo essencial. Lutero, o reformador do tratado da graça, não previu essa graça para todos. Em seus polêmicos pronunciamentos contra judeus e camponeses mostrou que não abriu mão da penalidade do inferno da igreja nem do poder punitivo e assassino dos príncipes. No dia 1 de fevereiro de 1546, poucas semanas antes de sua morte, Lutero escreve de Eisleben à Catarina, sua esposa, que ele ia cuidar em seus sermões da expulsão dos 50 judeus que ainda sobreviviam em sua cidade natal e no mês de seu casamento com Catarina von Bora se posicionou ao lado dos príncipes contra os camponeses revoltados. O antijudaísmo do reformador, certamente, foi uma herança do seu passado católico e de sua socialização agostiniana.

Quem exclui as categorias “Céu” e “Inferno” do seu discurso sobre a realidade social, como Marx, pode cantar com Heinrich Heine: “O Céu deixamos para os anjos e os pardais”. Mas ele desqualifica o imaginário e a esperança como fatores atuantes sobre a realidade e não se livra do monopólio da punição pelo Estado, mesmo de direito constitucional, que limita o exercício da liberdade e privilegia a classe dos legisladores. A questão da gratuidade dos bens celestes e da partilha igualitária dos bens terrestres para com todos permanece uma questão aberta que nem cadeias, confessionários ou “guerras santas” podem solucionar. Já promessa de justiça e misericórdia divinas sem limites podem atuar em nossas realidades históricas conflitivas não como algo mágico, mas como motor e freio.

No campo religioso, grosso modo, os combatentes de então, hoje abrem mão de suas hostilidades, abraçam seus adversários num ecumenismo emergencial e assumem com reciprocidade piedosa pontos de vista essenciais do outro. A fuga dos rebanhos e a opção pelos pobres, secularização e relativismo, fundamentalismo e integralismo impõem a católicos e evangélicos históricos a sincronização de suas agendas. As “Teses” perderam seus dentes.

No campo sociopolítico, a aproximação entre classe operária e burguesia e/ou elite empresarial e financeira não aconteceu. A Revolução mal começou. Ou começou mal? Impulsionados por interesses comuns, as confissões religiosas históricas se aproximaram, divididos, internamente, por setores populares e interclassistas, enquanto o distanciamento entre as classes sociais cresceu tremendamente. “O Capital” de Marx, apesar da pátina de seus 150 anos, periodicamente ganha atualidade e reaparece como um tubarão nas praias de Acapulco onde interrompe a “alegre irresponsabilidade” (Laudato Si', 59) das elites.

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