Sociólogo analisa a conjuntura eleitoral e os possíveis desfechos da eleição de domingo. “Diria que hoje, para sermos mais conservadores na análise, os dois vão para o segundo turno com um viés de alta para o Lula”
O rumo das eleições no país é incerto, especialmente no fim da corrida eleitoral, em que o centro da discussão política girou em torno de um símbolo de fé: Nossa Senhora Aparecida, a padroeira do Brasil. Recentemente, as redes sociais trouxeram à tona um antigo projeto de lei para destituí-la do cargo, associando tal ato à extrema-direita e ao clã Bolsonaro.
Em entrevista, concedida por videochamada ao Instituto Humanitas Unisinos – IHU, o sociólogo Rudá Ricci afirma que “as situações que acontecem próximo da eleição são muito difíceis de contornar” e “de todas as notícias e ações” dos últimos dias, “a que mais abalou a mobilidade do eleitor que não estava seguro em quem votar foi o ataque à Nossa Senhora”. Além disso, destaca o entrevistado, na reta final do primeiro turno das eleições, “as redes estão entregando mais vídeos e mensagens da direita e da extrema-direita e cancelando ou diminuindo, através da manipulação de algoritmo, a entrega de vídeos e mensagens mais progressistas ou lulistas”.
A seguir, o pesquisador analisa o comportamento da extrema-direita e da esquerda no país à luz das mudanças sociais e econômicas ocorridas nas periferias brasileiras na última década. “Esses brasileiros”, assegura, “não se identificam nem com o lulismo nem com o bolsonarismo, mas adotam uma postura pragmática. Na comparação, consideram que Lula talvez seja capaz de melhorar as condições de vida deles. Mas também não é uma convicção muito grande”.

Rudá Ricci (Foto: Ricardo Machado | IHU)
Rudá Ricci possui graduação em Ciências Sociais pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (1984), mestrado em Ciência Política pela Universidade Estadual de Campinas (1992) e doutorado em Ciências Sociais pela Universidade Estadual de Campinas (2002). É presidente do Instituto Cultiva, consultor do Sindireceita, Sinesp, SindUTE e ATENs. Autor de Terra de ninguém (Unicamp), Lulismo (Contraponto), Nas ruas: a nova política que emergiu em junho de 2013 (Letramento), Os desafios do educador (Letramento), Conservadorismo político em Minas Gerais (Letramento), entre outros. Foi condecorado com a Medalha Grande Mérito Educacional de Minas Gerais. Ex-consultor da ONU.
IHU – Como o senhor tem analisado o cenário eleitoral nesta semana de véspera das eleições? O resultado para presidente pode sair no primeiro turno?
Rudá Ricci – Isso está alinhado ao perfil de cada candidato. Vou explicar por quê. Flávio Bolsonaro não tem experiência nenhuma no Executivo, então não tem como julgá-lo pelo que ele fez. A única coisa que dá para julgar é o que ele diz. Acontece que ele diz e se desdiz o tempo inteiro. Portanto, não tenho uma leitura racional do que ele pensa, porque ele muda de opinião muito rapidamente.
Flávio está sendo avaliado pelo quê? Pelo menos por duas grandes linhas. A primeira é que ele é filho do Jair Bolsonaro. Quem concorda, portanto, com essa ala da política é uma pessoa que, no mínimo, não concorda em nada com a social-democracia ou com o discurso da esquerda. São pessoas mais conservadoras ou ultraliberais. Isso inclui gente, por exemplo, do Renan Santos, que são libertarianos. É uma corrente específica, ultraliberal, dos Estados Unidos, com mais de um século de existência. Esse é a primeiro bloco.
O segundo bloco é formado por um grupo que ficou muito impactado com as denúncias de corrupção. Nesse momento, as denúncias de corrupção envolvendo Flávio Bolsonaro farão com que um terço do eleitorado dele migre. Portanto, estamos falando de algo entre 5% e 7% do eleitorado total. Ele está girando em torno de 30%. O que não se sabe é se eles vão se abster ou não.
