06 Outubro 2026
“O abuso sexual é, antes de tudo, um problema humano. Quando acontece dentro da Igreja, ele ganha uma dimensão completamente diferente, porque a vida de fé das pessoas fica profundamente ferida e, às vezes, até destruída.”
A reportagem de Christopher R. Altieri, publicada por Crux, 04-10-2026.
“Uma vez é um acaso, duas vezes é coincidência”, começa uma versão bastante comum de um ditado popular, “mas três vezes já é um padrão”.
Se essa expressão tiver algum fundamento, então a última semana ou mais pode muito bem ter fornecido os três dados necessários para começarmos a nos perguntar se o período de lua de mel do pontificado de Leão XIV chegou ao fim.
Fazer a pergunta não é o mesmo que respondê-la – não exatamente –, mas todos sabiam que a lua de mel não duraria para sempre.
Na segunda quinzena de setembro e início de outubro, o pontífice enfrentou desafios reais que testaram sua liderança em três áreas principais: abuso sexual clerical e acobertamento, reforma da Cúria e sinodalidade.
Uma nova missão para um poderoso cardeal
Na semana passada, Leão transferiu o controverso arcipreste de São Pedro, cardeal Mauro Gambetti, para a arquidiocese central italiana de Chieti-Vasto.
Nomeado por Francisco em 2021 para o cargo na Basílica de São Pedro – um posto poderoso que controla um patrimônio imobiliário e recursos significativos – Gambetti, de 60 anos, teve uma gestão tumultuada na basílica do Vaticano.
Em Chieti-Vasto, Gambetti sucede ao arcebispo Bruno Forte, de 77 anos, teólogo formado em Tübingen e figura conhecida pelos observadores do Vaticano, que ganhou destaque durante o sínodo sobre a família em 2014, mas nunca chegou a ter influência no Vaticano.
A nomeação de Gambetti para a antiga sé de Forte, que não é vista como uma promoção, é uma mudança significativa na gestão de pessoal da Cúria. Os observadores do Vaticano estarão atentos à escolha do sucessor de Leão XIV.
Sinodalidade
Na semana passada, Leão também recebeu um conjunto de propostas da comissão sinodal dos bispos para a reforma do direito canônico. A comissão foi incumbida de aplicar os resultados do processo sinodal em sua fase de 2021 a 2024 e buscou identificar como as ideias obtidas poderiam ser traduzidas em normas canônicas.
O Papa Francisco criou a comissão em 2023 e nomeou vários canonistas proeminentes para ela, incluindo o cardeal jesuíta Gianfranco Ghirlanda, amplamente considerado o arquiteto da teoria jurídica que fundamenta as nomeações de mulheres e leigos para cargos de liderança sênior.
É um assunto complexo, cuja versão resumida e simplificada é que, segundo Ghirlanda, o “poder de governança na Igreja não vem do sacramento da Ordem”, mas da “missão canônica”, concedida pelo pontífice romano.
Francisco nomeou mulheres para liderar departamentos da Cúria, mas também restringiu rigidamente os poderes de governo desses departamentos e nomeou cardeais “pró-prefeitos” para assinar as ordens das prefeitas, protegendo-se, assim, de diferentes perspectivas.
Como um pró-prefeito tem a mesma autoridade que um prefeito, atos que contenham a assinatura de um prefeito leigo e a do pró-prefeito (um cardeal arcebispo) serão válidos mesmo que se comprove que Ghirlanda estava errado e o leigo não possa governar de fato, nem mesmo em nome do papa.
Leão XIV seguiu a prática de Francisco de nomear um pró-prefeito quando designou a Irmã Alessandra Smerilli como prefeita do Dicastério para os Leigos, a Família e a Vida em junho deste ano.
Ele não nomeou um pró-prefeito quando designou a leiga Montse Alvarado para liderar o departamento de comunicações (já chefiado por um leigo), mas esse fato tende mais a confirmar do que a complicar a ideia de que tanto Francisco quanto Leão XIV tinham dúvidas sobre a teoria, visto que o dicastério das comunicações não possui poder estatutário que exija ordens sacras.
Entre as propostas que o papa recebeu da comissão de reforma canônica na semana passada, está uma que permitiria que leigos fossem os únicos juízes em casos de direito canônico.
Atualmente, leigos atuam como juízes canônicos, mas não podem presidir casos de direito canônico nem atuar como juízes únicos, pois não possuem o potestas gubernandi, ou “poder de governo”, que é concedido exclusivamente pelas Ordens Sagradas e exercido plenamente pelos bispos.
