De possíveis alianças à abstenção: o que pode acontecer no segundo turno das eleições brasileiras após a vitória de Flávio Bolsonaro? Artigo de Bernardo Gutiérrez

Foto: Beto Barata/PL

06 Outubro 2026

O herdeiro do político de extrema-direita Jair Bolsonaro ultrapassou o presidente Luiz Inácio Lula da Silva por quase dois pontos percentuais, e os dois disputarão a presidência em um segundo turno no dia 25 de outubro.

O artigo é de Bernardo Gutiérrez, publicado por El Diario, 05-10-2026.

Bernardo Gutiérrez é jornalista, escritor e pesquisador hispano-brasileiro. Cobre a América Latina desde 1999, atuando como correspondente no Brasil durante a maior parte desse tempo. É autor dos livros Calle Amazonas (Altaïr), #24H (Dpr-Barcelona), Pasado Mañana (Arpa Editores) e Saudades de junho (Liquid Books).

Eis o artigo.

A esquerda brasileira ainda tenta digerir a vitória de Flávio Bolsonaro no primeiro turno das eleições presidenciais, bem como a vitória esmagadora do Partido Liberal (PL) e seus aliados nas eleições regionais e legislativas. Flávio obteve 2.224.965 votos a mais que Luiz Inácio Lula da Silva (uma diferença de 1,87 ponto percentual). A extrema direita está ganhando terreno no Senado. Lula sofreu um leve revés em seu reduto, o Nordeste. Mas o progressismo mantém sua presença no Congresso, e uma nova geração de representantes à esquerda de Lula está ingressando na Casa.

E agora?

Será possível que o candidato progressista vença no segundo turno se os principais candidatos eliminados (que representam 7,58% dos votos) se deslocarem para a direita? “Não acho que essas eleições já estejam perdidas. Em 2022, Lula avançou para o segundo turno com cinco pontos de vantagem. Agora, com menos de dois pontos, é mais fácil para Lula”, afirmou Celso Rocha de Barros, analista político do Teresina Forum, um dos podcasts políticos mais influentes do Brasil. Felipe Nunes, diretor do instituto de pesquisa Quaest, está certo de que Flávio Bolsonaro é o favorito e que Lula terá que formar uma ampla coalizão. No entanto, às vésperas do segundo turno, em 25 de outubro, os números podem não ser tão favoráveis ​​a Flávio Bolsonaro quanto parecem inicialmente.

As alianças formadas no segundo turno serão cruciais para determinar o próximo presidente do Brasil. Embora 7,58% dos votos para Augusto Cury (Avante, centro), Ronaldo Caiado (Partido Social Democrata, conservador), Romeu Zema (Partido Novo, liberal) e Renan Santos (Missão, extrema-direita) sejam de direita, o apoio a Flávio Bolsonaro não está garantido. Uma pesquisa do Medio/Ideia revelou que 55,6% dos eleitores de Cury votariam em Lula, contra 27,8% que apoiariam Flávio. Os demais votariam em branco ou se absteriam. Enquanto isso, apenas 26,4% dos eleitores de Caiado votariam no sucessor de Bolsonaro. Seu partido é aliado de Lula. O candidato de extrema-direita Renan Santos critica duramente Flávio Bolsonaro e afirmou que não fará campanha para ele. Por sua vez, Romeu Zema, que em 2022 se tornou aliado de Jair Bolsonaro no segundo turno, permanece irrelevante.

A torta dos abstencionistas

A chave para o segundo turno reside no enorme contingente de abstencionistas em um país onde o voto é obrigatório: mais de 33 milhões, ou 21% do eleitorado. O fator que mais beneficia Lula é a ampla rejeição a Flávio Bolsonaro por muitos brasileiros: em algumas pesquisas, essa rejeição chega a 56%. A intensa campanha de medo contra o candidato Bolsonaro, já em curso, pode mobilizar os abstencionistas e até mesmo afastar alguns eleitores do candidato de extrema-direita. Resta saber se novos escândalos virão à tona: Pedro Rousseff, sobrinho-neto da ex-presidente Dilma Rousseff e recém-eleito deputado federal por Minas Gerais, anunciou há alguns dias que a campanha de Lula possui material altamente comprometedor contra Flávio Bolsonaro.

Congresso e Senado

Com 29 senadores, o Partido Liberal (PL) se torna o maior partido em uma câmara amplamente controlada pela direita. No entanto, não será fácil iniciar o processo de impeachment contra o ministro do Supremo Tribunal Federal, como solicitado por Flávio Bolsonaro. Apenas 49 senadores apoiam a medida, cinco a menos do que o mínimo necessário. O Senado costuma se comportar de forma mais moderada do que a Câmara dos Deputados, como ocorreu durante o julgamento de impeachment da presidente Dilma Rousseff.

