25 Setembro 2026
Na última semana, o elDiario.es verificou três incidentes em que migrantes, dois deles menores de idade, foram atingidos por spray de pimenta ou gás lacrimogêneo durante suas atividades diárias.
A reportagem é de Gabriela Sánchez, publicada por El Diario, 23-09-2026.
A presença militar foi sentida mais intensa do que o habitual nas naves de Tarajal quando dois veículos das Forças Armadas empreendiam sua saída do polígono industrial. Ao vê-los, um jovem marroquino, atemorizado, baixa a cabeça e trata de se afastar o máximo possível dos uniformizados. As vans se dirigem lentamente ao chamado “mirante da fronteira”, uma curva com vistas para o perímetro onde normalmente se acumulam grupos de pessoas, muitos migrantes, a observar a atividade da aduana. Um dos militares mira firmemente para fora com a janela baixa. Dois meninos se separam de repente e giram a cabeça. Um deles cobre os olhos e corre para pedir ajuda: “Os militares acabaram de jogar gás em nós pela janela. Minha boca e meu rosto estão ardendo muito”, alerta o rapaz naquele mesmo instante ao elDiario.es.
O jovem que toca o rosto angustiado tem 17 anos. Chama-se Nawfal. Nervoso, retira os óculos que evitaram o contato direto do produto químico com seus olhos e sinaliza suas lentes. Nelas podem ser vistas pequenas gotas de aerossol espalhadas pelos vidros. Sua boca e bochechas começam a ficar vermelhas como reação ao gás que acabaram de borrifar enquanto caminhava pela rua com um amigo em direção ao assentamento onde dormem. “Queríamos comprar algo para comer no Mercadona, só estava andando, olhando o celular, e eles lançaram o spray do carro. Por que fazem isso conosco?”.
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elDiario.es comprovou naquele momento a presença de gás de pimenta ou gás lacrimogêneo naquele ponto. Segundos antes do encontro com o menor, a repórter que assina esta informação sentiu coceira na garganta, secura intensa e repentina, os efeitos habituais após a inalação deste produto. A área onde ocorreu a agressão estava tranquila, sem nenhuma alteração de segurança; havia alguns migrantes espalhados observando a fronteira e um par de cavalos caminhando em direção às naves, por se tratar de um ponto habitual de passagem.
Enquanto o governo anunciava a abertura de uma investigação interna sobre denúncias de agressões, revistas e roubos cometidos por parte de patrulhas militares, além das informações publicadas pelo elDiario.es, os migrantes continuam denunciando ações violentas ou o uso de material antidistúrbios contra eles quando realizam atividades rotineiras como dormir, caminhar pela rua, buscar água ou comprar comida. O Ministério da Defesa não quis responder às perguntas deste meio sobre as agressões com gás.
Embora cerca de uma dezena de jovens marroquinos tenham percebido que os níveis de violência “caíram” após a publicação de suas denúncias neste meio e o anúncio posterior da investigação interna por parte do governo, muitos continuaram apontando práticas agressivas contra os migrantes, incluindo os menores. As Forças Armadas não desempenham funções policiais, de segurança cidadã ou de ordem pública que correspondam aos corpos civis, como a Polícia ou a Guarda Civil.
Na última semana, elDiario.es comprovou três episódios — dois deles contra menores — nos quais militares borrifaram gás de pimenta ou lacrimogêneo em migrantes durante suas atividades cotidianas, e recebeu mais depoimentos de jovens marroquinos que este meio ainda não pôde verificar de maneira independente. Um dia depois de uma patrulha de militares lançar gás contra Nawfal enquanto voltava de fazer compras, Reda (nome fictício) voltou para o acampamento da praia do Trampolín depois de ter sido entrevistado pelo elDiario.es nos arredores da Chefatura Superior de Polícia, onde tentou registrar-se como menor de idade. Ao passar pelas imediações do Porto de Ceuta, explica, um soldado lançou gás de pimenta em seus olhos.
Minutos depois, o menor, de 17 anos, escreveu uma mensagem a este meio: “Enquanto caminhava em direção às barracas onde durmo, alguns soldados com boinas vermelhas me abordaram e me borrifaram com gás lacrimogêneo. Agora estou nas barracas e sinto uma ardência intensa nos olhos”, alertou. As “boinas vermelhas” que Reda descreve coincidem com o tarbush utilizado pelo Grupo de Regulares de Ceuta, uma peça de feltro vermelho de forma cilíndrica acompanhada por uma borla preta. Naquele mesmo momento, o rapaz enviou várias imagens que mostravam seus olhos avermelhados, especialmente o direito. “Eram quatro. Quando nos encontramos frente a frente com um deles, ele me borrifou”, acrescentou. “Preciso de ajuda. Estou morrendo por causa das queimaduras”.
