Bangladesh. “Recebemos o Papa Francisco com uma imensa alegria. É um líder mundial”. Entrevista com o imã Allamma Majharul Islam

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01 Dezembro 2017

“Sua visita nos honra, porque ele não só é o chefe dos cristãos, mas também é um líder de todos os fiéis”. Assim como todo Bangladesh, o grande khatib (grande guardião) da mesquita de Amber Shah Jami, de Daca, Allamma Majharul Islam, aguarda com muito entusiasmo a visita do Papa. Agradece ao Pontífice, sobretudo, por sua mensagem de paz, e por isso lhe entregará uma fátua contra o extremismo, “assinada por 100.000 imãs”.

AsiaNews se reuniu com o imã na mesquita da qual ele é o guardião, ao entardecer, enquanto os estudantes de sua madraça (escola corânica) recitam as orações islâmicas. Após uma xícara de chá e doces preparados pela esposa do imã, que o acompanha, ele fala da harmonia inter-religiosa, de como construir a paz em Bangladesh e do fundamentalismo islâmico.

Principalmente, ressalta: “O islã não admite nenhuma forma de terrorismo. Como pregador, ensino a meus estudantes que islã quer dizer paz, e a não ofender os sentimentos religiosos de ninguém”.

A reportagem-entrevista é de Cameron Doody, publicada por Religión Digital, 30-11-2017. A tradução é do Cepat.

Eis a entrevista.

Grand Khatib, como receberá o Papa e o que pensa em lhe dizer?

Recebemos o Papa Francisco com uma imensa alegria. Ele é um líder mundial. Vem a um pequeno país islâmico. Sua visita nos honra, porque ele não só é o chefe dos cristãos, mas também é um líder de todos os fiéis. Toda religião carrega consigo uma mensagem de paz, e o Santo Padre a promove de uma maneira conveniente. Serei um dos 500 religiosos islâmicos que se reunirão com o Papa Francisco [durante o encontro inter-religioso e ecumênico pela paz, no dia primeiro de dezembro, nos jardins do arcebispado]. Nessa ocasião, iremos lhe entregar uma carta que contém uma fátua contra a militância islâmica, assinada por 100.000 sacerdotes muçulmanos.

O que espera que o Papa Francisco diga ao se dirigir a vocês, os muçulmanos?

O Santo Padre trará uma mensagem de amor, em particular aos rohingya. E os ajudará a resolver seu problema de refugiados.

Estou certo que sua visita conduzirá a uma rápida resolução da crise [dos refugiados muçulmanos que fugiram de Mianmar e estão acampados em centros improvisados na região de Cox’s Bazar]. Ao mesmo tempo, como líder islâmico, considero que devem retornar a Mianmar, porque eles jamais foram cidadãos de Bangladesh. E, sobretudo, porque cada pessoa tem o direito de viver em seu próprio lugar de origem.

Em sua opinião, como é possível estimular a harmonia e a convivência entre as religiões em Bangladesh? E entre os fiéis muçulmanos xiitas, sunitas e sufis?

Criamos o World Religious Forum (WRF), que reúne líderes religiosos muçulmanos, cristãos, hindus e budistas. Eu sou o coordenador do mesmo. Com este fórum, não queremos somente construir relações de fraternidade entre sunitas e xiitas, mas também entre as demais religiões.

Organizamos programas para o diálogo inter-religioso com aqueles que praticam a verdadeira religião, que é a da paz. O cardeal Patrick D’Rozario [arcebispo de Daca] também faz parte do grupo e está envolvido de maneira direta nas iniciativas. Por nossa grande contribuição à construção da harmonia inter-religiosa, inclusive recebemos numerosas cartas por parte do Vaticano.

Poderia nos dar algum exemplo concreto de convivência e respeito entre as religiões?

Nos últimos anos, no Facebook foram publicados alguns comentários que incitavam a violência religiosa em Cox’s Bazar, ou contra os cristãos de Rangpur, ou que justificavam o homicídio de Sunil Gomes, um católico que foi degolado em Natore. Nós organizamos uma marcha de protesto, da qual participaram 5.000 imãs e fiéis.

Foi a primeira vez que o WRF protestou contra os ataques sectários a fiéis de outras religiões. O programa inter-religioso teve repercussão em todos os meios e recebemos mostras de apreço de muitas partes.

Você de ter ouvido falar a respeito do recente atentado no Sinai, que produziu mais de 300 mortes e tinha como alvo uma mesquita frequentada por sufis. Quais são seus sentimentos a esse respeito?

Quando ouvi a notícia, senti uma dor profunda no coração. Eles são terroristas. Nós somos contra a violência. Estamos sentidos por todas as atrocidades que ocorrem no mundo, não só pelas que atingem os muçulmanos, mas também pelos cristãos, budistas e hindus.

De que maneira é possível garantir a paz e a justiça social em seu país?

Nós trabalhamos para garantir a justiça social, e nisto somos apoiados pelas políticas do governo. Eu defendo que todos devem gozar de seus direitos, inclusive os rohingyia. Também defendemos o desenvolvimento das mulheres e oferecemos ajuda às viúvas.

Para garantir a paz, trabalhamos junto com outros líderes religiosos, de modo que eles gozem da liberdade para pregar segundo os valores de sua religião. E no que diz respeito ao terrorismo islâmico, não há nenhuma religião que permita o conflito e os assassinatos.

