15 Setembro 2026
No dia seguinte à exibição de Naza, que sacudiu o Festival de Cinema de Veneza - vinte e quatro minutos de aplausos, os mais longos já registrados no evento, e bandeiras palestinas e libanesas levantadas na Sala Grande - Yuval Abraham e Rachel Szor ainda estão no Lido.
Tendo já conquistado um Oscar por No Other Land, os dois cineastas israelenses concorrem ao Leão de Ouro com um documentário (que será distribuído na Itália pela I Wonder Pictures) resultante de quase três anos de investigação e dos depoimentos anônimos de 24 soldados e oficiais de inteligência.
"Naza" é a sigla que as FDI (Forças de Defesa de Israel) utilizam para designar o número previsto de baixas civis colaterais durante um ataque. O filme reconstrói, a partir de dentro, o sistema militar que levou à matança em massa dos civis palestinos em Gaza.
A entrevista é de Arianna Finos, publicada por La Repubblica, 12-09-2026.
Eis a entrevista.
Como vocês encontraram e verificaram suas fontes?
Abraham: O processo de checagem de fatos foi extremamente rigoroso e envolveu principalmente o The Guardian. Os sistemas descritos no filme já haviam sido citados em investigações do Local Call e +972 Magazine, e muitos elementos foram confirmados pelo New York Times e pelo Washington Post.
Entramos em contato com muito mais pessoas do que as vinte e quatro que aparecem no filme; nem todas concordaram em participar. Acusações tão graves não podiam se basear em apenas poucas fontes. Precisávamos de muitas vozes para reconstruir o sistema a partir de dentro. Confio no nosso trabalho e acredito que muito mais virá à tona ao longo dos anos.
Por que eles decidiram falar?
Abraham: Por vários motivos. Alguns sentem que fizeram algo errado; outros falam com uma indiferença espantosa, como se matar fosse algo normal; outros ainda parecem orgulhosos de suas realizações profissionais. Mas o filme não se concentra nas motivações deles, foca no sistema militar de matança.
Vocês mostram a vida cotidiana de Tel Aviv enquanto pessoas continuam morrendo em Gaza. Essa é uma forma de falar da dessensibilização em relação à violência?
Szor: Os operadores contam que conseguem ouvir o que acontece dentro dos apartamentos que estão prestes a bombardear: ouvem uma criança, a televisão, as pessoas conversando. Mostramos Tel Aviv porque os ataques partem do quartel-general militar, enquanto a vida ao redor segue quase normalmente. É por isso que, no final, era necessário mostrar Gaza: tudo isso ainda está acontecendo. Não queríamos que o público saísse do cinema sem encarar essa realidade.
No filme aparecem frases que lembram aquelas ouvidas durante o processo de Nuremberg. No entanto, tudo isso está acontecendo agora, e até mesmo o espectro do Holocausto parece assumir um significado diferente.
Abraham: É um tema abordado também por alguns soldados. Para os judeus e os judeus israelenses, o Holocausto é um trauma familiar; partes de nossas famílias foram exterminadas. Temos de decidir o que fazer com essa memória. Não estou dizendo que o que está acontecendo em Gaza seja a mesma coisa, mas é possível reconhecer mecanismos semelhantes de desumanização, padrões que se repetem nas atrocidades de massa e nos genocídios.
Primo Levi exerceu uma profunda influência sobre mim; ele descreveu como um ser humano pode ser reduzido a pó, a nada, a algo não humano. Quando dizemos 'nunca mais', não podemos considerar que isso é reservado apenas a nós: toda vida humana é sagrada, mesmo aquela dos palestinos em Gaza.
No filme, um oficial afirma que o exército israelense está combatendo dois inimigos: o terrorismo e a paz. O que isso significa?
Abraham: Tudo começa com a paz sendo vista como um inimigo. Perguntaram-me o que eu teria feito se fosse primeiro-ministro em 7 de outubro de 2023, diante do massacre de civis israelenses e dos reféns. Mas a verdadeira questão é o que um primeiro-ministro deveria ter feito vinte anos antes. A raiz reside na recusa de sucessivos governos israelenses em buscar a paz e aceitar um compromisso político. Israelenses e palestinos de esquerda alertam há muito tempo que, sem uma solução política, os eventos que estamos testemunhando acabariam ocorrendo.
Ministro de Israel quer tirar nacionalidade de cineastas premiados em Veneza https://t.co/InKsx0zmZ4
— Folha de S.Paulo (@folha) September 13, 2026
No filme, um oficial explica que a tarefa de sua unidade era impedir um acordo e a solução de dois Estados. Não haverá paz nem segurança para ninguém entre o rio e o mar sem a liberdade dos palestinos e uma solução política justa.
Surgiu a possibilidade de que Netanyahu teria sido alertado antes de 7 de outubro. Qual é a sua opinião sobre isso?
Szor: Não sei o suficiente sobre essa revelação para julgá-la. Como israelense, entendo por que há tanta discussão sobre o que poderia ter evitado o 7 de outubro: foi um massacre terrível no qual muitas pessoas perderam a vida. Mas me irrita o fato de que, neste período eleitoral, ninguém fala sobre o que fizemos em Gaza nos três anos seguintes. Há quase uma obsessão em tentar impedir retroativamente aquele dia, enquanto se ignora o que aconteceu depois.
Reviver constantemente o 7 de outubro confirma o quão importante foi. Mas isso não pode servir de motivo para ignorar as mais de 73.000 pessoas que o nosso país matou desde então.
Por que era importante que o filme também fosse lançado na Itália?
Abraham: Porque a Itália pode exercer pressões sobre Israel. Ficou estabelecido que o meu país violou as cláusulas de direitos humanos do acordo comercial com a União Europeia; no entanto, o governo italiano está bloqueando a sua suspensão. Se vocês têm instrumentos de pressão, os usem.
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