“O poder se mostra nu com os migrantes”. Entrevista com Enrique Díaz Álvarez

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06 Outubro 2026

Em O intolerável (Anagrama, 2026), o professor de Pensamento Político Contemporâneo da Universidade Nacional Autônoma do México (UNAM), Enrique Díaz Álvarez, analisa como a violência contra os migrantes e outros grupos vulneráveis foi normalizada a ponto de se tornar parte da paisagem cotidiana. Diante dessa anestesia social, reivindica a capacidade das emoções, da memória e da imaginação política para recuperar aquilo que ainda deveria nos perturbar.

A entrevista é de Oliver Tapia, publicada por Ethic, 05-10-2026.

Eis a entrevista.

O que exatamente significa que o poder seja exercido sobre nossos corpos e por que isso se torna especialmente visível no caso dos migrantes?

Bem, no livro recupero parte do que Michel Foucault propôs ao redefinir o poder a partir de uma perspectiva estritamente política. Antes de Foucault, o poder era definido em termos jurídicos ou econômicos, como em Hobbes, nos contratualistas ou em Marx. Foucault provoca uma reviravolta nessa concepção e busca pensar o que há de estritamente político, chegando à conclusão de que há poucas referências e lançando essa premissa aparentemente simples de que o poder é, basicamente, aquilo que reprime.

Assim, coloca o corpo no centro da política e estuda os mecanismos, as formas pelas quais os corpos são reprimidos. Foucault diz isso depois dos movimentos de 1968 e, justamente, essa espécie de intuição lhe surge ao observar a repressão política contra estudantes e, sobretudo, contra presos políticos. Interessa-lhe muito penetrar na prisão, pensar a prisão, porque entende que é ali que o poder se mostra nu, sem máscaras.

No livro, retomo esse chamado e acredito que, hoje em dia, o poder se mostra nu, por exemplo, no assédio e no cerco aos corpos migrantes. E, hoje, por exemplo, penso que precisamos olhar de perto e conhecer os testemunhos dos migrantes detidos nesses centros de detenção do ICE, porque, na prática, funcionam como prisões e constituem um grande negócio para empresas privadas. Então, parte dessa ideia é que, atualmente, o poder se mostra nu com os migrantes, com a desaceleração, a detenção e a humilhação desses corpos.

O que acontece quando uma sociedade aceita que determinados corpos, como os dos presos e dos migrantes, possam desaparecer atrás desses muros e passar a não fazer parte do nosso campo de visão?

Essa é a grande observação, não é? Perturba a brutalidade de governos, de administrações como a de Trump, mas também perturba o grau em que normalizamos esse corte biopolítico que faz com que certas pessoas mereçam ser protegidas, enquanto tantas outras se tornam sujeitos de abuso, assédio e humilhação, sem que isso nos importe muito.

É como se essas vidas migrantes estivessem predestinadas a enfrentar sofrimentos e vexações, como se estivessem acostumadas a isso. E há essa espécie de normalização da violência contra os migrantes, porque eles não são mais apenas criminalizados; agora também são humilhados.

Há uma exibição da crueldade que parece saciar os impulsos mais baixos de sociedades que já não são apenas indiferentes, mas também parecem desfrutar da dor e do sofrimento desses grupos vulneráveis. A ponto de converter os migrantes em bodes expiatórios. São o corpo que merece ser sacrificado para recuperar essa “harmonia original”, essa “estabilidade perdida”. São corpos criminalizados, sacrificados e humilhados.

O que anda de mãos dadas com o racismo, como você menciona...

Esse corte biopolítico é eminentemente racista. E é uma questão que normalizamos sem nos darmos conta. Ou seja, há vidas que importam e vidas que não importam. Há sujeitos que são protegidos e sujeitos que são superexpostos à violência. E esse corte é totalmente racista. São expostos à violência e à morte.

Desde a partida, na busca por um lugar melhor, eles ficam expostos a tudo isso. E, quando chegam a esses lugares, como você diz, institucionaliza-se a perseguição, essa violência.

