27 Fevereiro 2026
Um modo de governar que entrega políticas públicas, mas não reformas; que fideliza eleitores, mas não politiza; e que tem cada vez menos capacidade de seduzir a juventude. Estes são os limites do lulismo para o ativista e comunicador comunista Jones Manoel. “Superar o lulismo é um debate inadiável”, afirma.
A informação é de Felipe Prestes, publicada por Sul21, 26-02-2026.
Além desses limites ideológicos, Jones vê também um limite biológico: “Lula não vai durar para sempre”, enfatiza. Para o historiador e mestre em Serviço Social, o lulismo não é movimento que perdurará por décadas como o peronismo ou o chavismo. O comunista acredita que esse modo de fazer política deverá ter o mesmo fim do trabalhismo pós-Brizola ou do PSB após a morte de Miguel Arraes, caminhando rumo ao fisiologismo.
“É inegável que o lulismo entregou políticas públicas importantes”, ressalta. Nascido e crescido na periferia de Recife, o ativista e comunicador conta que sua avó só teve luz em sua casa, no interior do município de Cabo de Santo Agostinho, após o programa Luz Para Todos. “Minha mãe gosta do Lula, pois isso permitiu que minha avó vivesse seus últimos anos com geladeira, televisão. Agora, qual é o limite dessas políticas públicas? Isso não gera politização, isso gera fidelidade de votos, que não vem se renovando. Os votos do Lula hoje têm uma claríssima concentração etária”.
Jones Manoel cumpre agendas na capital gaúcha desde a noite de quarta-feira (25), quando participou de debate com o também youtuber Humberto Matos, na Ocupação Periferia no Centro, em um antigo prédio do Ministério Público Federal, na Avenida Júlio de Castilhos, ocupado pelo movimento União Por Moradia Popular. Na manhã desta quinta (26), palestrou para metroviários não só do Rio Grande do Sul, como de Minas Gerais e de Pernambuco.
Foi a luta contra a privatização da Trensurb que trouxe Jones a Porto Alegre, em uma agenda organizada pelo Sindimetrô-RS. O ativista tem usado suas redes sociais (são quase 1,9 milhão de seguidores no Instagram e mais de 600 mil inscritos em seu canal no YouTube) para denunciar privatizações e concessões planejadas pelo Governo Federal ou pelos estados e municípios, mas com apoio do BNDES. Vestindo uma camiseta do Sport Recife que faz alusão ao filme O Agente Secreto, o pernambucano concedeu entrevista coletiva na sede do Sindimetrô, onde, além das críticas ao governo Lula, disse que a esquerda precisa tirar o STF de um pedestal e falou sobre sua pré-candidatura a deputado federal.
Anistiar a dívida dos estados e combater legado de FHC
Na entrevista, Jones Manoel defendeu o fim do Regime de Recuperação Fiscal e lamentou que o Governo Federal não tenha anistiado a dívida do Rio Grande do Sul após a enchente de 2024. “Tinha voto na Câmara dos Deputados para aprovar a anistia. Isso não foi aprovado por uma decisão do Governo Federal, dentro daquela retórica de responsabilidade fiscal, de que seria um prejuízo para as contas públicas. Acabou que, de maneira esdrúxula, figuras fascistoides, do Partido Novo, apareceram para um setor da população trabalhadora do Estado como representantes da ideia de anistia da dívida”, lamenta.
Para o ativista, a União atua como agiota com relação aos demais entes federativos, em um legado da Era FHC que visava impedir com que governadores e prefeitos propusessem alternativas ao neoliberalismo. “Há uma lógica de asfixia, para impedir projetos não alinhados com o modelo neoliberal”, afirma.
O comunista afirma que o debate da esquerda no Rio Grande do Sul deveria estar centrado em uma crítica à dívida do Estado, e não em candidaturas. “Debate-se muito nomes, Edegar Pretto ou Juliana Brizola. Vamos imaginar que se eleja a chapa, sem entrar no mérito de quem vai ser cabeça de chapa. Um governo que não enfrente o problema da dívida vai ser um governo para queimar biografias”.
O historiador lamenta que um acúmulo de lutas contra o legado neoliberal do Governo FHC – como as críticas à Lei de Responsabilidade Fiscal ou à Lei Kandir, que isentou as exportações de produtos primários de ICMS, prejudicando estados como o Rio Grande do Sul – se perdeu na memória da militância, em parte porque os governos petistas não agiram para derrotá-lo. Jones também relembra o impacto da privatização dos bancos estaduais. “A promessa do Governo FHC é de que isso iria aumentar a competitividade do mercado bancário e baixar a taxa de juros. Nada disso aconteceu. Hoje, cinco bancos controlam 85% do mercado bancário”.