Do outro lado, Lula parece ter batido no teto neste primeiro turno. No segundo turno, é meio que normal que ele aumente os votos válidos porque, entre outras coisas, aumenta a abstenção. Lula tem o eleitorado mais fiel e cativo de todos os candidatos. Mais de 80% dos eleitores do Lula dizem que vão seguir votando no então presidente. Daí a noção que nós estamos tendo de que ele bateu no teto. Dito isso, temos, portanto, Flávio Bolsonaro também com um índice altíssimo de fidelidade, porém a franja dele é maior do que a de Lula. Algo em torno de 25% do total de votos, segundo a pesquisa do Datafolha e da Quaest, são aqueles que dizem que podem mudar o voto. Esse pessoal é que está, em parte, migrando neste momento.
Pelas pesquisas de ontem, teremos segundo turno com Lula à frente de Flávio. Tenho a impressão que a diferença se reduzirá a algo próximo a 1%. Neste caso, as pesquisas não conseguirão ter nenhuma precisão porque a margem de erro é sempre igual ou superior a 2%.
A questão é: Flávio bateu no teto? No caso do Lula, está mais claro que parece que ele bateu no teto. Também tem os candidatos nanicos, que têm algo em torno de 5% das intenções de voto, para baixo. Essas pessoas, segundo os dados sobre a intenção de voto caso o seu candidato não vá para o segundo turno, dão mais ou menos 6% do total desses votos para Flávio e 3% para Lula, com saldo positivo para Flávio de 3 pontos percentuais, numa aproximação para o segundo turno. Se Lula mantém o que tem e o Flávio mantém originalmente o que tem, com mais 3%, Lula ganha. Mesmo assim, o petista ganha com 1,5 milhão de votos, portanto, 1%. Isso segundo os dados que temos até agora. Esse não é um dado científico; é uma aproximação estatística.
As campanhas ao senado, desde 2018, parecem menos rastreáveis. Ocorre que aconteceu o mesmo, aqui em MG, com o crescimento da então campanha de Carlos Viana que destronou a candidatura de Dilma Rousseff ao senado.
As situações que acontecem próximo da eleição são muito difíceis de contornar. De todas as notícias e ações, a que mais abalou a mobilidade do eleitor que não estava seguro em quem votar foi o ataque à Nossa Senhora. Quem fomentou isso foi Flávio Bolsonaro. O bolsonarismo é boquirroto; ele não consegue se segurar; precisa responder a todos os ataques. Após a repercussão em torno de Nossa Senhora, Flávio atacou a Conferência Episcopal dos Bispos do Brasil (CNBB).
Para piorar, quem evidentemente não é católico e é ligado a Bolsonaro começou a postar nas redes sociais que a CNBB não é a Igreja. O que isso mobilizou e qual é a consequência desse ataque? Quem, entre os católicos, venera Nossa Senhora, principal símbolo da religiosidade, é quem é conservador dentro da Igreja Católica. Aquele que é progressista tem como símbolo Jesus Cristo e segue o Novo Testamento.
Então, Flávio conseguiu unir um segmento conservador católico, que estava quieto e que se aproximou, portanto, de uma vertente progressista da Igreja Católica, para dirigir resposta a Flávio. Atacar a CNBB foi a pior decisão que Flávio Bolsonaro poderia tomar na política. Lembrando que 56% dos eleitores brasileiros são católicos e 26% a 27% são protestantes ou evangélicos. Nesse sentido, ele mexeu com a maioria dos cristãos. É essa mobilidade que está difícil de analisar. Mesmo o Datafolha, que parece ser o último instituto a fazer uma pesquisa para tentar entender a intenção de voto, não vai conseguir captar a onda ou a estagnação dessa onda. Para nós, fica muito difícil entender o que acontecerá.
Lula precisa de 3,5% para vencer no primeiro turno, e Flávio, de 7 a 8. É evidente que Lula está mais próximo de ganhar no primeiro turno do que Flávio. Acontece que cada ponto percentual representa 1,5 milhão de eleitores. Então, Lula precisa de 5 milhões de eleitores. Não é pouca coisa. Diria que hoje, para sermos mais conservadores na análise, os dois vão para o segundo turno com um viés de alta para Lula – o que é muito importante para quem entra no segundo turno –, e Flávio fica instável junto ao eleitorado. Ganhar no primeiro turno é possível, mas teria que ter criado uma onda que, como disse, fosse favorável a Lula ou contrária a Flávio. Dizem que vai aumentar a abstenção. Não vejo como ter certeza disso.
