O Senhor quer se manifestar. Coragem para reconhecer a autoridade e estabelecer processos de reforma. Artigo de Andrea Grillo

Foto: Reprodução | Vatican Media

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10 Outubro 2026

O paradoxo da Igreja cristã é ser, sem dúvida, a mais absoluta das monarquias.

O artigo é de Andrea Grillo, teólogo italiano, publicado no blog Come se non, 08-10-2026.

Eis o artigo.

O paradoxo da Igreja cristã é ser, sem dúvida, a mais absoluta das monarquias. Na Igreja, um só é o titular de toda autoridade: o Senhor morto e ressuscitado, que está sentado à direita do Pai. Na Igreja Católica, de modo particularmente paradoxal, o bispo de Roma, enquanto papa – que facilmente pode ser confundido com um soberano, de quem ainda parece trazer as insígnias –, não é senão o “servus servorum Dei”, instrumento menor e pequeno, ajoelhado aos pés do Senhor. Essa imagem, que Paulo VI deixou-se inspirar pelo mosaico de São Paulo Fora dos Muros, pode ser utilmente pressuposta ao discurso que parece mais oportuno diante de dois documentos, que temos à disposição há alguns dias e que marcam, a meu ver, um certo desenvolvimento no modo de considerar a autoridade no interior da Igreja Católica.

Dois textos e duas operações

Os dois textos a que me refiro são, respectivamente, a conclusão do trabalho do grupo sinodal dos “canonistas”, com o respectivo documento, e o discurso de abertura da reflexão eclesial desejada pelo papa Leão, a dez anos da Amoris Laetitia. Podemos defini-los como a consideração global de lege por parte de um documento fruto do Sínodo 2021-2024 e como o aniversário decenal do fruto magisterial obtido no duplo sínodo sobre a família 2014-2015.

Quando um documento coloca em programa, em um amplo arco temporal, toda uma reforma do Código de Direito Canônico (CIC), e quando um papa abre um encontro convidando a reconhecer a autoridade das famílias, algo importante começa a acontecer. Com certeza, a estação sinodal, que o papa Francisco reestruturou profundamente e relançou, começa a produzir não só projetos de reforma, mas metarreflexões sobre as aprendizagens institucionais já adquiridas.

Em tudo isso, parece-me, o cerne da questão consiste na lenta elaboração de um novo modo de exercer a autoridade, que deriva, essencialmente, de uma nova capacidade, ainda embrionária, mas objetiva, de reconhecer autoridade.

Em ambos os casos, quero dizer, tanto da parte do documento dos canonistas quanto na introdução aos trabalhos dos dez anos da Amoris Laetitia, mostra-se em primeiro plano uma dupla exigência:

a) a coragem de modificar as formas institucionais de gestão da autoridade;

b) a consciência de que novas formas de autoridade devem ser reconhecidas.

Os dois pontos estão claramente correlacionados, mas também devem ser nitidamente distintos. De um lado, com efeito, é preciso preparar “normas institucionais” que permitam o reconhecimento de novas autoridades, irredutíveis às formas clássicas com que a Igreja Católica exerceu o poder. De outro, essas “novas normas” não se justificam por si mesmas, mas existem apenas em função de “novas formas de autoridade” que se manifestam no corpo eclesial e que, por ora, não são institucionalmente reconhecidas, a não ser episodicamente, de modo rapsódico, contingente e por vezes arbitrário.

A resistência ao Sínodo (e à Amoris Laetitia) como recusa da autoridade histórica

Obviamente, esse duplo nível da questão pode ser facilmente subestimado por completo. Quem contrapõe ao Sínodo a oração, ou a vida santa, ou a tradição imutável, não capta de modo algum a exigência de um “trabalho sinodal”, porque considera que a única autoridade que conta, a do Senhor Jesus, está suficientemente garantida e guardada, contra o mundo cínico e trapaceiro, pelo arranjo tridentino que a Igreja Católica assumiu no século XVI. Papa, cardeais, congregações e bispos com poder de jurisdição – dizem esses sujeitos – poderiam gerir tudo brilhantemente, se não se perdessem em conversa fiada.

Para contrastar essa leitura redutiva, e substancialmente lefebvriana, mesmo sem necessidade de gritar cisma, é preciso recomeçar do Concílio Vaticano II e de sua “índole pastoral”. E parece-me que tanto o Sínodo dos Bispos quanto as palavras do papa Leão XIV continuam a se inspirar, com visão de futuro, justamente no Vaticano II. Todos aqueles que olham com desdém para a instituição sinodal concebem de fato a Igreja como uma pirâmide sem possibilidade, não digo de inversão, mas de correlação interna da autoridade.

