A vida extraordinária de Leonardo Fróes: o poeta que se permitiu ser natureza

Ciclo de estudos debate sobre a construção artística do poeta em meio a natureza no Instituto Humanitas Unisinos – IHU nesta quinta-feira, 07-10-2026, às 14h

Foto: TranDuyet/Pixabay

Por: Luana de Oliveira | 07 Outubro 2026

“Quando eu me largo, porque achei
no animal que observo atentamente
um objeto mais interessante de estudo
do que eu e minhas mazelas ou
imoderadas alegrias (...).
- qualquer coisa maior se estabelece
nesta ausência de distinção entre nós:
a glória, a beleza, o alívio,
coesão impessoal da matéria, a eternidade” [1].

A poesia desvenda por si só o poeta. Leonardo Fróes, com sua alma lírica iluminada pelo sol da manhã, encontrou-se como poeta-natureza e, em sua longa vida, trouxe sua visão sobre as maravilhas encontradas no mundo natural. Sua decisão de trocar o concreto pelo campo surgiu no período sombrio da ditadura, após passar quatro dias preso em um dos quartéis assassinos e truculentos dominados pelo Departamento de Ordem Política e Social (DOPS).

A partir de 1970, sua morada passou a ser no interior do Rio de Janeiro, num bairro rural chamado Secretário, um distrito no interior de Petrópolis. Naquele espaço, em um terreno de 50 mil metros quadrados, Fróes e sua esposa Regina encontraram um enorme campo devastado condenado a pasto. Após pisarem naquele chão, o poeta e sua companheira de sonhos trouxeram uma nova vida para o lugar.

Após reflorestarem suas mentes, trouxeram novamente para aquele espaço a natureza que tinha sido roubada. Depois da mudança para seu novo lar, ele faz o seguinte depoimento:

“Aprendi a trabalhar como pedreiro, assentei portas e janelas, puxei a eletricidade e a água, que de início não tínhamos. Fizemos horta, plantamos a nossa própria comida. Aprendemos a dar valor, e isso perdura até hoje, no trabalho manual. Claro que, simplificando-se a vida, minha linguagem também se simplificou. Livrei-me, creio, de muitos condicionamentos nocivos, entre os quais o da vaidade autoral (...). A poesia, antes uma atividade fechada, foi assim se transformando, exercitada nos desafios do dia a dia, no que acabei por considerar a principal de todas as artes – a arte de viver” [2].

Ciclo de estudos Poesia e Cotidiano: Poesias de Leonardo Fróes

 

É a partir dessa análise sobre seu “eu natureza” que o episódio do ciclo de estudos Poesia e Cotidiano, realizado em conferência online pelo Instituto Humanitas Unisinos – IHU e coordenado pelo teólogo Faustino Teixeira, apresentará os principais elementos da poesia de Leonardo Fróes, nesta quarta-feira, 07-10-2026, às 14h.

O professor busca apresentar de forma leve, tranquila e serena poemas que marcam seu itinerário no mundo da literatura. Não se trata de uma reflexão que esgota a riqueza dos poetas escolhidos, mas que busca refletir sobre suas pontuações a respeito do cotidiano.

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Foram escolhidos poetas ainda não trabalhados por Faustino Teixeira nos cursos ministrados no IHU. São poemas simples e delicados, que tocam os meandros mais ricos do cotidiano e falam de temas que são universais.

Foi partir de sua travessia rumo a natureza que Fróes escreveu seu encontro profundo com Deus:

“O que eu chamo de deus é bem mais vasto
e às vezes muito menos complexo
que o que eu chamo de deus. Um dia
foi uma casa de marimbondos na chuva
que eu chamei assim no hospital
onde sentia o sofrimento dos outros
e a paciência casual dos insetos
que lutavam para construir contra a água.
Também chamei de deus a uma porta
e a uma árvore na qual entrei certa vez
para me recarregar de energia
depois de uma estrondosa derrota.
Deus é o meu grau máximo de compreensão relativa
no ponto de desespero total
em que uma flor se movimenta ou um cão
danado se aproxima solidário de mim.
E é ainda a palavra deus que atribuo
aos instintos mais belos, sob a chuva,
notando que no chão de passagem
já brotou e feneceu várias vezes o que eu chamo de alma
e é talvez a calma
na química dos meus desejos
de oferecer uma coisa”. [3].

Serviço

O quê: "Ciclo de estudos Poesia e Cotidiano: Poesias de Leonardo Fróes"

Quando: 07-10-2026, às 14h

Quem: Faustino Teixeira possui graduação em Ciência das Religiões pela Universidade Federal de Juiz de Fora (1977), graduação em Filosofia pela Universidade Federal de Juiz de Fora (1977), mestrado em Teologia pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (1982) e doutorado em Teologia pela Pontifícia Universidade Gregoriana (1985).

Onde assistir: www.ihu.unisinos | YouTube do IHU | Facebook do IHU

Inscrição: https://www.ihu.unisinos.br/evento/poesia-cotidiano-miradas

Referências

[1] Leonardo Fróes. Poesia reunida, p. 331 (O observador observado).

[2] Ibidem, p. 10.

[3] Leonardo Fróes. Trilha. Rio de Janeiro: Beco do Azougue, 2015.

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