IHU – Como seria um quarto governo Lula ou, em contrapartida, um governo de Flávio Bolsonaro alinhado às pautas da extrema-direita?
Rudá Ricci – Em primeiro lugar, ninguém vai ter um governo fácil nem grande capacidade de governabilidade. Jair Bolsonaro teve que entregar ao Centrão a direção do governo dele porque não teve capacidade de enfrentar o Parlamento. Até aqui, as intenções de voto para a Câmara e para o Senado indicam que quem vai ganhar essa eleição, mais uma vez, é o Centrão. O PL aumenta a bancada, o PT aumenta a bancada, mas quem vai ter maioria no caso do Senado, com 41 senadores, é o Centrão.
Sabemos como o Centrão age. Eles agem chantageando o presidente de plantão, seja da extrema-direita, seja o Lula, e ganham vantagens. Ou seja, eles governam como se fossem um semiparlamentarismo. Flávio vai ter muita dificuldade de se eleger. Por quê? Porque ele é odiado por metade dos eleitores do país. Ele não tem experiência nenhuma como presidente da República nem como uma pessoa que negocia. É uma pessoa que está sempre no ataque. Ele tentou até parecer bonzinho, pai de família, mas logo descampou, mostrando o que é o bolsonarismo.
No caso de Lula, também vai acontecer isso. Não porque ele seja extremista, mas porque ele vai ter que lidar com o Centrão, que não pensa como o lulismo. Embora Lula esteja se aproximando de um discurso centrista – nem de centro-esquerda –, vai ter muita dificuldade porque quase metade da população é contra ele.
Temos um país dividido e calcificado. Esse é um termo norte-americano que Felipe Nunes, da Quaest, trouxe para o Brasil. Calcificação é uma polarização tão permanente, tão longa, longeva e radical, que qualquer assunto envolvendo qualquer um dos lados – futebol, música, qualquer coisa – radicaliza-se na hora. Nem passa mais pela razão. Portanto, vamos ter uma dificuldade imensa. Além disso, Lula estará na sua última fase como presidente do país. Portanto, o sucessor, já no dia da posse, vai estar sendo disputado dentro do PT, do PSB e do PSOL.
Por quê? Porque Guilherme Boulos é colocado como sucessor de médio prazo. Lula adora o Boulos. Então, vai ter uma disputa imensa dentro do governo. Lula só tem duas possibilidades: ou tenta cozinhar essa disputa e, pouco a pouco, criar um acordo, que é o estilo do terceiro governo dele, ou radicaliza algumas posições na direção do fim da escala 6x1 para galvanizar uma imagem mais progressista e, a partir daí, comandar todo o processo de transição, mesmo não estando mais no governo daqui a cinco anos.
O país vai pegar fogo, inclusive dentro do Supremo Tribunal Federal (STF). O que estou querendo dizer, para resumir, é que nenhum dos dois, vencendo a eleição, vai ter vida fácil. O Brasil pode entrar numa rota de conflito interno e de ingovernabilidade radical.
IHU – Que impacto as últimas fakes news envolvendo Nossa Senhora podem ter no domingo?
Rudá Ricci – Essa situação envolvendo Nossa Senhora quebrou a bolha. A história de Nossa Senhora, durante 22 horas, passou a ser o principal assunto nas redes sociais. Ficou nas trends de todas as grandes plataformas. As big techs estavam cancelando várias páginas. Cancelaram inclusive a da CNBB. O que fomentou ainda mais um tipo de narrativa de que o bolsonarismo é contra a Igreja Católica. Ou seja, foi uma burrice atrás da outra.
O que está acontecendo nessa reta final é que o cancelamento está sendo mais forte. As redes estão entregando mais vídeos e mensagens da direita e da extrema-direita e cancelando ou diminuindo, através da manipulação de algoritmo, a entrega de vídeos e mensagens mais progressistas ou lulistas. Claro que pode ter algum tipo de ataque sendo planejado para o dia da eleição e o Tribunal Eleitoral não vai ter tempo hábil para checar. Mas tudo isso vai depender da onda que essa história de Nossa Senhora criar ou não, pois pode estagnar. Essa é a variável mais importante nesse final da eleição.