Para os progressistas, o atual cenário do Congresso, com suas 513 cadeiras, não é tão ruim. Os seis partidos de esquerda detêm 118 cadeiras, uma a mais do que em 2022. Se incluirmos o Avante e o Partido Verde (PV), um partido de centro-esquerda com membros progressistas influentes, o total chega a 129 (o mesmo número de 2022). A diferença reside no fato de que os partidos de centro, de direita, perderam algumas cadeiras, enquanto o Partido Liberal (PL) ganhou terreno (120). A aliança de Lula com o centro está se enfraquecendo.

Antiesquerdismo

A vitória de Flávio Bolsonaro não é sinônimo de vitória da extrema direita — não existe uma população fascista de 50% no Brasil. O sentimento anti-PT e anti-Lula, alimentado pela grande mídia entre 2015 e 2018, está no cerne do triunfo do bolsonarismo. Durante a presidência de Jair Bolsonaro (2019-2022), com o auxílio do ecossistema internacional da extrema direita, a narrativa se solidificou em um furioso antiesquerdismo. Uma parcela significativa dos eleitores de Flávio Bolsonaro não se considera bolsonarista. A campanha de Lula enfrenta o desafio de alcançar e buscar votos daqueles que não se consideram de esquerda e não simpatizam com Flávio Bolsonaro. A estratégia de Flávio para o segundo turno já está definida: o sentimento anti-PT (contra o Partido dos Trabalhadores, PT, partido do presidente) será sua força motriz.

A força da extrema-direita nas urnas é inegável. Seu poder nas ruas diminuiu após a prisão de Jair Bolsonaro, e ela perdeu o controle da narrativa oficial da derrota do bolsonarismo em 2022. No entanto, a extrema-direita permanece coesa em torno de seus líderes, mártires caídos e princípios estabelecidos. O sociólogo Marcos Nobre alertou, algumas semanas antes das eleições, que a extrema-direita possui um poderoso partido digital que opera antes, durante e depois das eleições. O cientista político Miguel Lago alerta que os resultados se devem a uma "revolução" conservadora em curso no país desde 2018. As pesquisas previram corretamente a vitória de Lula, mas subestimaram o apoio a Flávio Bolsonaro, um voto que muitos preferem manter em segredo.

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Influenciadores políticos

A extrema-direita tem sido extremamente bem-sucedida em abrir as portas para um novo tipo de jovem político que é, essencialmente, um influenciador de mídias sociais. Nikolas Ferreira, do Partido Liberal (PL), que se tornou deputado em 2018, obteve 3.119.314 votos em Minas Gerais e agora é o deputado mais votado da história. Ferreira, a quem Lula chamou de "imbecil" durante a campanha, recebeu mais votos do que o candidato do PT ao governo de Minas Gerais, Patrus Ananias. O apoio do político do PL por meio de transmissões ao vivo e postagens em mídias sociais ajudou a eleger deputados de extrema-direita em todo o Brasil. Seguindo o exemplo de Ferreira, Lucas Pavanato (também do PL) ultrapassou três milhões de votos em São Paulo. Outros jovens influenciadores, como a radical Kim Kataguiri, conquistaram cadeiras no Congresso, principalmente por meio do novo partido Missão, uma versão jovem da ideologia de Bolsonaro.

O clã Bolsonaro

O domínio da família Bolsonaro continua a crescer. As vitórias da ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro (senadora), de Jair Renan Bolsonaro (filho de Jair, deputado federal), de Carlos Bolsonaro (senador) e de Renato Bolsonaro (irmão de Jair, deputado federal) demonstram o crescente poder do clã Bolsonaro. Carlos Bolsonaro foi responsável pelo chamado "gabinete do ódio", que operava dentro do governo de Jair Bolsonaro para disseminar desinformação em escala industrial, utilizando verbas públicas. Sua presença no Senado, onde terá acesso a milhões de dólares, é fundamental para o bolsonarismo. O resultado de Michelle Bolsonaro foi histórico: ela obteve 938.496 votos (29% do Distrito Federal). Seu mandato, que se estende até 2034, será uma tábua de salvação para os movimentos evangélicos mais radicais.

Falta de renovação do PT

Enquanto a extrema-direita abre suas portas para jovens desconhecidos que não vêm da política tradicional, o PT permanece agarrado às suas vacas sagradas e tem fracassado. Políticos veteranos do partido fracassaram espetacularmente: Patrus Ananias como candidato a governador de Minas Gerais, Zé Dirceu (um dos fundadores do PT) como candidato a deputado e Gleisi Hoffmann (presidente do PT por anos) para o Senado. Duas semanas antes das eleições, uma figura proeminente na história do PT explicou a esta publicação como o partido vetou os nomes de jovens promissores que acabaram construindo suas carreiras em outros lugares.