A alteração proposta – ao cânone 1425 § 4 – reconheceria implicitamente que Ghirlanda está inequivocamente correto.
Leão XIV é um canonista de formação, portanto é altamente improvável que a importância da mudança proposta lhe passe despercebida. O que o papa decidirá fazer com as propostas – se é que decidirá fazer algo – é uma incógnita, por enquanto.
Há muitos bons motivos para observar atentamente, porque o jogo já começou, de qualquer forma.
A questão crucial: abuso sexual clerical e acobertamento
Em Lourdes, o papa se encontrou em particular com sete vítimas de abuso sexual clerical, conversando com elas individualmente e em grupo, durante uma hora e meia no dia 27 de setembro.
A assessoria de imprensa da Santa Sé informou que Leão XIII agradeceu a todas as vítimas “pelo seu doloroso testemunho e reafirmou o seu compromisso de garantir que o mal que sofreram não se repita com outros”.
“Havia algo de sincero no Papa Leão XIV”, disse Jérôme Guillement, de 43 anos, que sofreu abusos na adolescência. “Cada palavra era cuidadosamente escolhida”, disse Guillement, “cada palavra tinha significado”.
Guillement continua sendo um cristão praticante e é um psicoterapeuta atuante que defende sobreviventes de abuso e a reforma da Igreja.
Outro defensor das vítimas que se encontrou com Leão, Olivier Mardi, disse aos repórteres que sentiu que o papa é “um homem de compromisso e também um homem de determinação”, que “não se deixa enganar e sabe que esses eventos continuarão e que devemos permanecer vigilantes”.
Ao se encontrar com os bispos franceses mais cedo naquele mesmo dia, Leão elogiou os prelados por sua determinação em enfrentar “o doloroso flagelo do abuso cometido contra menores por membros do clero ou em um contexto eclesial contra menores”.
“Vocês tomaram medidas corajosas para responder, ouvindo, buscando a verdade, a justiça, o perdão e reparando os danos”, disse Leão, “e por meio de um firme compromisso com uma cultura de prevenção e proteção contra esses crimes.”
O local dos encontros com os sobreviventes e com os bispos – Lourdes – também foi significativo.
A pequena cidade francesa aos pés dos Pirenéus abriga um dos santuários de cura mais renomados da Igreja, e a basílica de Lourdes é decorada com mosaicos de um dos abusadores mais notórios da Igreja: o padre Marko Rupnik.
O ex-jesuíta esloveno está atualmente sendo julgado por supostos abusos sexuais, psicológicos e espirituais que teria cometido contra dezenas de vítimas ao longo de várias décadas, período em que recebeu elogios como artista e ganhou renome como mestre espiritual.
O padre também é acusado – por diversas testemunhas “altamente credíveis”, segundo o próprio investigador do Vaticano – de usar seu “processo criativo” em seu modus operandi abusivo.
Esse fato, segundo vítimas, defensores e observadores da Igreja, complica a argumentação a favor do uso contínuo da obra de Rupnik para adornar espaços sagrados.
Vale também mencionar que as vítimas de Rupnik eram adultas – a maioria delas religiosas – um fato que o próprio prefeito de comunicações da Santa Sé citou em 2024, quando defendeu o uso contínuo de imagens de Rupnik pela sua administração na mídia do Vaticano.
“Não estamos falando de abuso de menores”, disse o então prefeito Paolo Ruffini a uma sala com cerca de 150 jornalistas e outros profissionais da mídia reunidos para ouvir seu discurso de abertura na Conferência Anual de Mídia Católica em Atlanta, Geórgia, em junho de 2024.
Pouco depois da eleição de Leão XIII, o Vaticano removeu a obra de Rupnik de seu site, mas as vítimas e os defensores da reforma criticaram de forma veemente e insistente a lentidão da justiça para Rupnik e a falta de transparência do processo legal canônico que ele enfrenta atualmente.
Os mosaicos de Rupnik foram cobertos durante a visita papal ao santuário – supostamente a pedido do papa – mas permanecem no local, apesar dos esforços contínuos dos defensores das vítimas para que sejam removidos e da convicção declarada do bispo local de que deveriam ser retirados.
Em 2024, o bispo Jean-Marc Micas de Tarbes e Lourdes disse à LA Croix International que os mosaicos de Rupnik “impedem que Lourdes alcance todas as pessoas para quem a mensagem do santuário se destina”.