Veja que isso não tem nada a ver com a eleição, não tem nada a ver com um projeto de país, nem com o perfil dos candidatos. Tem a ver com um tema exógeno em função de um ataque da base de Flávio Bolsonaro. Inclusive, ninguém falou que foi ele que criou a história de Nossa Senhora. O que falaram é que estava tendo um ataque de bolsonaristas a ela, dentro daquilo que se chama "terrorismo estocástico". Ou seja, é mais ou menos como um apito de cachorro que perde o controle da sua base. A base ouve o apito e vai para o ataque. Não quer dizer que quem apitou é o dono daquela ação. O dono da ação é aquele sujeito que tem uma ligação de autoridade, uma ligação de responsabilidade.
Flávio e o bolsonarismo atacam a Igreja Católica há tanto tempo que alguém, ficando preocupado com o período eleitoral, fez a besteira de retomar uma discussão nas redes sociais relativa a um projeto de lei de décadas atrás. Foi disso que se falou. Ninguém falou que foi o Flávio. Nem a campanha do Lula entrou nessa discussão e muito menos a Igreja. Esse tema mostra o descontrole da base bolsonarista depois de fomentar tanto o ódio e ataques irresponsáveis.
Flávio tinha que ficar quieto, mas resolveu ir para cima e falar que a CNBB fez fake news. Aí virou uma bagunça. Recentemente, o Papa fez uma declaração dizendo que a extrema-direita não tem relação com o pensamento cristão. Agora a onda está completa. Vamos ver até onde ela vai.
O que não foi tão perceptível é que as campanhas de candidatos ao senado e governos estaduais do bloco bolsonarista puxaram o crescimento da intenção de voto de Flávio.
Nas redes sociais, se formos para segundo turno, apostadores e provocadores dirão que seu candidato está com a vitória nas mãos. Contudo, a se fiar pela maioria das pesquisas divulgadas ontem, ninguém terá esta certeza até a abertura das urnas em 25 de outubro.
IHU – Essa declaração pode ter um impacto significativo no voto dos católicos? Como declarações da direita, inclusive sobre Nossa Senhora, podem desqualificar Flávio como um possível presidente aos olhos da sociedade?
Rudá Ricci – Tem impacto no voto católico porque os bolsonaristas radicais, principalmente nas redes sociais, disseram que a CNBB não é a Igreja. E aí vem o pontífice falando que a Igreja não aceita o discurso e as propostas extremistas de direita. Isso destruiu o discurso bolsonarista.
O Papa falou da extrema-direita porque acaba de fazer uma visita à França, e a Europa está contaminada pelo discurso extremista contra imigrantes. O Papa e a Igreja Católica nunca foram a favor de extremismos. Se for extremismo de esquerda, serão contra também. A primeira questão é: o que é extremismo? Extremismo é quem usa violência ou prega violência para coibir ou eliminar o adversário. Então, quem está mais à direita não necessariamente é extremista. A pessoa pode ser de direita e não ser extremista e não pregar a violência. No caso do Brasil, nós temos direita, mas temos extremistas que seguem o bolsonarismo.
Na esquerda não temos extremismo. Ninguém está pregando a revolução armada. Ninguém está falando que tem que matar, atacar e xingar. Existe a esquerda do lulismo, sem extremismo.
A Igreja Católica é contra o uso da violência porque entende que todos somos irmãos, todos somos filhos do mesmo Pai. Aí tem uma leitura teológica de que o irmão aceita e ama até o inimigo. O que significa amar o inimigo? Não é aceitar o inimigo, mas, sim, não matá-lo. Um irmão pode brigar com o outro, mas não o elimina. Esse é um conceito antiextremismo, antiviolência.
Portanto, quando o Papa fala que os católicos são contra o extremismo de direita, não é que está falando contra a direita. Está falando contra o extremismo. Está falando da questão da desigualdade. Isso está no cerne do pensamento cristão católico. Disso os bolsonaristas não entendem nada.
IHU – O campo progressista tem conseguido alcançar bons resultados em suas mobilizações eleitorais? A pauta contra a escala 6x1 pode influenciar nas decisões de voto?
Rudá Ricci – Essa pauta só vai influenciar se passar no Congresso. O desejo daqueles que coordenam a campanha de Lula é que Alcolumbre coloque a votação da 6x1 durante o segundo turno. Se não entrar no segundo turno, será um discurso vazio. Essa é uma promessa. Talvez, até 2006, o pobre ou trabalhador caísse nela.
