30 Setembro 2026
O crime organizado, o narcotráfico, a indústria extrativista – mineração ilegal, exploração madeireira, agronegócio – assim como a falta de proteção por parte do Estado fizeram da América Latina, hoje, a região mais letal para as pessoas defensoras do meio ambiente e do território.
A reportagem é de Aleida Rueda, publicada por SciDev.Net, 23-09-2026.
Um novo relatório publicado há alguns dias pela organização Global Witness revela que, em 2025, pelo menos 124 pessoas foram assassinadas por proteger suas terras e seus meios de subsistência. Entre elas, 85% eram da América Latina, sobretudo de cinco países: Colômbia, Brasil, Honduras, México e Guatemala.
Para a organização, as pessoas defensoras do meio ambiente e do território são “aquelas que adotam uma posição firme e pacífica contra a exploração injusta, discriminatória, corrupta ou prejudicial dos recursos naturais ou do meio ambiente”, afirma o documento.
Tudo isso pode lhes custar a vida. De 2012, quando foi publicado o primeiro desses relatórios, até 2025, a Global Witness identificou 2.375 assassinatos e desaparecimentos de defensores e defensoras em todo o mundo. E, a cada ano, a região latino-americana lidera a lista.
Uma das causas sempre foi a oposição a projetos extrativistas, como a mineração ou a construção de hidrelétricas, mas agora os ataques se agravaram com o aumento de poder do crime organizado e o clima de corrupção e impunidade em toda a região. Nos países com mais agressões, a Global Witness relata vínculos com grupos criminosos organizados ou pistoleiros em mais de um terço dos casos.
“Na América Latina persistem os conflitos territoriais e observamos uma ausência de proteção do Estado e altos níveis de impunidade”, disse Juliana Vélez Echeverri, responsável sênior pelas campanhas da Global Witness e colaboradora da pesquisa, ao SciDev.Net.
“Identificamos mais de 100 assassinatos na região em 2025, mas reconhecemos que esse é um número mínimo porque há muitos casos que não podem ser verificados ou que não são denunciados. E isso também é determinado pelos contextos na América Latina, onde há repressão contra as comunidades”, acrescentou.
Um exemplo é a Nicarágua. De acordo com o CIVICUS Monitor, plataforma internacional que avalia o status das liberdades civis e o espaço da sociedade civil em quase 200 países e territórios, esse país da América Central foi classificado como “fechado”, a categoria mais repressiva da classificação do CIVICUS.
“Dos 15 países em que registramos assassinatos, 10 foram classificados como ‘repressivos’ pelo CIVICUS Monitor”, afirma a Global Witness. Isso significa que as vítimas e os grupos da sociedade civil sofrem represálias por denunciar e documentar abusos, o que dificulta o acesso a dados confiáveis e aumenta o risco da subnotificação.
O relatório também identifica os tipos de vítimas mais frequentes: indígenas (842), camponeses (614), outros (496), agentes públicos (99) e afrodescendentes (95). Na Colômbia, por exemplo, das 39 mortes registradas em 2025, 35 decorreram de conflitos pela terra; metade das vítimas era indígena e a outra metade, camponesa. Além disso, 17 desses casos estiveram supostamente relacionados ao crime organizado e outros cinco a pistoleiros.
“A Colômbia aparece no topo da lista nos últimos anos devido à persistência dos conflitos territoriais. São pessoas indígenas e camponesas que estão na linha de frente defendendo seu território diante de diferentes usos da terra”, confirma Vélez Echeverri.
É também uma questão ambiental
A presença do crime organizado e sua relação com as agressões e ameaças vividas por muitos defensores da terra também têm efeitos ambientais, afirma o relatório.
Por exemplo, na região peruana de Ucayali, as redes do narcotráfico entraram em áreas naturais protegidas e territórios indígenas para escapar dos controles estatais e cultivar coca para atender à alta demanda. Segundo o relatório de 2025 da Organização das Nações Unidas, em 2013, havia 17 milhões de consumidores de coca no mundo. Em 2023, esse número já chegava a 25 milhões.
De acordo com a Global Witness, em Ucayali, as plantações ilegais de coca cresceram mais de 600%, entre 2019 e 2023, alcançando 12 mil hectares, o que fragmentou florestas primárias que, até uma década atrás, permaneciam intactas.
“Pessoas de fora do nosso território, que não têm nada a ver com o nosso povo, entram escondidas, fazem plantações ilegais de coca e praticam o narcotráfico produzindo a droga dentro do território”, afirmou Segundo Pino Bolívar, comandante da Guarda Indígena do Povo Kakataibo, no Peru, ao SciDev.Net.
Nessa mesma reserva Kakataibo, destinada à proteção de indígenas em isolamento voluntário, a Global Witness relata a existência de pistas de pouso clandestinas, além de laboratórios de processamento e tanques de maceração, que provocam a perda da cobertura florestal e contaminam as bacias hidrográficas com insumos químicos pesados.
Além disso, denuncia que esse tipo de atividade ilícita atrai outras igualmente prejudiciais ao ecossistema, como a mineração ilegal de ouro, a extração madeireira não regulamentada, a pesca ilegal e o tráfico de fauna silvestre.
Autoproteção
Diante da falta de proteção do Estado, muitos grupos de defensores ambientais optaram por utilizar mecanismos de autoproteção e fortalecer seus saberes ancestrais.
“Nossa resistência existe desde sempre, já dura décadas, mas às vezes nos sentimos abandonados pelo próprio Estado ou pelo próprio governo, porque nossas reivindicações e nossos direitos não foram respeitados e foram violados. (...) É melhor cuidarmos uns dos outros e nos autoprotegermos”, afirma Pino Bolívar.
Um exemplo são as Guardas Indígenas, grupos organizados de homens, mulheres e crianças que monitoram o território para identificar invasões ou danos ambientais. “Não são movimentos novos, são suas próprias práticas ancestrais”, afirma Vélez Echeverri.
Como as florestas protegidas por essas comunidades abrigam espécies de uso medicinal tradicional e cultural, como a caoba, a yacuchapana (Terminalia oblonga), a ayahuasca (Banisteriopsis caapi) e o pijuayo (Bactris gasipaes), protegê-las também implica resguardar reservas de biodiversidade genética, afirma.
Além disso, a defesa dos territórios produz um efeito climático. A Global Witness aponta que, entre os anos 2000 e 2023, o território ancestral Kakataibo perdeu quase um quinto de sua cobertura arbórea. Se as tendências provocadas pelas invasões continuarem, perderá mais de um quarto de sua área florestal, liberando gigatoneladas de emissões de carbono na atmosfera, agravando a crise climática global.
Para Vélez Echeverri, é importante insistir na proteção daqueles que defendem esses territórios, mas a partir de uma perspectiva de justiça ambiental, e não meramente instrumental.
“Esses lugares são importantes para lutar contra as mudanças climáticas, mas não queremos dizer que é preciso proteger os defensores porque estão prestando um serviço ao restante da humanidade. Essas pessoas estão lutando por seu território, por seu lar e pelo direito de viver em um lugar digno”, concluiu.
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