E como frear o terrorismo?

Temos que voltar ao começo, partindo da educação.

Nós ensinamos nossos valores nas madraças. Oferecemos aos alunos os verdadeiros ensinamentos do islã. Motivamos os jovens, e lhes dizemos que não há espaço para as armas ou para realizar ataques contra outros fiéis.

Estou orgulhoso de dizer que 90% dos membros do WRF [é formado por] estudantes corânicos. O fundamentalismo neste país deriva de uma educação equivocada. Portanto, devemos estar atentos aos sermões.

Em Bangladesh, há cerca de 300.000 mesquitas, das quais 10.000 estão em Daca. Em minha mesquita, cerca de 8.000 muçulmanos vêm rezar, entre eles, vários ministros do governo. Eu sou assessor do ministro do Interior e tenho a tarefa de controlar as prédicas, para evitar que os imãs deem rédeas aos discursos de ódio.

Se percebemos aqueles que pregam ensinamentos equivocados ou estimulam o extremismo, devemos atuar contra eles.

Só restam os “retoques finais” para a visita do Pontífice a Bangladesh

Assim como o imã Allamma Mjharul Islam, todo Bangladesh está pronto para receber o Papa Francisco, amanhã, na primeira visita de um pontífice ao país, em mais de 20 anos, onde chega após passar por Mianmar em uma viagem marcada pela crise humanitária da comunidade muçulmana rohingya.

“De nossa parte está tudo pronto, só restam os retoques finais”, afirmou, hoje, o padre Kamal Corraya, porta-voz da Conferência Episcopal de Bangladesh e sacerdote responsável pela Igreja do Santo Rosário, que será visitada pelo Papa, no sábado.

Francisco chega a Daca na segunda visita a Bangladesh de um pontífice, desde a independência do país, em 1971, após a do Papa João Paulo II, em 1986.

O Papa começará sua atividade, amanhã, com a parada obrigatória diante do monumento aos mártires da guerra da independência e a visita ao museu do Pai da Nação, Sheikh Mujibur Rahman “Bangabandhu”.

Além disso, presidirá uma missa multitudinária no Parque Suhrawardy Udyan, onde também serão ordenados 16 sacerdotes.

Também está previsto um encontro do Papa com a primeira-ministra, Sheikh Hasina, uma visita a um asilo para sacerdotes anciãos e a participação em um ato inter-religioso e ecumênico pela paz.

No sábado, o Papa visitará a Casa Madre Teresa, que oferece ajuda a deficientes mentais e físicos e conta com cerca de uma centena de camas para os mais necessitados.

Nesse mesmo dia, irá se reunir com sacerdotes e religiosos na Igreja do Santo Rosário e terá um encontro com cerca de 10.000 jovens na Universidade Notre Dame, em Daca, como último ato antes de retornar a Roma.

A Igreja do Santo Rosário aperfeiçoava, hoje, os detalhes para esses atos.

Situada em um pequeno complexo no sul da movimentada Daca, compartilha espaço entre altos muros e fortes medidas de segurança com outros lugares onde o Pontífice estará em seu último dia em Bangladesh: o cemitério da Paróquia e a Casa Madre Teresa.

Enquanto alguns operários se ocupavam em pintar os vasos, outros esfregavam com insistência o chão e as travessas, ao mesmo tempo em que um grupo mais numeroso instalava um arco de madeira em frente à porta principal do colorido templo azul e branco.

O único lugar em silêncio, hermético, era a Casa Madre Teresa, fechada a estranhos e na qual só alguns trabalhadores atravessavam seu portão laranja de maneira esporádica.

Fora, junto ao portal, enxergava-se duas imagens gigantes de Francisco e Santa Teresa de Calcutá escoltadas por vários policiais.

“Temos um forte quadro de segurança pela visita do Papa, não tememos nenhum tipo de ataque, seja do Estado Islâmico ou de outro grupo jihadista”, explicou o oficial da Polícia, encarregado pela segurança na região e ele mesmo católico.

“Estamos muito orgulhosos de que Sua Santidade o Papa venha a Bangladesh”, assegurou exultante.

A minoria católica, formada por cerca de 450.000 membros, em um país de 160 milhões de habitantes, no qual 88% deles são muçulmanos, não costuma ter oportunidades como esta para exteriorizar sua religião.

“Este é um país muçulmano no qual todos vivemos juntos em harmonia, razão pela qual não queremos causar nenhum tipo de problema”, explicou o padre Corraya sobre a discrição obrigatória dos católicos em Bangladesh, relegados ao âmbito privado para evangelizar.

Nas ocupadas ruas de Daca, onde dominam os cartazes da onipresente primeira-ministra Hasina e de seu pai, “Bangabandhu”, o Papa não está presente.

Mohamed Nur Islam, que locomove um táxi de três rodas auto-rickshaw, responde com um “não” após outro as perguntas a respeito de quem é o Papa ou o motivo da movimentação na porta do Parque Suhrawardy Udyan.

Um vendedor de comida, Akkas Miah, com a característica barba longa maometana, responde que acaba de se inteirar da visita.

“Ouvi nesta manhã. Será bom se puder ajudar a resolver o problema na fronteira com Mianmar”, sentencia.

“Se disser algo sobre o tema rohingya, será de muita ajuda para nós”, conclui o advogado Arifur Rahman.

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