Depois de 2006, as pesquisas mostram que eles se desgarraram dessa ideia de acreditar no salvador do momento ou na classe média. Tanto é assim que eles não seguem mais o editorial da grande imprensa. É bem impressionante como o voto popular se divorciou da grande imprensa e da classe média a partir de 2006.
Se votarem a redução da escala 6x1, o impacto será gigantesco. Por quê? Porque vai impactar pessoas que querem ficar com a família. Para os trabalhadores pobres e intermediários, o principal segmento social é a família. Eles querem ficar com a família. Principalmente com a mãe. A mãe é o principal personagem da periferia brasileira.
Qual é o problema da esquerda? Primeiro, temos uma esquerda clássica no país. São várias organizações e partidos que não conseguem ter 1% da intenção de voto em eleição federal. Portanto, não são populares. Se não são populares, são o quê? São elitistas. É uma esquerda que não tem capilaridade. É uma esquerda acadêmica. E dentro dessa possível esquerda, que não é esquerda, os identitários só têm voto em bairros de classe média universitária e intelectualizada. Se é assim, a representatividade não é da base da sociedade.
Na centro-esquerda entram o PSB e o PSOL. O PSOL não é esquerda. Tem uma parte de esquerda, mas ele é social-democrata. Basta você abrir o programa de governo para a prefeitura de São Paulo e verificar. O lulismo é social-liberal; não é social-democrata. Está à direita da social-democracia. O social-liberalismo foca em políticas sociais. Portanto, tem a igualdade como tendência, sem desrespeitar os interesses do mercado. A social-democracia é o inverso: respeita o mercado desde que ele não expurgue contra a política social. A política social é mais importante na social-democracia do que no mercado. O social-liberalismo, que é o lulismo, é o inverso. Então, em toda essa gama de esquerda, que vai da esquerda clássica até o social-liberalismo, o lulismo estaria mais a centro-direita ou centro. Ele está nesse arranjo amplo do que estou chamando de esquerda, lembrando que a esquerda é quem luta pela igualdade social.
A direita, não. A direita fala do sucesso individual e, portanto, da liberdade. Então, não pode ter um Estado que diminua a capacidade das pessoas terem sucesso individual com o imposto. Essa é a diferença entre esquerda e direita para Norberto Bobbio.
Então, o problema dessa esquerda ampla é que ela, primeiro, perdeu o contato com a base. Segundo seus partidos se tornaram o que alguns autores, no fim da década de 1990, denominaram de partido-cartel. O que é partido-cartel? É aquele que só precisa do eleitor no dia da eleição. Depois de eleito, o partido vive sem o eleitor, sem o cidadão, porque vive com dinheiro do Estado. No caso do Brasil, isso é muito claro. Qualquer partido, inclusive o PT, vive de emenda parlamentar, vive de fundo partidário, fundo eleitoral, acordos para conseguir cargo em governos. São partidos que não conseguem mais beber na água que o eleitor bebe; estão muito distantes.
As elaborações dos partidos são cada vez mais acadêmicas, voltadas ao marketing político que pode, uma hora ou outra, acertar o alvo, mas o eleitor percebe que o cara não fala a linguagem dele. Percebe que ele não fala do sofrimento do dia a dia e, portanto, vai se distanciando. Isso está acontecendo com a esquerda brasileira. Como tem uma extrema-direita, a esquerda começa a defender a democracia como status quo. Mas esse eleitor está pouco se lixando para isso. Ele quer melhorar de vida. Ele quer voltar a viajar de avião. Ele quer levar os netos à Disney. É isso que um avô negro da favela quer.
Eu vou muito para a periferia. Um dia, entrei na casa de uma liderança importante em uma favela perto da minha casa e, na entrada, tinha um monte de bonecas negras. Perguntei para a filha dele, de 10 anos, onde ela tinha comprado aquelas bonecas. Ela respondeu: “meu pai trouxe dos Estados Unidos”.
A esquerda não conseguiu entender essa mudança da periferia até agora. Esse é o grande problema. Então, não se trata de ter uma pauta pelo fim da escala 6X1. Precisamos falar para as pessoas que elas poderão ter tempo para ficarem com as suas famílias, que elas vão poder ter uma vida excepcional e não uma vida remediada. Que queremos que o neto de um senhor que vive na favela seja o próximo presidente da República.