O comunista critica, ainda, o papel do BNDES como organizador das privatizações no Brasil, que segue vigente mesmo após cinco governos petistas. “Desde a Era FHC, não houve uma privatização no país que não tivesse participação do BNDES”.
“STF precisa ser destronado do lugar de guardião da democracia”
Além das críticas ao Governo Lula, Jones Manoel também não poupa críticas a outra instituição que tem sido vista como uma espécie de cordão sanitário de combate ao fascismo. Diante de um cenário de ataques aos direitos trabalhistas no Judiciário, até mesmo com ministros do STF defendendo o fim da Justiça do Trabalho, o comunista lamenta que a esquerda tenha colocado o STF em um lugar de “guardião da democracia” e “bastião da moral”.
“Por que o STF se sente tão à vontade para tentar desconstruir a Justiça do Trabalho? Porque a maioria da esquerda brasileira entrou em uma linha política de louvação acrítica ao STF e colocá-lo em um lugar em que ele não deveria estar, como bastião da democracia, a personificação da luta antifascista”, afirma.
O comunicador conta (e lamenta) que Alexandre de Moraes foi ovacionado recentemente em um evento de trabalhadores. “Um ministro que de maneira sistemática vota contra todos os direitos trabalhistas, sendo aplaudido por trabalhadores”, ressalta.
O comunista relembra episódios recentes em que nem o Congresso conservador ou o governo Bolsonaro conseguiram ter forças para prejudicar os trabalhadores, mas a suprema corte exerceu este papel, casos da privatização de subsidiárias da Petrobras, que o STF permitiu que ocorressem sem votação parlamentar, e do Piso Nacional de Enfermagem, aprovado pelo Congresso e barrado pelo Judiciário. “Associações empresariais perderam o debate no Congresso e até na presidência de Bolsonaro, e foram ao STF. À época, até parlamentares combativos de esquerda se negaram a criticar o STF. Ah, vai gerar confusão na população, porque os bolsonaristas estão atacando o STF. Paciência. A Corte está em um lugar muito confortável. O STF assumiu o lugar da Lava-Jato como uma espécie de chibata moral da sociedade, como um guardião da democracia, da civilização, e é um lugar do qual ele precisa ser destronado. Se for deixado sem pressão, a tendência do Judiciário é sempre privilegiar os interesses do capital. A gente precisa recuperar um debate crítico de desconfiança ao Judiciário”.
“O movimento comunista tem que entrar na eleição para se eleger”
Na noite desta quinta-feira, Jones Manoel participa de evento ao lado de figuras do PSOL gaúcho como Fernanda Melchionna e Luciana Genro. Filiado ao Partido Comunista Brasileiro Revolucionário (PCBR), que não tem registro no Tribunal Superior Eleitoral (TSE), Jones Manoel deve concorrer a deputado federal por Pernambuco pelo PSOL, em um processo que vem sendo chamado de “filiação democrática”, no qual a sigla cede espaço sem que ele se desvincule de sua organização.
Seguidor da linha marxista-leninista, o comunicador vem sendo ciceroneado no PSOL por lideranças ligadas ao Movimento Esquerda Socialista (MES), como Melchionna e Sâmia Bomfim, que segue uma linha trotskista, quase antagônica dentro do marxismo. “Na tradição marxista você tem várias discordâncias teóricas, mas eu acho que isso não deve impedir a gente de construir lutas juntos. A gente não vai resolver um problema que surgiu em 1924 na União Soviética. O elemento central é garantir que na luta de classes, aqui e agora, a gente consiga arrancar conquistas”, afirma Jones.
Ele enfatiza também que seu ingresso no partido não se dará via MES, e sim buscando um consenso entre todas as tendências do PSOL. O comunista já tem apoio de lideranças que não são do MES, como Glauber Braga, Chico Alencar e Luiza Erundina.
Crítico da democracia liberal, vista como mero instrumento de dominação da burguesia, o historiador, no entanto, tem dito que há forte expectativa de se eleger deputado federal, entre os mais votados de Pernambuco. Nas últimas décadas, partidos comunistas vinham defendendo as eleições como apenas um período para mostrar suas propostas à população.
Jones Manoel critica esta posição. Para ele, as participações comunistas eram amadoras e autocentradas. “Sempre defendi que o movimento comunista precisava mudar a forma como encarava o processo eleitoral. Não porque vai sair uma revolução da democracia burguesa. Mas se a gente disputa algo, a gente tem que disputar a sério e mostrar a força do movimento comunista. Tem que entrar não só para denunciar o capitalismo, mas para denunciar o capitalismo e se eleger”.
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