08 Outubro 2026
“É o início de uma nova tradição política”. Foi assim que, em 2022, o deputado estadual Matheus Gomes (PSOL) definiu a vitória de três candidaturas negras à Assembleia Legislativa do Rio Grande do Sul (ALRS) em entrevista ao Sul21.
A reportagem é de Lucas Azeredo, publicada em Sul21, em 07-10-2026.
Único reeleito da Bancada Negra, deputado estadual fala sobre as perspectivas na Assembleia e o desafio de eleger Lula no 2º turno.
“É o início de uma nova tradição política”. Foi assim que, em 2022, o deputado estadual Matheus Gomes (PSOL) definiu a vitória de três candidaturas negras à Assembleia Legislativa do Rio Grande do Sul (ALRS) em entrevista ao Sul21. Naquele pleito foi formada a primeira Bancada Negra da história do parlamento gaúcho, além de terem sido eleitas as primeiras mulheres negras para a ALRS. Entretanto, quatro anos depois, essa bancada foi reduzida a duas pessoas e, a partir de 2027, estará cercada por colegas ainda mais conservadores.
No domingo (4), Karen Santos e Matheus Gomes, ambos do PSOL, foram as únicas candidaturas pretas à Assembleia Legislativa que se saíram vitoriosas. Portanto, a Bancada Negra perde uma cadeira representativa, com a deputada estadual Bruna Rodrigues (PSB) não conseguindo os votos para se reeleger. Já Laura Sito (PT), que poderia buscar a reeleição à ALRS, tentou uma vaga na Câmara de Deputados, mas também ficou de fora.
Para Matheus Gomes, manter a Bancada Negra presente no parlamento, onde ele entende que será a “arena central” de disputa do jogo político, é sinal do apoio dado pelo eleitorado às lideranças negras gaúchas do campo da esquerda. “A luta pela construção dessa nova tradição política no estado do Rio Grande do Sul, a partir do povo negro e das periferias, continua”, ressalta Gomes, em entrevista ao Sul21.
“Eu acredito que a gente demonstrar um sentido de continuidade e de resiliência vai ser fundamental para um projeto político novo que a esquerda tem que ter”, diz o deputado.
Sobre a perda de espaço dos partidos de esquerda e o avanço da direita radical, Gomes reitera que “a Bancada Negra continua”. “A gente segue tendo representação no Congresso Nacional, com a eleição da Daiana Santos (PCdoB) e da Denise Pessoa (PT). E nós mantemos o espaço da Assembleia Legislativa, comigo e a Karen Santos”, observa Matheus.
“Infelizmente, a deputada Laura [Sito] tentou ir para o Congresso Nacional, fez uma votação muito expressiva com quase 80 mil votos – mais do que o dobro que ela tinha feito quando virou deputada estadual –, no entanto, não entrou. E a Bruninha [Rodrigues] também não se reelegeu, obviamente a gente lamenta”, afirma.
Contudo, Matheus e a Bancada Negra puderam celebrar outro marco além da continuidade da representação negra na ALRS. O deputado estadual se tornou o primeiro homem negro reeleito ao parlamento gaúcho em 24 anos. O último havia sido Edson Portilho (PT), eleito em 1998 e reeleito em 2002, reverenciado por Matheus durante a entrevista.
No cenário nacional, o deputado gaúcho chama a atenção para outras novas lideranças eleitas pela esquerda brasileira. Ele observa como muitas delas são jovens, negras ou mulheres.
Em Minas Gerais, Ana Elisa Santos Silva (PT), de apenas 21 anos, foi eleita deputada federal apostando na comunicação por redes sociais e na defesa de causas como o feminismo e a luta contra o racismo. Em São Paulo, Guilherme Cortez (PSOL), de 28 anos, fez 275 mil votos para ser eleito ao Congresso Nacional.
O resultado das urnas, entretanto, também estabeleceu um “cenário preocupante”, como define Matheus Gomes. “O estado do Rio Grande do Sul não fugiu de uma situação geral do país, que foi um giro à extrema-direita, ao conservadorismo. Aqui, especialmente, nós vimos um sentimento de mudança, uma inquietação da população gaúcha”, avalia.
“Nós já tínhamos na Assembleia Legislativa um grau de alinhamento com o governador Eduardo Leite. Agora, a tendência é que a gente tenha isso: um grau de alinhamento do Zucco com uma maioria na Assembleia Legislativa”, ressalta Gomes.
“É preocupante porque isso coloca o Legislativo numa posição em que, se a gente não tiver mobilização popular para conseguir enfrentar o projeto do Zucco, eles podem ter condições de fazer essa combinação entre Executivo e Legislativo”, pondera.
Questionado sobre sua atuação, Matheus explica que, neste momento, irá estudar as medidas da futura gestão Zucco, desde a transição, para “conseguir comunicar à sociedade o que o governo está fazendo”. Afirmou ainda que já conversou com sua colega de Bancada Negra, Karen Santos, para alinharem os trabalhos na Assembleia.
“A primeira grande tarefa que nós temos é organizar a luta da comunidade negra, das periferias e da população no processo eleitoral do segundo turno”, destaca Gomes.
Dificuldades em 2026
O domingo de eleições foi de resultados negativos para a esquerda gaúcha – apesar de Matheus Gomes entender que o grande derrotado foi o governador Eduardo Leite (PSD), que, após oito anos de gestão, não garantiu a seu sucessor nem 10% dos votos –, com derrotas em todas as esferas. Ao final da noite, a direita radical tinha vencido a disputa pelo Piratini, as duas cadeiras do Senado e eleito 27 deputados estaduais da coligação partidária liderada por Zucco, faltando apenas um para ter a maioria.