Ou seja, precisa falar de futuro. É isso que as pessoas querem e elas têm todo o direito de quererem isso. O avô da periferia tem todo o direito de dar o tipo de comida, escola e brinquedo para o seu neto que eu dou para o meu. O que eu tenho de melhor que ele? Nada. Então, ele tem todo o direito. E é isso que o lulismo gerou e ainda não percebeu. O lulismo fez um monte de ações sociais que gerou esse tipo de perfil na periferia. E agora o lulismo está perplexo porque o pessoal da periferia não acha o governo dele genial.
Nos próximos quatro anos, se a esquerda quiser ter espaço, terá que voltar para a periferia. Tem que ouvir, escutar e estar ao lado. Aliás, o que as comunidades eclesiais de base (CEBs) fizeram para a Igreja Católica, hoje as células evangélicas estão fazendo: ouvir, ser solidário, estar a serviço. É isso que a esquerda no Brasil deixou de fazer.
IHU – Que impacto a proibição das bets pode ter na eleição?
Rudá Ricci – Ainda não vi claramente qual será o impacto. O alvo são as mulheres. As mulheres são mais indecisas do que os homens para votar. Isso não é demérito da mulher. É ao contrário: é uma capacidade reflexiva. Vamos lembrar que as mulheres estudam mais do que os homens no Brasil. As mulheres dedicam, no mínimo, o dobro do tempo semanal para cuidar dos filhos. Portanto, elas sabem o preço da escola, da roupa, do alimento. Elas estão pensando na família. Quando o filho é preso, quem vai para a cadeia dar apoio é a mãe. Quando o filho sai da cadeia, quem está lá na porta do cadeião é a mãe.
Todas as pesquisas que venho citando, feitas na periferia, mostram que os jovens, homens e mulheres, dizem que quem ensinou a ideia de respeito à ordem e à dignidade foi a mãe. Não é o pai. Então, essas pautas que falam com as mães são importantes. As bets, assim como as drogas químicas, estão tirando os filhos recém-casados, os jovens, e os maridos da estabilidade que as mulheres tanto desejam para a família, a tal da ordem e da dignidade. Nesse sentido, a campanha do Lula fixou essas mulheres.
70% dos eleitores indecisos são mulheres. Esse é um eleitorado que tende a votar no Lula. É onde ele tem uma vantagem larga, assim como entre os católicos e nordestinos, sobre o Flávio. Então, essa história das bets está visando as mulheres. Isso significa que Lula pode perder o voto masculino? Significa.
Mas houve um cálculo de risco. A ideia é que se as mulheres que já tenderiam a votar no Lula, mas têm dúvidas sobre o caráter dele ou sobre o PT, começarem a perceber que ele vai ajudar a sua família a ter estabilidade, elas votam e criam uma onda feminina. E aí o Lula ganha a eleição.
Eu não vi onda nenhuma até agora. As pesquisas recentes também não estão revelando se teve alguma onda. Mas há uma discussão na base de que as mulheres já estão falando que isso pode ajudar os seus maridos a largarem, digamos, a cachaça. O que parece ter ocorrido é que Lula avançou desde a história da proibição das bets que se somou ao ataque de Flávio à CNBB. Para os que sofrem de palpitações ou pensamento cartesiano por aqui, sugiro tirarem umas férias ou começar a fazer meditação.
IHU – De que forma a extrema-direita tem crescido no âmbito eleitoral estadual?
Rudá Ricci – Primeiro, no Brasil sempre existiu extrema-direita. Foram 300 anos de escravidão e isso forma a alma de um país. Quem era da elite se achava escolhido por Deus. Essa é uma concepção monárquica.
Em "Brasil da maioria: 25 anos de classe C", Renato Meirelles, do Instituto Locomotiva, instituição que mais pesquisa as periferias urbanas e as favelas do Brasil, mostra que o que emergiu depois do período de consumo até 2013 foi a ideia de que “eu me basto”. Muitos têm aquela visão de que "governo nenhum me ajuda, porque é tudo governo de branco e rico. O único segmento social que me ajuda e em quem confio é a minha família".