Depois de meia hora, a vermelhidão havia diminuído, mas Reda ainda não conseguia abrir o olho direito, enquanto a pálpebra estava levemente inchada, como comprovou o elDiario.es. O menor teve que pedir ajuda a um agente da Polícia Local de Ceuta, que lhe forneceu uma solução que aliviou a ardência, explica. Já sob sua barraca e rodeado de seus companheiros, o adolescente mostrou o estado de seu olho a este meio. A congestão ocular permanecia, mas a irritação havia diminuído.
“Não tinha acontecido nada. Só estava andando com um amigo, também menor. De repente, eles vieram, começaram a gritar em espanhol coisas que não entendíamos e me borrifaram. Saí correndo para chegar à barraca”, diz o adolescente, já mais tranquilo e protegido junto a outros migrantes que costumam estar atentos a ele no assentamento. Como outras centenas de menores em Ceuta, Reda sobrevive nas ruas da cidade, apesar de sua carteira de identidade marroquina demonstrar que tem 17 anos. Embora a Lei do Menor e a Lei de Estrangeiros obriguem o Estado — sob a responsabilidade específica dos governos autônomos — a identificar e proteger, em um centro de acolhimento, os menores desacompanhados de um adulto no momento em que se tenha conhecimento de sua situação.
Desde o Centro para a Defesa dos Direitos Humanos, Iridia explicou alguns dos limites que existem para o uso de gás de pimenta por parte das forças e dos corpos de segurança do Estado. Segundo as orientações das Nações Unidas, o manual de uso de armas menos letais irritantes, como a pimenta, permite seu uso “para incapacitar ou dissuadir um agressor violento ou para ajudar a efetuar a detenção de um suspeito que resiste violentamente”.
“Somente deve ser usado quando as forças da ordem têm motivos para acreditar que existe uma ameaça iminente de dano”, resume Anaïs Franquesa, diretora do centro e advogada criminalista. “Esses guias estão pensando mais em situações de ordem pública, mas o gás também faz parte do equipamento habitual em alguns corpos policiais. Para a polícia ou o exército, é óbvio que o uso proporcional da força a que estão obrigados implica que uma arma dessas características só pode ser usada para repelir uma situação de violência”, detalhou a jurista. Por outro lado, “a ideia de usar gás com o objetivo de castigar, discriminar ou humilhar poderia constituir tortura ou um delito contra a integridade moral em função das circunstâncias”.
O guia da Organização para a Segurança e a Cooperação na Europa (OSCE) sobre o uso de equipamentos antidistúrbios também alerta que a infância é especialmente sensível ao uso de irritantes químicos. “As crianças são inequivocamente vulneráveis aos efeitos psicológicos do uso de gás de pimenta”, afirma o documento.
Em um terceiro caso ocorrido no feriado de 18 de setembro, por volta das 6h00 da manhã, uma van militar entrou em uma área privada do polígono de Tarajal — apesar de a grade estar fechada inicialmente. A patrulha apareceu junto a um carro vermelho onde dormiam alguns migrantes. Sete militares cercaram o veículo e alguns de seus atos foram registrados em um vídeo ao qual o elDiario.es teve acesso.
Posteriormente, borrifaram gás lacrimogêneo contra aqueles que estavam em seu interior. “Os soldados borrifaram gás lacrimogêneo e agora não conseguem enxergar bem”, relata uma fonte no assentamento sobre uma das vítimas. Depois de ser atendido por vários ativistas, seus sintomas foram aliviados, segundo o depoimento de um dos rapazes.
Marco Antonio Gómez, porta-voz da Asociación de Tropa y Marinería Española (ATME), declarou ao elDiario.es: “Não temos conhecimento [desses fatos]. Não queremos dizer que não aconteçam, mas não há nenhuma evidência legal ou jurídica que tenha chegado até nós. Tampouco vídeos nem fotografias. No entanto, há vídeos, fotografias, testemunhos e denúncias de migrantes sobre agressões cometidas por militares. Se houver algum militar que exceda suas funções no cumprimento de seu trabalho, a lei terá que ser aplicada”.
Todos os dias, Reda, assim como tantos outros rapazes, pergunta às pessoas que encontra pelas ruas se existe algum lugar que acolha menores como ele. Ainda não obteve resposta alguma. Longe de protegê-lo como a norma exige, a ação de alguns militares leva muitos menores a fugir quando encontram alguma patrulha perto deles. “O que mais me dá medo de estar na rua é que os militares me batam”, diz o rapaz, que menciona também as brigas que costumam acontecer na região do Trampolín entre os próprios migrantes como a segunda razão.
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