Para Matheus, as conquistas da direita radical são reflexo de uma demanda por mudanças, que a esquerda gaúcha não conseguiu usar a seu favor. “Quem conseguiu capturar isso de maneira mais efetiva foi a extrema-direita e não nós, que construímos uma aliança inédita e infelizmente não conseguiu acumular força o suficiente para ir até o segundo turno”, avalia Gomes.
“Existia uma margem de um eleitorado de esquerda e de centro que nós poderíamos ter disputado, e que, infelizmente, o Zucco capturou”, comenta. “Nós podemos viver uma situação que a gente nunca viveu de um governo liderado por uma pessoa altamente autoritária”.
Para além da dificuldade em suprir a demanda por mudanças no Estado, Gomes aponta uma demora para definir as candidaturas no campo progressista. Foi apenas no dia 9 de abril que Edegar Pretto (PT) anunciou sua desistência de disputar o Piratini e confirmou a aliança em torno de Juliana Brizola (PDT).
Ainda demorou quase duas semanas para o PSOL formalizar seu apoio crítico à candidatura da frente ampla com Brizola liderando a chapa. “A própria forma de escolha das candidaturas e de definições políticas da esquerda tem demorado muito”, entende Matheus.
“Se tem um elemento que eu acho que poderia ter nos ajudado a construir um segundo turno no estado do Rio Grande do Sul é nós já termos definido a nossa unidade com a centro-esquerda e com os setores mais amplos da sociedade gaúcha um tempo antes. A gente deveria ter construído essa unidade já desde o ano passado. A extrema-direita tinha todas as suas candidaturas definidas há mais de um ano e meio antes da eleição”, comenta o deputado.
“Nós fomos fazer isso aos 45 do segundo tempo”, lamenta Gomes.
O debate sobre o que mudar na estratégia da esquerda, por ora, se torna secundário. O foco está em reverter o que parece ser uma vitória de Flávio Bolsonaro (PL) no segundo turno, marcado para o dia 25 de outubro. Para tanto, o PSOL gaúcho convocou uma plenária nesta quarta-feira (7), às 18h30min, no Largo Zumbi dos Palmares em Porto Alegre, buscando ampliar a votação de Lula (PT) no Estado.
“Obviamente, é um resultado ruim, que nós vamos ter que agora trabalhar muito para conseguir reverter. Primeiramente no âmbito do segundo turno, batalhando por uma vitória do presidente Lula, e nos próximos anos também buscando uma conexão mais efetiva do nosso campo como um todo com a população do Rio Grande do Sul”, reitera Matheus Gomes.
Qual o futuro da esquerda no RS?
Mesmo que o objeto atual seja a vitória de Lula, o debate sobre o futuro da esquerda no Rio Grande do Sul é inerente ao momento vivido pelo Estado e inevitável. Matheus entende que essa é a oportunidade para novas lideranças surgirem e provocarem mudanças contundentes.
“Nós não podemos ter uma esquerda que olhe para o retrovisor. Nós temos que ter uma esquerda que consiga olhar para o futuro do Rio Grande do Sul, e isso passa por novas lideranças que estão conectadas com as periferias, com as mulheres, com o povo negro e também pelo debate de temas que são estratégicos para o desenvolvimento do Estado”, afirma o deputado estadual.
Na avaliação de Matheus, o caminho para o fortalecimento do campo progressista passa pela inovação, que entende que vem esbarrando nas atuais estruturas partidárias, ainda “avessas às novidades”. “Na minha opinião, reflete essa dificuldade das direções partidárias de se conectar com esse sentimento de mudança que estava latente [nestas eleições]”, comenta.
O primeiro passo, conforme aponta o deputado estadual, é entender que “não adianta ficar olhando para trás”, uma vez que a sociedade vive intensas transformações a todo tempo. “[Olhar para trás] Faz com que nós sejamos vistos por uma parte da sociedade como aqueles que estão querendo manter o sistema e o status quo”, opina Gomes.
“Nós temos que construir um futuro e isso vai nos exigir coragem, porque o Rio Grande do Sul não está desconectado da realidade do Brasil e do mundo. E quando a gente olha para o lado, nós estamos vendo grandes transformações acontecendo ao mesmo tempo”, frisa o deputado psolista.
“Acho que tem um caminho”, salienta Matheus, sobre o refortalecimento do seu campo político. “Um projeto de futuro é a radicalidade. Num mundo em crise, são coisas que são indissociáveis”.
Para Matheus Gomes, as eleições municipais são o espaço onde a esquerda tem a maior condição de fomentar novas lideranças. Entretanto, o deputado estadual considera “um erro” e “uma afobação” querer discutir 2028 agora.
“Nós temos o segundo turno pela frente. Esse é o centro agora. Eu não sei se vai ter 2028 se o resultado das urnas dia 25 de outubro for a favor da família Bolsonaro”, reitera.
“Nós temos que nos preocupar com o segundo turno porque isso vai definir toda a nossa estratégia da próxima década, inclusive. Não é nem só 2028”, comenta Matheus.
E a estratégia, qual será? Para o deputado estadual, deverá ser provocar mudanças e dar respostas à população sobre os temas que constroem uma nova perspectiva de futuro. “A esquerda sempre foi o elemento que impulsionou as maiores transformações que o Brasil e o mundo já viveram. Nós temos que retomar essa perspectiva”, conclui Matheus Gomes.
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