Esse egocentrismo fez com que a ampla maioria do eleitorado brasileiro que melhorou de vida e não passa mais fome não tenha apreço pelo governo que lhe proporcionou essa condição, pois está olhando para o futuro. As pessoas começam a desconfiar que as políticas públicas querem manipulá-las. Por isso, desconfiam.
No livro, Meirelles conta a história de uma senhora empreendedora que vive em uma favela. Certo dia, um político chega para ela e diz: “Vou oferecer vários cursos profissionalizantes para a senhora melhorar de vida.” Nisso, ela responde: “Mas não quero curso.” Aí ele pergunta: “Não? Então, o que a senhora quer?”. Ela respondeu assim: “Quero uma mentoria de uma mulher como eu, que abriu um negócio, ficou meses com o caixa no vermelho e conseguiu sair. Quero saber como ela saiu do vermelho”.
Isso é pragmatismo. É uma visão objetiva do sucesso individual. É pé no chão. Aqueles modelitos que produzimos no Brasil desde os anos 1980 não cabem mais. A extrema-direita explora isso, dizendo: “Nós temos que mudar o país, e esse pessoal está usando você com o Bolsa Família.” Isso pega. O problema é que a extrema-direita também não consegue dizer como vai garantir que esse pessoal tenha um negócio próspero. Como a extrema-direita está envolvida em casos de denúncia e corrupção, as pessoas começam a pensar que esse pessoal as usa do mesmo jeito. Então, há um fosso de deslegitimação das instituições públicas, dos partidos e dos eleitos.
Juliano Spyer, o principal antropólogo que estuda as bases evangélicas no Brasil, acaba de dar uma declaração pública dizendo que os evangélicos não aguentam mais que usem suas igrejas para apresentar candidatos a deputado, senador e governador. Nesse percurso, acredito que haverá uma possível queda da ascensão da extrema-direita porque a população da periferia, que é a maioria, não está conseguindo se identificar com ninguém. Por isso que há essa gangorra que estamos vendo no fim do primeiro turno.
Esses brasileiros não se identificam nem com o lulismo nem com o bolsonarismo, mas adotam uma postura pragmática. Na comparação, consideram que Lula talvez seja capaz de melhorar as condições de vida deles. Mas também não é uma convicção muito grande. Alguns jornalistas e analistas dizem que, aumentando a abstenção, dá para o Lula ganhar no primeiro turno. Não entro nessa seara. Penso que isso é futurologia, pois não há dados. O “vamos continuar como estamos” é o problema do discurso do Lula. Hoje, o presidente representa a defesa do status quo.
A extrema-direita defende a mudança. A questão da corrupção fez com que muitos jovens de 30 anos, que saíram do voto no Lula e foram para Bolsonaro, estejam desgarrados. Diante de tudo o que está sendo discutido – do escândalo de Dark Horse à prisão de Jair Bolsonaro –, esse eleitorado também está inseguro. Trata-se de uma mobilidade muito rápida do ponto de vista da intenção eleitoral porque os trabalhadores querem mudança e isso é o mais importante.
Entretanto, eles não estão vendo quem está falando de mudança. 80% dos trabalhadores que pensam na família, que não têm medo de trabalhar, que ganham até R$ 2.100 por mês, acham que vão melhorar de vida nos próximos cinco anos. Aliás, é só isso que dá esperança para eles.
A universidade, que foi tão importante em 2010 para os pobres, já não é mais importante para os jovens da periferia. Por quê? Porque eles seguem estudando, estudando, estudando e o salário não é mais compatível com o esforço. Por isso, eles estão indo para negócios próprios sem passarem pela universidade. Esses trabalhadores e jovens não conseguem achar um esteio na política que lhes dê garantia. Eles não são contra o Estado, mas também não querem que esse Estado os use. Então, estamos no meio do caminho.
IHU – O posicionamento da mídia tradicional pode interferir na decisão do voto?
Rudá Ricci – Desde 2006 a maioria do eleitorado não vota com a linha editorial da grande mídia. Ou seja, não vota com a Globo News, a Folha ou o Estadão. Desde 2002, todos os candidatos apoiados pela imprensa perderam as eleições. Neste ano, a imprensa está falando em uma terceira via hipotética, utópica. Nunca surgiu uma terceira via com força. Então, em primeiro lugar, o que a imprensa diz ou deixa de falar pouco importa para o eleitor médio.
