100 anos de Lutzenberger: o defensor incansável da Ecologia

José Lutzenberger, filósofo, ambientalista e agrônomo alemão-brasileiro. (Foto: Right Livelihood Award Foundation Archive/Wikimedia Commons)

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08 Outubro 2026

"No ano de seus 100 anos, estão ocorrendo muitas homenagens, palestras, eventos, exposições, vídeos, artigos e livros. Lutz dizia que, após sua morte, queria voltar de tempos em tempos para saber como estaria a questão ambiental. Creio que a maior homenagem que se poderia lhe oferecer, em um desses seus retornos, seria a regeneração dos ecossistemas de sua querida Gaia", escreve Elenita Malta Pereira, doutora em História, em artigo publicado por Extra Classe, 07-10-2026.

Elenita Malta Pereira é graduada, mestre e doutora em História pela História pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Psquisadora da Universidade Federal de Rondonópolis (UFR) e coordenadora do canal Lutz Global no YouTube, projeto de história pública e divulgação científica em história ambiental, que recebeu o Selo do Fórum Saberes Históricos da Associação Nacional de História (ANPUH). 

Eis o artigo.

Quando um jovem engenheiro agrônomo se desgostou com seu emprego de executivo bem pago em uma multinacional agroquímica e resolveu largar tudo para defender a natureza, o mundo passava pelo boom da ecologia.

Na virada dos anos 1960-1970, hippies, artistas e militantes chamavam a atenção do mundo para a poluição industrial, o envenenamento dos nossos corpos e a ameaça nuclear.

A trajetória

Em 2026, José Lutzenberger completaria 100 anos. Nascido em 17 de dezembro de 1926, em Porto Alegre, Rio Grande do Sul, José Lutzenberger era filho do arquiteto e artista plástico alemão Joseph Franz Seraph Lutzenberger (1882-1951) e da descendente de alemães Maria Emma Elsa Kroeff (1893-1969).

Foi alfabetizado em alemão e português, de acordo com a tradição de muitas famílias de ascendência alemã no estado. Na escola, estudou também inglês, francês e espanhol. Dominar cinco línguas possibilitou que se mantivesse atualizado e capaz de acessar uma gama enorme de conhecimentos.

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Formou-se engenheiro agrônomo na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Ufrgs) em 1950, antes do direcionamento da agricultura para os métodos da Revolução Verde.

Mas o que destacou a figura de Lutzenberger foi sua atuação ambientalista, primeiro como presidente da Associação Gaúcha de Proteção ao Ambiente Natural (Agapan) e, depois, como defensor da Ecologia reconhecido internacionalmente.

Lutzenberger passou por uma virada que redefiniu sua trajetória. Após a formatura, trabalhou por quatro anos em uma empresa de adubos e, na sequência, na multinacional agroquímica alemã Basf (entre 1957-1970).

Os 13 anos na multinacional permitiram viagens, estudos e uma estabilidade financeira, porém a empresa começou a trabalhar com agrotóxicos, o que o colocou em um dilema existencial.

Sentindo-se “prostituído” – como afirmou várias vezes –, deixou a Basf e voltou para o Brasil para contribuir na fundação da Agapan, em 1971. Foi o primeiro presidente da entidade, liderando lutas pela poda correta das árvores, contra a poluição industrial e o uso de agrotóxicos.

Contra os agrotóxicos e a favor da Amazônia

Em um contexto de expansão da agricultura dita moderna – monocultivos com uso de fertilizantes químicos, agrotóxicos, maquinário e irrigação –, Lutzenberger tornou-se um dos principais nomes a difundir as consequências nefastas desse modelo para o meio ambiente e a saúde humana, e, ao mesmo tempo, a defender a agricultura regenerativa e ecológica como alternativa capaz de alimentar o mundo de forma saudável e sustentável.

Nessa luta, teve como aliados os jovens Sebastião Pinheiro e Jacques Saldanha, para os quais Lutzenberger se tornou mentor e mestre. Ambos foram profundamente impactados por suas ideias: Sebastião redirecionou o tema de seu trabalho de conclusão de Pós-Graduação em Engenharia Florestal e Jacques mudou de faculdade (trocou o Direito pela Agronomia).

