Vítimas de abusos de Rupnik denunciam falta de transparência do Vaticano

Marko Rupnik | Foto: Centroaletti/Wikimedia Commons

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23 Julho 2026

O padre Marko Ivan Rupnik, ex-jesuíta de projeção mundial como artista de mosaicos e como teólogo, terá sido absolvido de acusações múltiplas de abusos sexuais e de poder? A informação difundiu-se nos últimos dias em Roma e em círculos do Vaticano, causando perplexidade e inquietação. A advogada das vítimas acaba de enviar uma carta ao prefeito do Dicastério para a Doutrina da Fé, na qual faz denúncias graves, num caso que já de si é de muita gravidade.

A informação é publicada por 7 Margens, 21-07-2026.

Em causa está saber o que se passa com a reabertura do processo dos abusos de Rupnik, que a então Congregação para a Doutrina da Fé tinha dado por prescrito em 2022 e que o Papa Francisco mandou reabrir, no final de outubro de 2023, na sequência de alguns alertas lançados pela Comissão Pontifícia para a Proteção de Menores e Pessoas Vulneráveis.

Já em 2024, o Dicastério para a Doutrina da Fé, a quem cabe este tipo de matérias, anunciou estar a debater internamente o que entender por ‘abuso espiritual’ e, no ano de 2025, ficou a saber-se que tinha finalmente sido constituído um painel de juízes para julgar as acusações contra Rupnik.

Desconhece-se o que decorreu entretanto. Algumas das vítimas enviaram os seus relatos, mas da parte do Dicastério aparentemente não se deram passos visíveis. Volta e meia alguns meios de comunicação vinham a terreiro perguntar o que se passava. Com o tempo, alguns observadores iam deixando no ar a suspeita de que o cenário mais previsível seria tentar fazer esquecer o caso.

Até que esta segunda feira, 20 de julho, o site ultraconservador Messa in Latino deu conta de que “rumores insistentes e muito credíveis” indicavam que “o julgamento criminal, em andamento no Vaticano, contra o padre Marko Ivan Rupnik teria terminado com um resultado a ele favorável”.

Seja ou não fundamentado o boato veiculado por essa publicação, nesta terça feira, 21, o jornal La Stampa noticiava que, através da sua advogada, Laura Sgrò, cinco vítimas do ex-jesuíta Rupnik que apresentaram queixas, dirigiram ao cardeal prefeito da Doutrina da Fé, Víctor Manuel Fernández, uma carta em que, depois de aludirem à insistência do boato da absolvição, observavam: “[Não houve] qualquer confirmação por parte de órgãos credenciados, mas também nenhum desmentido.”

Assumindo o seu papel de defensora, Laura Sgrò passa, de seguida, a apresentar as suas razões de queixa do Dicastério dirigido pelo cardeal Fernández: “As minhas assistidas estão muito consternadas e magoadas. Nunca foram notificadas de nada, nem mesmo através de mim, sobre qualquer coisa relativa a este processo, do qual se sussurra tudo e, de certo, não se sabe nada. Como é possível tudo isto? Como pode conciliar-se o que está a acontecer com o conceito de direito, de verdade, de justiça, de equidade? Com as palavras que o Santo Padre dirige continuamente a favor das vítimas de abusos?”

A advogada recorda na sua missiva ter escrito várias mensagens ao prefeito, sem nunca ter tido resposta. Diz ter pedido uma conversa telefónica com um funcionário superior do Dicastério, que nomeia, tendo sido recambiada para um endereço eletrônico, através do qual nunca teve resposta às suas comunicações. “Acredito, e não sou a única a acreditar, que o que está a acontecer é uma violência adicional contra as minhas assistidas, cuja ferida ainda está viva e nem sequer minimamente cicatrizada”, acrescenta.

Antes de dizer ao cardeal que as representadas “se sentem abandonadas e traídas, vítimas, mais uma vez, de um sistema que nunca as acolheu, protegeu ou confortou”; que a Igreja, tal como as vítimas, precisa de transparência, de justiça, de verdade” e que as suas assistidas “não pretendem abdicar assim tão facilmente da justiça, nem dar um passo atrás no que toca a ver reconhecido o mal que sofreram”, Sgrò coloca ao Dicastério as questões que entende ter direito a ver respondidas:

“Peço-lhe portanto, mais uma vez, Eminência, que dê resposta a questões mínimas, basilares quando se está perante um processo penal que envolve vítimas que denunciaram pela primeira vez há mais de trinta anos:

  • O processo começou?
  • Se sim, qual é atualmente o ponto da situação?
  • Quem são os juízes?
  • Que destino tiveram os pedidos de admissão como partes ofendidas no processo, apresentados pelas minhas assistidas?
  • Porque é que estas mulheres não foram ouvidas como testemunhas?”

São perguntas que ficam a aguardar resposta.

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