Talvez, os eleitores religiosos até escutem não a grande imprensa, mas as mídias mais focadas, direta ou indiretamente com a religião e a igreja deles. Mas esses eleitores já têm o voto declarado; já estão de um lado ou do outro. Eles não mudam o voto. Eles fazem uma escolha religiosa com base na sua religiosidade. A grande questão deles é a família. Temos que sempre lembrar disto: o filtro para a religiosidade e para a igreja local é a família.
IHU – Recentemente, o Datafolha mostrou uma diferença significativa entre homens e mulheres em suas intenções de voto: elas aparecem mais à esquerda, enquanto eles se posicionam mais à direita. Como interpretar essa divisão?
Rudá Ricci – A revista The Economist fez um levantamento importante envolvendo a Coreia do Sul, a Inglaterra, os Estados Unidos e vários países. Todos indicam que as mulheres votam mais à esquerda, inclusive no Brasil. Por quê? Porque os homens estão tendo dificuldades para se redefinirem e definirem o seu papel, inclusive, na família, em função do aumento do poder das mulheres. No mundo inteiro, as mulheres têm empregos e muitas são chefes de família. Entre 25% e 30% das mulheres brasileiras são chefes de família.
Isso está desnorteando os homens que hoje dependem das mulheres. As mulheres têm mais escolaridade do que os homens e são a maioria dos eleitores: 52%, 53% dos eleitores são mulheres. Isso está fazendo com que os homens tenham uma postura defensiva ultraconservadora e aumente o discurso conservador ligado aos grupos red pill.
As mulheres, com inteligência e engajamento social, estão ganhando dos homens. Veja, por exemplo, na política, a dificuldade de ter mulheres como lideranças. Por isso é tão impressionante que no extremismo existam mulheres como a Michelle Bolsonaro, que vai contra os homens do partido dela. Alguém disse que a Michelle é uma feminista da direita. Até na extrema-direita a fala da Michelle cria estranhamento porque trata-se da ascensão das mulheres.
As mulheres tendem, sim, à esquerda e são mais progressistas. O problema é que a esquerda não sabe trabalhar com as mulheres porque não está com elas. A mulher está no trabalho e a esquerda não defende essa mulher. Se ela for negra, ela recebe menos do que o homem negro, menos do que a mulher branca e menos do que o homem branco. E a esquerda não está falando sobre isso. Fala sobre um trabalhador genérico, abstrato. Tem que falar sobre a mulher e, principalmente, sobre a mulher negra.
Prega-se a igualdade, mas a mulher negra vive a desigualdade. A esquerda tem que falar para ela e para a avó dela. Apenas para citar uma política, no Brasil nós temos o programa de Educação de Jovens e Adultos (EJA). A avó que cuida do neto para a filha poder trabalhar não pode participar do EJA. O que a esquerda propõe? Nada! Assim como equipes de saúde da família, tinha que ter os agentes da escola para darem aula para a avó na casa dela porque ela não tem mobilidade. Mas ninguém da esquerda pensa nisso. Por quê? Porque não está com aquela avó. Não sabe que ela sofre. Não sabe das doenças dela. Não sabe o que ela faz para cuidar da família e criar estabilidade. Então, a mulher tende a ser mais de esquerda, mas a esquerda brasileira não sabe o que falar para ela.
E tem mais coisa: essas mulheres não são contra homens. Esse é o erro dos identitários. Elas são a favor da família, inclusive, com filhos homens, maridos, tios e pais.
IHU – Deseja acrescentar algo?
Rudá Ricci – Precisamos ficar bastante atentos a essa eleição porque é o ocaso de Jair Bolsonaro e é por isso que o cenário está tão pulverizado e tantos nomes foram mobilizados. Michelle está se alinhando a Tarcísio, que representa um novo bolsonarismo. Nos bastidores, fala-se em Projeto 2030.
De outro lado, Lula também vai entrar em ocaso a partir de agora. É a última eleição dele. Ele pode continuar sendo um chefão, mas, obviamente, vai ter cada vez menos poder sobre a disputa interna.
Então, estamos num momento crucial da história da democracia brasileira porque as duas principais forças políticas da última década vão entrar em ocaso gradativamente. E aí nós temos que saber o que vai se mover nas placas tectônicas desses dois blocos, porque elas vão se mover.