“Precisamos confrontar a realidade do que é genocídio”. Entrevista com Joe Sacco

Fonte: Wikimedia Commons

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26 Setembro 2026

Coautor, com Chris Hedges, de Réquiem para Gaza, o cartunista Joe Sacco discute, nesta entrevista, a situação na Palestina e demonstra como o genocídio afeta a democracia e as liberdades dos países do Ocidente.

A entrevista é de Hervé Kempf, publicada por Reporterre, 25-09-2026. A tradução é do Cepat.

Joe Sacco é um renomado cartunista que praticamente inventou a história em quadrinhos reportagem, desenvolvendo seu trabalho a partir de investigações in loco sobre guerras e tragédias humanas. Há mais de trinta anos, ele trabalha com a Palestina e acaba de publicar, com Chris Hedges, Requiem pour Gaza (Futuropolis), um livro de histórias em quadrinhos baseado em depoimentos de famílias que fugiram de Gaza, coletados em um campo de refugiados palestinos no Egito.

Eis a entrevista.

O que está acontecendo em Gaza?

É um genocídio. E esse genocídio não acabou. Dez pessoas foram mortas hoje, 15 ontem. O ritmo dos acontecimentos é mais lento, o que permite à mídia se convencer de que “a história acabou ou está sob controle até certo ponto”. Como resultado, o assunto não recebe mais a mesma atenção de antes. E outros eventos se desenrolam no mundo, desviando a atenção das pessoas. Os palestinos em Gaza vivem em condições deploráveis, principalmente em tendas ou em prédios destruídos. Estão praticamente à mercê dos elementos. Gaza é um mar de entulho.

E nesse entulho, há todo tipo de substâncias químicas tóxicas, poeira e amianto. Há também o que está acontecendo na Cisjordânia [território ocupado por Israel desde 1967, que, juntamente com Gaza, forma o território palestino], com a contínua expropriação de terras, a destruição de olivais, a proibição da colheita de azeitonas, a ocupação de prédios e o crescente fluxo de colonos. O exército israelense protege os colonos enquanto eles cometem esses abusos.

Você faz uma distinção entre o que está acontecendo na Cisjordânia e o que está acontecendo em Gaza?

É a mesma lógica, mas acho difícil imaginar algo pior do que o que aconteceu em Gaza. Talvez porque os colonos e os palestinos vivam relativamente perto uns dos outros, seja difícil simplesmente bombardear as pessoas até que desapareçam. Mas os israelenses poderiam expulsar os palestinos ou confiná-los em pequenos bantustões [1]. Os palestinos já vivem em bantustões por causa do sistema de postos de controle que os impede de se deslocarem de um lugar para outro.

Os bantustões, como antigamente na África do Sul. Podemos considerar que existe um apartheid na Palestina?

Evidente que é um apartheid. Há uma rede rodoviária para os colonos e outra para os palestinos. Há carteiras de identidade que permitem que as pessoas vão para cá ou para lá, ou para lugar nenhum. Há todo tipo de obstáculo para acessar atendimento médico, para ir à escola. É um sistema completamente separado. Os israelenses querem realizar uma anexação de fato.

Como podemos explicar essa situação?

O que está acontecendo diz muito sobre a comunidade internacional, e principalmente sobre o Ocidente. Testemunhamos o colapso do direito internacional estabelecido após a Segunda Guerra Mundial. Isso não afeta apenas os palestinos. Afeta-nos também, na medida em que há impunidade para Israel, algo que o Ocidente aceita. Quaisquer que sejam as falhas do sistema jurídico internacional, ele desapareceu. Então, que proteções temos? Algo pode nos acontecer? Não há nenhum recurso?

E então vimos uma tentativa real nas sociedades ocidentais de sufocar a liberdade de expressão. Nos Estados Unidos, os sistemas universitários muitas vezes cederam aos desejos de Trump e de sua administração. As pessoas que protestam têm medo de perder seus empregos. A ideia é que, se você critica Israel, você é antissemita. Isso é obviamente absurdo. E tem sérias implicações para a liberdade de expressão e para aqueles que se opõem ao genocídio.

As instituições liberais estão sob ataque de nossos próprios governos. A mídia está com medo. Nos Estados Unidos, uma grande parte da população agora simpatiza mais com os palestinos do que com os israelenses. Isso não aconteceu por meio de reportagens da mídia, mas apesar da mídia e do blackout midiático imposto por Israel e seus apoiadores, porque as pessoas recebem imagens e vídeos sem filtro de Gaza por meio de plataformas como o TikTok.

A grande mudança não começou em 11 de setembro de 2001, com o ataque ao World Trade Center?