Os dois textos que consideramos, ao contrário, movem-se, ainda que com passo diferenciado, na direção de uma “conversão do exercício da autoridade em vista do reconhecimento de novas autoridades”. Esta é uma forma de “aprendizagem eclesial” da qual alguns nem sequer querem ouvir falar.

O horizonte nítido traçado pela Amoris Laetitia

Esse movimento de aprendizagem, que une reconhecimento e reforma canônica, tornou-se oficial com os primeiros números da Amoris Laetitia, nos quais se diz, com uma simplicidade quase desarmante, que o magistério não deve resolver todos os problemas e deve, ao contrário, reconhecer que há “outras autoridades” competentes. Isso, quando afirmado sobre um dos temas (matrimônio e família) em que o magistério, nos últimos 200 anos, assumiu uma postura de “resistência na autoridade” quase totalizante (para não dizer totalitária), significa que uma mudança de paradigma está em curso.

A exigência de “escutar”, que qualificou o estilo sinodal, mostra bem o ponto decisivo: outras autoridades devem não só tomar a palavra, mas ter reconhecido um poder. Naqueles primeiros números da AL, em que ao reconhecimento do novo se acompanhava, como é inevitável, a crítica do velho em termos de autocrítica (como sempre acontece, ao lado da redescoberta de uma tradição sadia a relançar é preciso acertar contas com uma tradição doente a superar), colocavam-se as premissas para um desenvolvimento que o texto se limitava a inaugurar, sem desenvolvê-lo. Por outro lado, a própria lógica da AL previa isso: quando o magistério reconhece que não deve “resolver tudo”, então chama necessariamente à cena algo distinto de si, do qual a tradição tem pouca experiência e pouca familiaridade. Entra-se no campo de uma “lex condenda” que não é redutível à “lex condita”.

O desenvolvimento institucional como forma adquirida do reconhecimento de autoridade

Se na família descobrimos a autoridade dos sujeitos envolvidos, com suas alegrias e suas dores; se na Igreja reconhecemos que as mulheres são dotadas, exatamente como os homens, de todos os munera de Cristo (o profético, o régio, mas também o sacerdotal), então o ato de aprendizagem dessas realidades dotadas de autoridade não pode ser escrito em uma pequena nota de rodapé nem passar, institucionalmente, apenas por uma interpretação mais ampla de um cânone secundário. Em outras palavras, o reconhecimento de autoridade, que certamente já está em curso e que está mudando a Igreja de modo consistente, pede um reconhecimento formal.

Se a reconciliação das famílias feridas não é mais questão de “excomunhão”, a coisa não deve ficar apenas no segredo do confessionário, mas deve poder ser dita dos telhados das casas: sem um ordenamento jurídico que a reconheça, toda nova união permanece, formaliter, uma forma de vida clandestina. Por outro lado, se às mulheres se reconhece uma autoridade, pensar que toda a sua autoridade possa ser comprimida na velha categoria de potestas iurisdictionis e não possa de modo algum dizer respeito à potestas ordinis significa permanecer fechado em um sistema paternalista e nada pouco patriarcal, em que aos homens o poder é atribuído por necessidade e por lei, enquanto às mulheres é referido apenas por eventualidade ou por privilégio.

Por isso me parece importante ler, nos dois documentos recém-publicados, a intenção de reconhecer novas formas de autoridade e de adequar a lei a esse importante reconhecimento. As duas passagens são decisivas. De um lado, um ato de reconhecimento eclesial, teológico e pastoral: a admissão de uma aprendizagem eclesial, necessária e preciosa, que compromete a todos; de outro, a tradução institucional do reconhecimento, sua transcrição formal em norma objetiva, para que se torne não só uma profecia isolada, mas um costume fundado e uma tradição compartilhada.

A questão central permanece: de que modo a autoridade de Cristo, que realiza o reino de Deus, não se deixa encerrar em arranjos de poder fixos, mas pede sempre novos reconhecimentos de autoridade, nos quais ele mesmo, justamente o Senhor, misteriosamente, se torna presente “sob outra espécie”, na força da fraqueza, na centralidade da periferia e na riqueza da pobreza?

Bate à porta da casa eclesial o Senhor, porque quer sair: assim disse o papa Francisco, no dia anterior à sua eleição, quando ainda era o cardeal de Buenos Aires. Estamos oferecendo a essa saída da Igreja de sua repetição autorreferencial de si mesma as razões e os meios, a doutrina e o direito: a continuidade com a imaginação profética surgida como um relâmpago em março de 2013 não é pequena nem indolor.

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