Perdoar o imperdoável: esta é a única medida do perdão cristão. Artigo de Enzo Bianchi

Foto: Robert Lukeman/ Unsplash

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11 Setembro 2026

"Concluímos a leitura do quarto dos cinco grandes discursos de Jesus no Evangelho de Mateus, também chamado de discurso eclesial ou comunitário, por conter ensinamentos sobre a vida dos discípulos em comunidade, nas igrejas. Primeiramente, explica-se o contexto do ensinamento de Jesus contido na parábola."

O comentário é de Enzo Bianchi, comentando o evangelho do 24° Domingo do Tempo Comum, publicado no Blog de Enzo Bianchi, 13-09-2026.

Eis o comentário

Mt 18,21-35

Naquele tempo, Pedro aproximou-se de Jesus e perguntou: “Senhor, quantas vezes devo perdoar, se meu irmão pecar contra mim? Até sete vezes?”

Jesus respondeu: “Não te digo até sete vezes, mas até setenta vezes sete. Porque o Reino dos Céus é como um rei que resolveu acertar as contas com seus empregados. Quando começou o acerto, trouxeram-lhe um que lhe devia uma enorme fortuna. Como o empregado não tivesse com que pagar, o patrão mandou que fosse vendido como escravo, junto com a mulher e seus filhos e tudo o que possuía, para que pagasse a dívida. O empregado, porém, caiu aos pés do patrão, e prostrado, suplicava: ‘Dá-me um prazo! e eu te pagarei tudo’. Diante disso, o patrão teve compaixão, soltou o empregado e perdoou-lhe a dívida. Ao sair dali, aquele empregado encontrou um de seus companheiros que lhe devia apenas cem moedas. Ele o agarrou e começou a sufocá-lo, dizendo: ‘Paga o que me deves’. O companheiro, caindo aos seus pés, suplicava: ‘Dá-me um prazo! e eu te pagarei’. Mas o empregado não quis saber disso. Saiu e mandou jogá-lo na prisão, até que ele pagasse o que devia.

Vendo o que havia acontecido, os outros empregados ficaram muito tristes, procuraram o patrão e lhe contaram tudo. Então o patrão mandou chamá-lo e lhe disse: ‘Empregado perverso, eu te perdoei toda a tua dívida, porque tu me suplicaste. Não devias, tu também, ter compaixão do teu companheiro, como eu tive compaixão de ti?’ O patrão indignou-se e mandou entregar aquele empregado aos torturadores, até que pagasse toda a sua dívida. É assim que meu Pai que está nos céus fará convosco, se cada um não perdoar de coração ao seu irmão”.

Em obediência ao Senhor Jesus, o amor e o perdão de um cristão devem ser livres, sem cálculos ou restrições, "de coração". Se um cristão perdoa calculando, ele desvaloriza o perdão que proclama com palavras. Perdoar o imperdoável: esta é a única medida do perdão cristão! Seria uma negação do Deus que Jesus descreveu de forma tão clara, ser perdoado por Ele e depois não perdoar os outros...

Concluímos a leitura do quarto dos cinco grandes discursos de Jesus no Evangelho de Mateus, também chamado de discurso eclesial ou comunitário, por conter ensinamentos sobre a vida dos discípulos em comunidade, nas igrejas. Primeiramente, explica-se o contexto do ensinamento de Jesus contido na parábola. Após enunciar as exigências da correção fraterna e do perdão mútuo (cf. Mt 18,15-20), Pedro levanta uma questão à qual Jesus responde imediatamente de forma peremptória, mas depois revela “a este respeito” (diá toûto) o que acontece no reino dos céus, qual o comportamento que a ação de Deus inspira nos seus discípulos. Esta passagem é um ensinamento crucial na vida eclesial, e devemos confessar que nós, cristãos, a lemos com frequência e de bom grado, mas depois deixamos de a praticar quando nos encontramos envolvidos em dinâmicas semelhantes.

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Pedro então se aproxima de Jesus e pergunta: "Senhor, quantas vezes devo perdoar meu irmão quando ele pecar contra mim? Até sete vezes (o número da plenitude e da totalidade)?" Uma pergunta compreensível: pode-se perdoar sem levar em conta quantas vezes o perdão é renovado? Se alguém continua a cometer o mesmo mal contra mim, quantas vezes posso perdoá-lo? Pedro certamente não se esquece de que a Torá diz que Lameque, o sanguinário filho de Caim, canta a repetição da vingança até sete vezes e depois até setenta e sete vezes (cf. Gn 4,23-24).

Pedro já demonstra misericórdia, pois, na verdade, não é fácil perdoar o mesmo ofensor pelo mesmo pecado sete vezes. Mas Jesus responde com autoridade: "Eu não digo até sete vezes, mas até setenta e sete vezes", ou seja, sempre, ad infinitum! Sem hesitações, o discípulo de Jesus perdoa sem contar o número de vezes. Diante de tal declaração, o ouvinte fica surpreso, talvez até atônito, pois não é fácil compreender ou adotar essa atitude. Será que o que Jesus pede não é demais? Será possível que os seres humanos perdoem sempre?

