24 Setembro 2026
Vencedores do Oscar, Yuval Abraham e Rachel Szor reúnem relatos de 24 militares sobre mortes intencionais de palestinos.
A reportagem é de Gia Matheus Almeida, publicada por Brasil de Fato, 23-09-2026.
Estreia em 8 de outubro o documentário “Naza”, dos diretores israelenses vencedores do Oscar Yuval Abraham e Rachel Szor. A produção reúne depoimentos de 24 militares e integrantes da inteligência de Israel que, sob condição de anonimato, expõem a estratégia genocida adotada ao longo dos últimos três anos contra a população da Faixa de Gaza.
O título provocador do filme é uma sigla no idioma hebraico para “Nezek Agavi”, que significa “dano colateral”. Trata-se de um termo empregado frequentemente em contextos militares para explicar a morte de civis durante um bombardeio.
O documentário, no entanto, apresenta bastidores contundentes sobre como cada morte seria, na realidade, um objetivo planejado. E não um mero efeito acidental. Os entrevistados explicam que, ao tentar assassinar uma única pessoa supostamente ligada ao Hamas, contavam com sistemas de inteligência capazes de apontar quantos civis seriam mortos.
Um trecho usado na divulgação mostra um homem dizendo que, no maior ataque que realizou, recebeu autorização para matar ao menos 500 “danos colaterais”, enquanto buscava atingir um único alvo. Ele explica que não havia como precisar quantas eram crianças.
“Estratégia deliberada. Atos homicidas e políticos baseados na total desumanização dos palestinos. Os oficiais da inteligência israelense com quem conversamos nos explicaram como esse massacre é sistêmico”, disse Abraham, ao receber o Prêmio Especial do Júri no Festival de Veneza. O filme quebrou o recorde de mais longa ovação do evento, com 25 minutos de palmas ininterruptas, superando “A Voz de Hind Rajab”, outra produção sobre a matança perpetrada contra palestinos.
Ameaças do governo e da extrema direita de Israel
Após o lançamento da produção, os diretores, nascidos em Jerusalém, enfrentam ameaças de perder sua cidadania. O ministro da Cultura de Israel, Miki Zohar, disse na rede social X que já iniciou o procedimento para aplicar a punição e classificou o filme como “vil”, “chocante” e feito apenas “para arrancar aplausos do mundo antissemita”.
No mesmo dia, Zohar publicou um agradecimento a Benjamin Netanyahu por confirmar que daria andamento ao processo de cancelamento da cidadania. “Ordenei que seja apresentada uma lei para revogar a cidadania de qualquer pessoa que difame soldados das Forças de Defesa de Israel”, diz o primeiro-ministro do país no vídeo que acompanha a publicação.
O casal de diretores e seus familiares enfrentam ainda a fúria de apoiadores da extrema direita. Segundo o jornal israelense Haaretz, no mesmo dia em que Netanyahu fez o anúncio, dezenas de pessoas protestaram em frente à casa dos pais de Rachel Szor. O jornal afirmou que parte dos manifestantes chegou a gritar por “pena de morte aos traidores”.
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Segundo o jornal britânico The Guardian, um editorial do Haaretz afirmou, com preocupação, que os cineastas enfrentam perigo real para suas vidas em seu país. Ao mesmo tempo, outros jornalistas instigam ainda mais a fúria dos extremistas. Yehuda Schlesinger, do Canal 14, chegou a dizer ao vivo que ambos deveriam ser “perseguidos” e “caçados”.
O Exército de Israel publicou uma nota em que questiona a legitimidade do filme devido ao anonimato dos depoimentos. Ao mesmo tempo, afirmou que a produção será utilizada em investigações para apurar possíveis irregularidades.
Perseguidos e premiados
Nascidos em famílias de classe média israelenses, os jornalistas Yuval Abraham e Rachel Szor tornaram-se globalmente famosos em março de 2025, quando o primeiro filme de ambos venceu a maior honraria do cinema estadunidense: um Oscar para “No Other Land”, na categoria de Melhor Documentário em Longa-Metragem. Em seu percurso rumo à conquista, colecionou outros prêmios em festivais.
Codirigida pelos palestinos Basel Adra e Hamdan Ballal, a produção mostrou a resistência de Adra e de sua comunidade contra a expulsão de seu território na Cisjordânia entre 2019 e 2023. Yuval Abraham fala árabe e, há anos, acompanhava a situação na região e militava contra a opressão dos palestinos. Tornou-se assim amigo de Basel Adra, e ambos decidiram contar a história de Masafer Yatta, uma região de aldeias ao sul de Hebron, na qual Adra cresceu e onde enfrenta a opressão das forças militares israelenses.
O filme encerra de um jeito trágico. Dias após o ataque do Hamas em 7 de outubro de 2023, um primo de Adra, Zakaria al-Adra, que estava desarmado, é baleado por soldados israelenses na Cisjordânia.
Apuração e provas
Apesar das insinuações feitas por Israel de que os depoimentos exibidos no novo “Naza” seriam forjados, o filme expõe investigações já iniciadas por jornalistas palestinos e israelenses.
As tecnologias descritas eram capazes de monitorar prédios por semanas. As forças de inteligência chegavam a ouvir choros de bebês e outras vozes. Sabiam da presença de um grande número de civis e, ainda assim, prosseguiam com dezenas de mortes por um único alvo, quase sempre acusado de ser um combatente de baixa patente do Hamas.
Os depoimentos, inteiramente em hebraico e gravados no topo de prédios de Jerusalém, agregam maior confiabilidade aos relatos, mesmo com as distorções de voz feitas com inteligência artificial para dificultar a identificação dos agentes. O filme é ainda respaldado pela coprodução com o jornal britânico The Guardian, que publicou falas de sua equipe de jornalistas investigativos em defesa da apuração realizada.
Segundo o Ministério da Saúde de Gaza, mais de 73 mil palestinos já morreram devido aos ataques israelenses nesta guerra. Mais de 174 mil ficaram feridos.
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