Sebastião se encantou com seu “raciocínio muito lógico. Como engenheiro, falava de forma fascinante sobre a natureza e a defesa do meio ambiente, a natureza e a ganância da sociedade moderna antes e depois da Segunda Guerra Mundial”.

Para Jacques, Lutzenberger “sempre foi o aríete contra a ignorância e o descaramento da agricultura química, que somente ele sabia enfrentar”. O trio liderado por Lutz, como era conhecido, combateu a “máfia dos agrotóxicos” nos anos 1980 e foi muito atuante na luta pela publicação da lei gaúcha dos agrotóxicos, em 1982, a primeira do país.

Lutzenberger se engajou na defesa da Floresta Amazônica, criticando o modelo de ocupação e os megaprojetos implementados pelos governos militares (1964-85), os quais tratavam a floresta como um “vazio demográfico”.

Ele também denunciou a contrarreforma agrária na Amazônia, que atraiu agricultores sem-terra do Sul, Sudeste e Nordeste, com a intenção explícita de derrubar a floresta. Além disso, Lutz depôs no Congresso dos EUA, ao lado de organizações indígenas e de ribeirinhos, denunciando a devastação provocada por projetos financiados pelo Banco Mundial.

MINISTRO – Em reconhecimento por sua atuação contra a devastação da Amazônia e em favor da agricultura ecológica, recebeu o Livelihood Award, ou Prêmio Nobel Alternativo, na Suécia, em 1988.

O prestígio internacional alcançado fez com que fosse convidado por Fernando Collor para ocupar o cargo de Secretário Nacional do Meio Ambiente, entre 1990-92.

Ele sempre dizia que foi muito difícil lidar com a política do posto, equivalente a ministro, porém conseguiu resultados positivos: a redução no desmatamento da Amazônia, o encerramento do programa nuclear brasileiro na Serra do Cachimbo e a demarcação da Terra Indígena Yanomami, a maior do país.

Saiu do governo antes da Rio-92, mas participou em eventos, como uma mesa sobre educação ambiental, ao lado de Paulo Freire.

“Somente quando nossa ética se estender à Ecosfera como um todo, passaremos a comportar-nos de maneira compatível com a sobrevivência”. (José Lutzenberger, 1974).

Gaia e o legado de Lutzenberger

Lutzenberger conciliava teoria e prática de forma holística e não convencional: ele não se contentava em apontar problemas; preocupava-se também em oferecer soluções. Ao conhecer a Teoria de Gaia, formulada por James Lovelock e Lynn Margulis, tornou-se seu principal divulgador no Brasil.

Porém, mais do que isso, materializou os princípios da Teoria em locais como o Parque da Guarita, em Torres, e a Fundação Gaia, em Pantano Grande, onde até hoje a família preserva seu legado, promovendo atividades de educação ambiental e agricultura regenerativa.

Para sua filha primogênita, Lilly Lutzenberger, o maior diferencial de seu pai como ecologista “era a capacidade de estabelecer relações importantes entre acontecimentos aparentemente desconexos. Seu olhar era sempre abrangente, interligado, holístico, universal, o que lhe permitia alcançar um entendimento profundo dos problemas, além de vislumbrar soluções criativas e altamente sustentáveis”. Lara Lutzenberger, a caçula, destaca que a postura de seu pai era “combativa, mas também construtiva, foi um exemplo de compromisso pela busca verdadeira de enfrentamento resolutivo dos imensos desafios ambientais, sociais e humanos que ele percebeu escalonarem perigosamente a partir de meados do século passado”.

Foram muitas pessoas impactadas por Lutzenberger. Para a ex-companheira de Lutz, Elisabeth Renck, “a metáfora de um farol traduz o que Lutz significou. Iluminava com sua sabedoria pessoas a mudarem sua rota, avisava aos ‘navegantes audaciosos’ dos perigos de suas jornadas ao naufrágio. Era uma luz que clareava com falas e atitudes os efeitos da voracidade humana sobre nosso planeta finito”.

No ano de seus 100 anos, estão ocorrendo muitas homenagens, palestras, eventos, exposições, vídeos, artigos e livros. Lutz dizia que, após sua morte, queria voltar de tempos em tempos para saber como estaria a questão ambiental. Creio que a maior homenagem que se poderia lhe oferecer, em um desses seus retornos, seria a regeneração dos ecossistemas de sua querida Gaia.

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