Micas também afirmou que sua proposta de removê-los encontrou “forte oposição de alguns”, levando defensores e observadores, incluindo este que vos escreve, a questionar quem eram as fontes de oposição e quem poderia frustrar a vontade determinada de um bispo diocesano em sua própria sé.
No voo de regresso da França, Cyriac Zeller, da agência francesa I-Media, perguntou a Leão se ele considera o abuso sexual na Igreja um problema sistêmico.
“Ontem [domingo]”, disse Zeller, “as vítimas que você encontrou nos disseram que você havia reconhecido a elas a natureza sistêmica do abuso sexual na Igreja”.
“É mesmo esse o caso?”, perguntou Zeller. “Poderia explicar sua posição sobre isso? Considera que o abuso sexual na Igreja é sistêmico?”
Em resposta, Leão disse que várias vítimas falaram sobre abusos sistêmicos.
“Sem querer contradizer ninguém, pois acho isso muito importante”, disse Leão, ele prefere “expressar isso de uma maneira diferente, embora eu tenha falado sobre algumas organizações dentro da Igreja que, às vezes, por assim dizer, como sistema, têm sido abusivas”.
“O abuso sexual é, antes de tudo, um problema humano”, disse Leão. “Quando acontece dentro da Igreja, ele ganha uma dimensão completamente diferente, porque a vida de fé das pessoas fica profundamente ferida e, às vezes, até destruída.”
“Conversei com eles sobre como a Igreja, de certas maneiras, tem sido vista como responsável”, disse Leão, “mas da mesma forma que a Igreja, acredito, é uma parte importante para ajudá-los a encontrar a cura.”
O Crux Now entrou em contato com vários funcionários atuais e antigos de alto escalão do Vaticano para avaliar a reação às declarações do papa dentro e nos arredores do Vaticano, e as reações foram diversas.
As pessoas com quem entramos em contato falaram em condição de anonimato, pois não estavam autorizadas a se pronunciar.
Um deles descreveu a resposta do papa sem rodeios como “não surpreendente, mas decepcionante”, enquanto outro observou como as declarações do papa em Lourdes e às vítimas que ele encontrou lá “parecem confirmar sua consciência sobre questões sistêmicas”.
Um ex-alto funcionário do Vaticano afirmou que as declarações do papa demonstram que ele está “aceitando a realidade jurídica: existem muitos, muitos casos de abuso por parte de diversos funcionários ao redor do mundo”.
“Diferentes países têm leis diferentes, e alguns estão até mesmo mudando suas leis, incluindo a revogação dos prazos de prescrição”, para criar “janelas de retroatividade”.
“O Papa Leão compreende isso”, disse o ex-funcionário, “e deve ter cuidado ao ser questionado sobre assuntos jurídicos em um avião.”
Leão XIV é, acima de tudo, cauteloso – e ele não está errado ao afirmar que o abuso (e o seu acobertamento) é, antes de mais nada, um problema humano – mas é um problema da Igreja, e isso significa que é um problema dele.
Como outros já disseram repetidamente – incluindo o editor-chefe do Crux Now – a crise de abuso e acobertamento não terminará enquanto não houver uma reforma na cultura de liderança clerical e hierárquica, e essa reforma exige procedimentos verdadeiramente transparentes e ágeis.
Sem elas, até mesmo pequenos deslizes sexuais cometidos por clérigos – coisas que são definitivamente pecados, mas definitivamente não crimes – parecerão muito graves aos olhos dos fiéis, já exaustos por anos de escândalos.
A opacidade também permite que alguns indivíduos muito mal-intencionados saiam impunes de atos muito graves, às vezes por muito tempo, como o caso Rupnik ilustra amplamente.
Isso se torna ainda mais evidente quando a falta de transparência nos procedimentos se alia a atitudes arraigadas na sociedade e na cultura de liderança da Igreja, que ignoram a forma como as dinâmicas de poder espiritual, psicológica e sexual estão interligadas.
O fim do começo
Leão XIV é um tomador de decisões cauteloso e ponderado, um institucionalista por caráter e temperamento, um administrador talentoso e um pastor genuinamente sensível.
Ele também é um líder de opinião – como demonstra sua liderança moral global durante a revolução da IA, em curso e cada vez mais tumultuosa – e um observador perspicaz da natureza humana.
Nas últimas semanas, porém, surgiram problemas que vieram à tona ou foram levados ao seu conhecimento, e que não vão desaparecer, exigindo atenção.
“Que você viva em tempos interessantes” é uma expressão apocrifamente atribuída a uma antiga fonte chinesa cuja origem ninguém conseguiu comprovar.
Os tempos são, sem dúvida, interessantes.
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