Poderíamos traçar um fio condutor desde o Patriot Act, que em 2001 marcou o início da erosão das liberdades civis estadunidenses, até as intervenções estadunidenses no Iraque e, em seguida, o que aconteceu na Síria e na Líbia.

Ministros israelenses disseram que os palestinos não são seres humanos. Ao apoiar Israel, nossos governos aceitam essa desumanização e a noção de que nem todas as vidas são iguais. Isso não enterra o ideal de universalismo estabelecido durante o Iluminismo?

Sim, absolutamente. Devemos lutar para preservar o que há de bom no Iluminismo: os direitos humanos, a ideia de que todos os seres humanos são criados iguais. Sempre houve exceções – os palestinos foram uma exceção, os árabes, uma exceção, os africanos, uma exceção. Poderíamos ter esperado que conseguiríamos tornar essas ideias verdadeiramente universais. Mas esse período, seja qual for o nome que lhe dermos – o Iluminismo – acabou.

O que podemos fazer?

Gostaria de dizer que pressionar nossos governos pode mudar as coisas. A grande maioria dos estadunidenses agora pensa: “O que Israel está fazendo é inaceitável. Isso não deveria estar acontecendo com os palestinos”. Se vivêssemos em uma democracia onde nossos representantes defendessem as opiniões do povo, talvez algo pudesse mudar. Mas eles representam nossas opiniões ou estão a soldo de lobbies como o AIPAC [The American Israel Public Affairs Committee – Comitê Americano de Assuntos Públicos de Israel, um grupo de pressão criado em 1963 nos Estados Unidos para apoiar politicamente Israel]?

Pessoas como Donald Trump e Pete Hegseth [secretário de Guerra dos EUA] e Marco Rubio [equivalente ao ministro das Relações Exteriores] agem como se representassem os Estados Unidos ou o Ocidente. Não representam. Representam apenas a si mesmos e seu próprio fanatismo. Então, o que há para salvar do Ocidente? Não quero que Trump seja sucedido por outro, e depois por outro. Isso precisa parar para que possamos construir algo novo.

Ameaça fascista, caos climático… estamos começando a entender que não há refúgio. Em Gaza, ainda menos do que em qualquer outro lugar…

Aos olhos de quem está no poder, somos peões. Hoje, eles estão lutando por recursos limitados como petróleo e gás natural, que estão alimentando a crise climática. Em algum momento, tudo isso vai acabar. O que eles farão então? Lutarão por água, eu acho. Fiz uma reportagem sobre exilados africanos que chegam à Europa, e um homem de Gana me contou que, na sua aldeia, eles costumavam viver graças ao rio, mas ele se transformou em um riacho por causa das mudanças climáticas. Então, as pessoas se mudaram para a cidade.

Será que os governos vão refletir sobre isso moralmente e dizer a si mesmos: “Nossos recursos são muito limitados. Agora temos que mudar nosso modo de vida. Como vamos fazer isso?” Em vez disso, eles nos dizem: “Na Groenlândia, o gelo está derretendo”. Lá existem recursos. Como posso me apoderar da Groenlândia e lucrar com isso? Eles estão tentando encontrar uma vantagem no colapso. É uma loucura. O cidadão comum não quer que isso aconteça.

Hoje, existe um enorme abismo entre essa pequena minoria que nos governa e a vasta maioria da população. Isso não explica a situação atual?

As pessoas que nos governam querem o poder a qualquer custo e não se importam com o resto do mundo. Trump e muitos bilionários como Elon Musk e Mark Zuckerberg exibem um comportamento sociopático. Não importa o quanto de mal causem à sociedade, não temos voz. A ideia de que existe um contrato social no qual nós, como cidadãos, podemos moldar nosso futuro parece ter sido abandonada.

Como podemos reverter esse mecanismo?

A resposta mais simples é que devemos nos organizar e lutar por nossos direitos. Se for possível fazer isso através das urnas, vamos fazê-lo através das urnas. Martin Luther King Jr. não se candidatou a um cargo público, mas conseguiu mudar as coisas. Parece que a única maneira de nossos sistemas funcionarem é quando pressionamos os políticos, quando os destituímos, quando os humilhamos, quando vamos às ruas.

Estamos em uma situação em que ou vamos para as ruas ou morremos. Ao longo da história, movimentos derrubaram sistemas inteiros. A Revolução Francesa acabou com a monarquia. Espero que os números façam o fiel da balança pender para o outro lado.

