A crise da docência no século XXI: entre o cansaço, a perda de autoridade, o sentido de lecionar e a esperança. Uma nova publicação do IHU

Foto: Pixabay

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Por: Guilherme Tenher | 23 Setembro 2026

A 403ª edição dos Cadernos IHU Ideias apresenta uma coletânea de textos do professor, filósofo, teólogo e historiador Robson Ribeiro de Oliveira Castro Chaves sobre os desafios contemporâneos da docência, publicados entre agosto e setembro de 2026 na página do Instituto Humanitas Unisinos - IHU, sob o título A crise da docência no século XXI: entre o cansaço, a perda de autoridade, o sentido de lecionar e a esperança.

Segundo o professor, “as reflexões aqui reunidas partem, portanto, de uma realidade marcada pelo cansaço, pela fragilização dos vínculos e pela crise das referências, mas não se encerram no diagnóstico. Entre a crítica e a esperança, procuram recolocar a docência no centro de uma questão maior: que educação queremos preservar e que sociedade estamos dispostos a construir? Afinal, cuidar de quem ensina não é apenas defender uma categoria profissional; é preservar uma das condições fundamentais para que uma sociedade continue sendo capaz de educar, transmitir conhecimentos, formar sujeitos e construir um mundo comum”.

O autor conclui: “Que estas reflexões não sejam apenas uma leitura sobre a crise da docência, mas um convite a olhar, com coragem e responsabilidade, para aquilo que estamos fazendo com a educação e para aquilo que ainda podemos reconstruir quando ensinar volta a encontrar sentido”.

Reproduzimos a seguir à apresentação da coletânea de artigos publicada Cadernos IHU ideias, publicação do Instituto Humanitas Unisinos - IHU.

Eis o texto.

A crise da docência no século XXI

A docência contemporânea encontra-se no interior de uma crise que ultrapassa os limites da profissão e revela transformações profundas na sociedade, nas relações humanas e no próprio sentido da educação. Ensinar tornou-se uma atividade atravessada pela intensificação do trabalho, pela multiplicação das responsabilidades, pela fragilização da autoridade, pela violência e pelo desrespeito, ao mesmo tempo em que se ampliam as exigências por desempenho, adaptação e resultados.

O adoecimento docente é uma das expressões mais visíveis desse processo, mas não pode ser interpretado apenas como questão individual. Cansaço, ansiedade e esgotamento também interpelam as condições institucionais e culturais que organizam o trabalho educativo. Quando à escola são transferidas responsabilidades que pertencem igualmente à família e à sociedade, o professor passa a responder por problemas que não pode solucionar sozinho. A crise da docência, portanto, é também uma crise de corresponsabilidade educativa.

Nesse contexto, é urgente recuperar a autoridade do professor em sala de aula, algo que se perdeu ao longo do tempo. A superação do autoritarismo não implica a eliminação da autoridade, mas exige sua reconstrução em bases éticas: autoridade como responsabilidade diante das novas gerações, como compromisso com o conhecimento e como capacidade de estabelecer limites, vínculos e referências. Sem autoridade, a educação corre o risco de perder uma de suas condições fundamentais: a possibilidade de introduzir os mais jovens em um mundo que não construíram, mas pelo qual também deverão assumir responsabilidade, como já afirmava Hannah Arendt.

Há, contudo, uma dimensão ainda mais profunda nessa crise: a questão do sentido. Quando o trabalho educativo é reduzido à produtividade, aos indicadores, às demandas burocráticas ou à mera execução de tarefas, a pergunta sobre por que ensinar torna-se inevitável. A contribuição de Viktor Frankl permite deslocar essa discussão para uma dimensão existencial: o trabalho não se sustenta apenas pela eficiência, mas também pela possibilidade de encontrar significado naquilo que se realiza. Na docência, essa questão assume particular relevância, pois ensinar é participar da formação de outras vidas e, consequentemente, do futuro de uma sociedade.

As transformações tecnológicas, especialmente a expansão da inteligência artificial, acrescentam uma nova camada a esse debate. O desafio educacional não consiste simplesmente em incorporar ou rejeitar tecnologias, mas em discernir seus limites e possibilidades. Quanto mais a técnica amplia sua capacidade de produzir e processar informações, mais necessária se torna uma educação capaz de preservar aquilo que não pode ser reduzido a procedimentos: presença, vínculo, alteridade, responsabilidade, pensamento crítico e sentido.

Por isso, discutir a crise da docência não significa apenas diagnosticar perdas. Significa perguntar que condições precisamos reconstruir para que ensinar continue sendo uma experiência humanamente significativa. A valorização do professor não pode permanecer no campo retórico: exige reconhecimento, proteção institucional, corresponsabilidade e condições concretas para o exercício da profissão.

As reflexões aqui reunidas partem, portanto, de uma realidade marcada pelo cansaço, pela fragilização dos vínculos e pela crise das referências, mas não se encerram no diagnóstico. Entre a crítica e a esperança, procuram recolocar a docência no centro de uma questão maior: que educação queremos preservar e que sociedade estamos dispostos a construir? Afinal, cuidar de quem ensina não é apenas defender uma categoria profissional; é preservar uma das condições fundamentais para que uma sociedade continue sendo capaz de educar, transmitir conhecimentos, formar sujeitos e construir um mundo comum.

Que estas reflexões não sejam apenas uma leitura sobre a crise da docência, mas um convite a olhar, com coragem e responsabilidade, para aquilo que estamos fazendo com a educação — e para aquilo que ainda podemos reconstruir quando ensinar volta a encontrar sentido.

Boa leitura!

Professor Robson Ribeiro de Oliveira Castro Chaves.

A edição pode ser acessada na íntegra aqui.

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