Por outro lado, a renovação à esquerda do PT está dando frutos no Partido Socialismo e Liberdade (Psol), que está capitalizando sobre a nova política. Rick Azevedo, o ex-farmacêutico que iniciou o debate sobre o fim da jornada de trabalho 6x1, foi o segundo deputado mais votado no Rio de Janeiro, à frente de todas as figuras históricas do PT. A ativista trans Erika Hilton, figura de proa na luta contra a jornada 6x1, foi a segunda deputada mais votada em São Paulo. Embora não tenha atingido a cláusula de barreira de 5% necessária para que os partidos formem sua própria bancada parlamentar, o PSOL garantiu cadeiras para figuras de fora do sistema político, como Renato Freitas e Jones Manuel, líderes na luta antirracista.

A sucessão

Lula repetiu sua candidatura de 2022, com Geraldo Alckmin como seu vice. Governar e usar a mesma fórmula para sua campanha de reeleição transformou Lula em um símbolo do establishment. Apesar das décadas de carreira política de Flávio Bolsonaro, ele consegue capturar o sentimento anti-establishment. A ação de André Mendonça, ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) alinhado a Bolsonaro, que denunciou possível corrupção de seu colega Alexandre de Moraes, responsável pela prisão de Jair Bolsonaro, foi crucial. O eleitorado identificou o Supremo Tribunal Federal com Lula, e o voto foi um protesto. Destacar o passado do candidato progressista, seu papel contra a ditadura, no início da campanha foi uma boa ideia, mas insuficiente. Lula busca seu quarto mandato. Para os eleitores mais jovens, que eram crianças durante seus primeiros mandatos, ele sempre representou o establishment.

Embora Lula seja mitificado por metade do Brasil, ele é odiado pela outra metade. Ele não consegue inspirar as gerações mais jovens. A desaprovação ao governo supera a aprovação, apesar dos dados macroeconômicos positivos. E a rejeição ao próprio Lula se aproxima de 50% na maioria das pesquisas. Independentemente de vencer ou não o segundo turno das eleições presidenciais, muitos acreditam que chegou a hora de debater a sucessão do líder brasileiro.

Voto evangélico

O apoio a Flávio cresceu nas cidades mais evangélicas, enquanto o de Lula diminuiu nas mais católicas. A controvérsia em torno de Nossa Senhora Aparecida e seu status de padroeira pode ter impulsionado a ala radical (igrejas pentecostais) em direção a Flávio. O movimento de Bolsonaro varreu os estados mais evangélicos: a maior parte da Amazônia e o Rio de Janeiro. A jornalista Thais Bernardes, diretora do Instituto Orire, oferece uma dura autocrítica: "Quando transformamos milhões de evangélicos brasileiros em uma caricatura de pessoas ignorantes, manipuladas ou atrasadas, não estamos combatendo o fundamentalismo". A Frente Evangélica progressista que Lula criou durante a campanha de 2022 pode ser fundamental no segundo turno. O PT deve considerar cuidadosamente se vale a pena continuar alimentando a guerra santa (12 de outubro é o dia de Nossa Senhora Aparecida).

Segurança

A questão da segurança tem sido central nos resultados eleitorais. A reeleição no primeiro turno do governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, defensor de uma linha dura, é prova disso. Todos os senadores de extrema-direita eleitos em São Paulo e no Rio de Janeiro, que surpreendentemente derrotaram figuras proeminentes da esquerda, apelam para a necessidade de segurança. Isso também se verifica na região Sul e no Distrito Federal. A designação dos cartéis de drogas brasileiros como organizações terroristas por Donald Trump impulsionou candidatos de extrema-direita, apesar das políticas públicas de Lula contra facções criminosas, visto que a liberalização do controle de armas durante o governo Jair Bolsonaro fortaleceu o crime organizado.

A interferência de Trump

A campanha eleitoral brasileira foi marcada pelas inúmeras interferências de Donald Trump. Embora Lula tenha citado ao longo da campanha o risco de uma vitória de Flávio Bolsonaro significar a entrega do país aos Estados Unidos, o presidente brasileiro escolheu suas palavras com cautela. Ele não transformou a campanha em uma disputa contra Donald Trump. No segundo turno, Lula poderia usar essa estratégia, embora isso possa provocar uma intervenção ainda maior dos EUA. Os inúmeros casos de interferência da plataforma Meta contra a esquerda soaram o alarme. Um estudo do NetLab, laboratório de pesquisa em internet e mídias sociais da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), revelou que 68,1% dos anúncios da Meta analisados ​​entre 16 de agosto e 16 de setembro atacavam instituições ou levantavam suspeitas sobre o processo eleitoral.

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