Mas hoje, tudo gira em torno do capitalismo, e não existe realmente uma abordagem coletiva. Nos Estados Unidos, as pessoas estão atomizadas; elas não pensam coletivamente. Na década de 1930, pensavam. Os trabalhadores eram bastante unidos, realizavam ações sindicais e ocupavam as fábricas. A única maneira de confrontarmos o sistema, se é que queremos confrontá-lo, é através da não violência, coletivamente. Caso contrário, acabaremos com pequenos grupos como os da década de 1970, como a Fração do Exército Vermelho [uma organização de extrema esquerda na Alemanha que praticava assassinatos políticos], que decidirão entre si, dez ou doze deles, que a maneira de mudar o mundo é explodir isto ou aquilo. Talvez a decisão seja responder à violência com violência. Mas deveria ser uma decisão coletiva. Cabe a nós decidir.

Em Gaza, a não violência não funcionou: durante a “Grande Marcha do Retorno” de 2018, uma marcha pacífica perto da fronteira que reuniu homens, mulheres e crianças palestinos, quase 200 pessoas foram mortas pelas forças israelenses.

A não violência funciona quando há uma resposta. A esperança era que a comunidade internacional, que constantemente diz aos palestinos para serem não violentos, reagisse pressionando Israel para acabar com isso, ou pelo menos conceder aos habitantes de Gaza algum espaço para viver e a oportunidade de desfrutar de algumas de nossas liberdades.

Mas a comunidade internacional não fez nada, e a mídia mal cobriu o assunto. Essa manifestação não mudou nada. Precisamos pensar em como as pessoas reagem quando são encurraladas. Não sei como o Hamas decidiu o que fazer em seguida, mas ele reagiu com muita brutalidade.

Qual é a sua opinião sobre o dia 7 de outubro de 2023?

Foi um ato de resistência, mas também foi uma atrocidade. Crimes foram cometidos. Fiquei profundamente chocado com o número de pessoas mortas no festival de música naquele dia. Pensando bem, não surpreende que as pessoas quisessem vingança, mas isso não justifica a reação. Fiquei pasmo.

E se Israel simplesmente tivesse parado para que todos pudessem respirar, talvez tivéssemos uma impressão muito diferente de todos esses eventos. Talvez tivéssemos conseguido isolar o Hamas. Mas Israel lançou, em questão de horas, uma campanha de bombardeio em massa e, além das atrocidades de fato cometidas, acrescentou acusações que se revelaram pura invenção.

Israel afirma que a Palestina é terra sagrada, a terra de seus ancestrais, mas destrói o solo, as árvores, a água, as terras agrícolas. Como você interpreta esse ato de envenenar e destruir o que alega ser sua terra sagrada?

Não tenho resposta para essa pergunta. Eles estão envenenando a própria terra, semeando morte e destruição. Então, como pode ser sagrada?

Onde você vê esperança no mundo hoje em dia?

Não quero que tenhamos ilusões. Precisamos confrontar a realidade do que é um genocídio, o que nossos governos ocidentais estão fazendo. E precisamos expandir nossos horizontes o máximo possível para encarar isso. O que eu não gosto na palavra “esperança” é que, às vezes, ela pode nos impedir de enxergar toda a escuridão da situação. Só podemos começar a lidar com isso se olharmos para a situação de frente e dissermos: “Certo, é isso que está acontecendo. Como podemos mudar isso?” Espero que as pessoas confrontem todas as implicações do que está acontecendo, questionem e, então, lidem com isso de todas as maneiras possíveis.

Outras coisas me deram um pouco de esperança. Quando Chris Hedges e eu conversávamos com palestinos que fugiram do inferno de Gaza, como relatamos no livro, vimos que eles estavam realmente tentando manter um senso de dignidade e amor por suas famílias. Eles não estão completamente destruídos; não é cada um por si. Eles estão se agarrando à vida, por si mesmos e por aqueles que estão ao seu redor, da melhor maneira possível. Eles se importam profundamente com o que está acontecendo com seus entes queridos. Ver o espírito humano sobreviver nesse nível me dá um pouco de esperança.

E outra coisa que me dá esperança é que a mentalidade dos estadunidenses mudou. O genocídio os levou a repensar o que está acontecendo. Quando os Estados Unidos e Israel começaram a bombardear o Irã, as pessoas não concordaram. É a primeira guerra de que me lembro na história estadunidense em que as pessoas não foram movidas por um patriotismo cego. Isso me dá esperança de que as pessoas estejam começando a abrir os olhos. Mas veja o que foi preciso para que elas despertassem: um genocídio.

Nota

[1] Os bantustões eram territórios criados sob o regime do apartheid na África do Sul, reservados para populações negras. Por extensão, o termo se refere a enclaves criados onde populações discriminadas com base em sua etnia são confinadas.

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