Sim, por isso acredito que, hoje em dia, boa parte da política está em jogo no campo da percepção. A violência também tem essa dimensão simbólica, ancorada na linguagem e na representação, com discursos abertamente xenófobos e racistas, nos quais esses fluxos migratórios são sempre enquadrados como uma ameaça. Inclusive, roubaram nossas metáforas: fala-se de invasão, de tsunami; dramatiza-se um fato que, na realidade, é consubstancial a nós.

Sempre nos deslocamos. Talvez esses fluxos tenham se acelerado, mas o drama é que não colocamos a ética nem a política à altura desses deslocamentos, que não vão parar porque, entre outras coisas, suas causas não dizem respeito apenas a cada lugar...

Os grandes motores da migração são a desigualdade e a mudança climática, por exemplo, os estragos produzidos pela própria mudança climática. E isso diz respeito a todos nós. Então, em vez de pensar na interdependência, estamos militarizando fronteiras e pensando em como cada um fecha a porta de sua própria comunidade para que o outro não entre.

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E você também fala que perdemos a empatia...

Sim, totalmente. Penso que, numa época em que o migrante é perseguido, em que um discurso anti-imigrante mobiliza a extrema direita, particularmente de forma violenta, é preciso olhar para os pensadores e escritores que se exilaram, que se refugiaram.

Faço isso no livro. Penso que podem lançar alguma luz sobre esta época sombria, sobre esta onda neofascista. Penso, por exemplo, em Hannah Arendt, que foi expulsa pelo nazismo e viveu 18 anos como apátrida. Ou em María Zambrano, que se refugiou no México após a Guerra Civil Espanhola.

E no livro começo justamente com uma premissa dela: “pensar com seriedade é arrancar algo das próprias entranhas”. Essa necessidade de pensar com o corpo me parece muito importante nos dias de hoje. Não podemos deixar que apenas a extrema direita se aproprie e mobilize as emoções. São sempre as paixões tristes: o ressentimento, o medo, o ódio, a nostalgia. Precisamos pensar com todo o corpo e mobilizar outros tipos de emoções e afetos comuns. E isso parece ingênuo, mas aí estão os próprios fundamentos dos princípios democráticos.

Quando se pensa na Revolução Francesa, pensamos na liberdade, na igualdade e na fraternidade. E, como diz Antoni Domènech, a fraternidade está eclipsada. E esse, dos três princípios, é o único que constitui um afeto. E o problema é que ele nos soa antiquado, nos soa ingênuo, nos soa excessivamente idealista. E assim caminhamos.

Você diz que vê esperança em alguns lugares. Na política? Na universidade?

O intolerável nasce justamente de um incômodo que eu sentia, de uma impotência, de um nó na garganta, de um estômago embrulhado diante de ações e gestos que me parecem totalmente fascistas. Escrevi este livro tentando colocar em palavras e pensar essa repulsa que eu sentia, e refletir sobre a vergonha e outros afetos que me parecem poder ser vistos a partir de uma perspectiva crítica ou emancipatória. E entre eles está a esperança.

Penso que precisamos imaginar, a partir da esquerda e das posturas emancipatórias, outros futuros possíveis que nos afastem da promessa de horror em que a política contemporânea está hoje envolta. E eu vejo, não me parece ingênuo, alguns motivos de esperança, não de otimismo, porque não são a mesma coisa.

Tomemos o caso de Minneapolis. Aqueles moradores, diante das brutais batidas do ICE, saíram às ruas aos milhares. Sentiram essa responsabilidade coletiva de defender seus vizinhos migrantes com apitos e com suas câmeras de celular. Isso custou a vida de pelo menos duas pessoas. E o fato de uma cidade assim ter saído às ruas em pleno inverno, sentindo a responsabilidade de defendê-los, me dá motivos para pensar que essa anestesia não é definitiva, que há razões para permanecer vigilante.

E acredito que a imaginação política precisa estar no centro das políticas mais progressistas. Imaginar novas formas de gerir os fluxos de migrantes. Imaginar novas formas de garantir o direito à moradia em cidades cada vez mais gentrificadas... E, para isso, é preciso fazer com que nos sintamos uma comunidade de memória. Sobretudo, a comunidade política é uma comunidade de memória, é uma comunidade de afetos, uma comunidade que imagina um futuro em comum.

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