12 Setembro 2026
"Virar a página não significa arrancá-la do livro: ela permanece, faz parte da minha história, ninguém pode mudar o que aconteceu. Mas uma coisa é ter essa página para trás, outra é continuar a lê-la como se fosse a única página existente. Dentro de cada um de nós vive uma força que ainda deseja encontrar, amar e se maravilhar: o perdão restaura a liberdade a esse desejo de vida, que o ressentimento havia aprisionado", escreve Paolo Gamberini, jesuíta italiano, capelão da Universidade La Sapienza de Roma, em artigo publicado por Apertamente, 09-09-2026.
Eis o artigo.
"Nenhum de nós vive para si mesmo, e nenhum de nós morre para si mesmo. Porque, se vivemos, vivemos para o Senhor, e, se morremos, morremos para o Senhor" (Rm 14,7-8)
Havia uma frase que Marta repetia para si mesma desde criança, sempre que alguém a magoava: "Não importa, está tudo bem, vamos esquecer". Ela também a dissera a Luca, depois de mais um comentário cortante na frente dos amigos. Ela sorrira, como sempre. E Luca, satisfeito, respondera: "É por isso que eu te amo: você é tão compreensiva". Marta sentia essa frase como um fardo, não como um carinho. Não era amor: era um elogio à sua capacidade de suportar. A história de Marta revela algo que nos preocupa a todos: o perdão, quando confundido com resignação, não cura nada. Na verdade, permite que o mal continue. Cada vez que Marta se calava, Luca se convencia mais de que podia ferir sem consequências. Seu "perdão" havia se tornado uma forma sutil de submissão, uma maneira de não perturbar, de não perder um amor que ele sentia ser frágil.
Mas um perdão que se fecha sobre si mesmo, que renuncia à própria dignidade para não criar conflito, deixa de ser um gesto livre: é uma estratégia de sobrevivência disfarçada de virtude.
No dia em que Marta encontrou a coragem de dizer: "Eu te perdoo, mas não vou ficar aqui deixando você me machucar de novo", algo novo aconteceu. Não foi um ato de raiva ou vingança, mas de dignidade. E precisamente naquele momento, o perdão mudou de natureza: de rendição passiva, tornou-se uma escolha de liberdade.
Perdoar não é submissão, mas liberdade.
Aqui tocamos no cerne do mal-entendido mais comum sobre o perdão. Em sua versão superficial, perdoar parece significar aceitar, suportar, tolerar a recorrência da ferida. Mas isso é uma caricatura, não a verdade do perdão. Perdoar não significa permitir que o outro continue a ferir: significa reconhecer lucidamente o que aconteceu, sem negar, e decidir que essa ferida não terá mais o poder de determinar minha vida.
É por isso que o perdão autêntico sempre envolve estabelecer limites. Aqueles que perdoam não se entregam novamente à vulnerabilidade que os feriu, mas estabelecem um limite claro, um limite que protege sua integridade. O limite não é vingança: é cuidado. É a maneira de preservar minha dignidade, impedindo que a ferida se torne a estrutura permanente da minha existência. Há um gesto evangélico que ilumina essa dinâmica saudável do perdão: sacudir a poeira dos pés. Não é desprezo, mas liberdade. Significa: "Fiz o que pude, dei o que tinha, mas não posso permanecer onde minha presença é ferida." É um perdão que não pode ser confundido com a compulsão de repetir, que não força a reconciliação — que só é possível quando ambas as partes desejam e constroem juntas um futuro diferente. O perdão, por outro lado, é um ato unilateral: surge no coração daqueles que decidem não permanecer prisioneiros do dano recebido.
Virando a página: parando de reviver a dor
Há um segundo movimento, igualmente necessário. Algumas feridas não terminam quando o que as causou termina. O evento passou, mas continuamos a habitá-lo: reconstruímos a cena, imaginamos o que deveríamos ter dito, aguardamos uma reparação que talvez nunca chegue.
É o ressentimento: literalmente, reviver a mesma ferida repetidas vezes. O outro me feriu uma vez uma vez; eu, através da memória ressentida, corro o risco de continuar me ferindo cem vezes.
O ressentimento e a raiva são coisas horríveis, e o pecador as carrega dentro de si (Eclesiástico 27,30): as Escrituras não minimizam o dano sofrido, mas advertem contra o que o ressentimento faz àqueles que o nutrem. Perdoar significa interromper esse processo. Não significa dizer que o dano não foi grave, nem justifica aqueles que o cometeram. Significa ser capaz de dizer: isso aconteceu, mas minha vida não termina aqui.
A imagem mais simples é a de virar a página. Virar a página não significa arrancá-la do livro: ela permanece, faz parte da minha história, ninguém pode mudar o que aconteceu. Mas uma coisa é ter essa página para trás, outra é continuar a lê-la como se fosse a única página existente. Dentro de cada um de nós vive uma força que ainda deseja encontrar, amar e se maravilhar: o perdão restaura a liberdade a esse desejo de vida, que o ressentimento havia aprisionado.
Viver para o Senhor: a raiz do perdão
E é aqui que o versículo de Paulo aos Romanos ilumina toda a jornada: "Nenhum de nós vive para si mesmo, nem morre para si mesmo. Porque, se vivemos, vivemos para o Senhor; e, se morremos, morremos para o Senhor" (Romanos 14,7-8). Esta palavra constitui o fundamento mais profundo do perdão: se a minha vida não me pertence somente a mim, se o significado último da minha existência não depende do que o outro faz.
Se Ele me criou ou não, nenhuma ferida — por mais real e dolorosa que seja — pode ter a palavra final sobre o meu destino. Aqueles que vivem para o Senhor recebem Dele, e não da aprovação dos outros ou da reparação que esperam, a sua própria identidade e valor. É isso que torna possível tanto o limite estabelecido por Marta quanto a virada de página: não uma atitude severa, mas a certeza de que a minha vida está guardada em outro lugar, em Alguém maior do que a ferida que recebi. É por isso que o perdão cristão nunca é um simples ato de bondade: é um ato enraizado na fé de que a vida — a minha e a daqueles que me feriram — pertence a Deus, e não à lógica da retaliação e da vingança.
A ressurreição em si não apaga as feridas: o Ressuscitado ainda carrega as marcas dos pregos. Mas essas feridas não são mais um lugar de morte; agora estão dentro de uma vida que começou a caminhar novamente. Talvez o perdão seja precisamente isso: não viver como se nunca tivéssemos sido feridos, mas impedir que a ferida tenha a última palavra. Um talento a ser frutífero Finalmente, há um último passo, muitas vezes esquecido: o perdão recebido — de Deus, antes mesmo dos homens — não é uma posse a ser guardada para si, mas um dom a ser compartilhado, como um talento que deve dar frutos (cf. Mt 25,14-30). Aqueles que experimentaram o perdão e aprenderam a perdoar sem se curvar, tornam-se capazes de oferecer aos outros esse espaço de liberdade que receberam. O perdão, então, não se limita a um evento privado entre duas pessoas: torna-se um movimento de vida que se transmite, uma forma de habitar os relacionamentos que testemunha que nenhum de nós vive para si mesmo e que, precisamente por isso, ninguém está condenado a permanecer prisioneiro do mal que recebemos.