Em seguida, Jesus explica suas palavras claras por meio de uma parábola que, como sempre em sua boca, é uma revelação, um levantar do véu sobre Deus e seus atos. A história, que apresenta um rei e dois servos devedores, se desenrola em três atos, seguidos por um comentário final de Jesus (v. 35):

- o rei e aquele que lhe deve (vv. 23-27);

- o primeiro devedor e um irmão que por sua vez lhe era devedor (vv. 28-31);

- o confronto final entre o rei e o primeiro devedor (vv. 32-34).

Um rei deseja acertar as contas com seus servos, e de repente um deles lhe é apresentado, devendo-lhe uma quantia enorme, quase hiperbólica: dez mil talentos, ou cem milhões de denários (considerando que um denário corresponde ao salário médio diário de um trabalhador), impossível de ser paga! Diante da perspectiva de sua família ser vendida como escrava e de sua própria prisão, esse homem se ajoelha diante do rei e implora: "Seja generoso comigo (seja paciente comigo, makrothýmeson), e eu lhe pagarei tudo" (o que é impossível!).

Diante de tamanha desesperança e sofrimento, o rei, "movido por uma compaixão visceral" (splanchnistheís), isto é, tomado por um sentimento de misericórdia, o deixa ir e perdoar sua dívida. Estamos diante de um rei que exige o cumprimento da lei, mas que, diante daqueles que sofrem por não conseguirem cumprir a justiça, permite que a misericórdia, e não a lei, prevaleça. Seu coração é capaz de ser ferido pelo mal sofrido por seu servo.

Mas eis a cena simétrica. Este homem perdoado, radicalmente salvo juntamente com sua família, sai livre para viver em plena liberdade e em seus relacionamentos; e imediatamente encontra um companheiro, ou melhor, um colega servo (syndoúlos), que lhe deve uma quantia modesta, cem denários, o equivalente ao salário de um trabalhador rural por pouco mais de três meses.

Assim que o vê, agarra-o pelo pescoço e o estrangula, exigindo o pagamento da dívida. O outro homem implora com as mesmas palavras que usara antes: "Tenha paciência comigo e eu lhe pagarei". Mas ele se recusa, então o rei o manda para a prisão até que a dívida seja quitada. Na primeira cena, o rei perdoa o servo; na segunda, o homem perdoado não perdoa seu irmão!

A diferença de comportamento entre os dois credores é destacada na terceira cena. Quando o rei fica sabendo pelos outros servos o que o servo a quem havia perdoado fez, ele o chama e se dirige a ele: "Servo mau, eu te perdoei toda aquela dívida porque me imploraste. Não devias também ter misericórdia (eleêsai) do teu companheiro, assim como eu tive misericórdia de ti?" Aqui se revela o fundamento de todo ato de perdão: ter sido perdoado.

O cristão sabe que foi perdoado pelo Senhor com uma misericórdia gratuita, sabe que se beneficiou de uma graça inesperada e, por isso, não pode deixar de mostrar misericórdia, por sua vez, aos seus irmãos e irmãs, que certamente lhe devem menos. Nesta parábola — repito — não se trata de quantas vezes se deve perdoar, mas sim de reconhecer que se foi perdoado e, portanto, se deve perdoar.

Se alguém não consegue perdoar o outro sem cálculos, sem considerar quantas vezes já perdoou, e não consegue fazê-lo de todo o coração, então essa pessoa não reconhece o que lhe foi feito, o perdão que recebeu. Deus perdoa livremente; seu amor jamais precisa ser conquistado, basta aceitar seu dom e, numa lógica difusa, estender o dom recebido aos outros.

Assim compreendemos a aplicação final feita por Jesus. As palavras que ele pronuncia são paralelas, idênticas em conteúdo, àquelas com que ele glosa a quinta petição da Oração do Senhor – “Perdoa-nos as nossas dívidas, assim como nós perdoamos aos nossos devedores” (Mt 6,12); a única, não nos esqueçamos, sobre a qual ele fez comentários.

Se vocês perdoarem as ofensas uns dos outros, meu Pai que está nos céus também os perdoará.

O vosso Pai que está nos céus também vos perdoará; mas, se não perdoardes de coração,

Mas se vocês não perdoarem uns aos outros, cada um de vocês é seu irmão.

Seu Pai também não perdoará os seus pecados.

(Mt 6.14-15) (Mt 18.35)

Deus não nos oferece perdão se não perdoarmos os outros. Ou melhor, se não formos ministros dessa misericórdia recebida de Deus, que sempre nos perdoa e nos perdoou de uma vez por todas por meio de Jesus Cristo, Ele retira o Seu perdão, assim como o retirou do servo que inicialmente perdoou. Seria uma negação do Deus que professa e proclama a Si mesmo, ser perdoado por Ele e depois não perdoar os outros... A Igreja é uma comunidade de pessoas perdoadas que perdoam, razão pela qual a Eucaristia está no seu coração, na qual experimentamos a remissão dos pecados por Deus para que nós, por nossa vez, possamos ser ministros do perdão e da misericórdia na própria Igreja e na companhia da humanidade, no mundo.

A partir desta página, o cristão deve primeiro aprender a discernir a verdadeira face de Deus, aquela de que Jesus nos falou (exeghésato: Jo 1,18), e saber sobrepor esta face final e definitiva às outras que as próprias Escrituras nos apresentaram. De fato, não se deve esconder que, por vezes, nas Escrituras, aparece esboçado um Deus que pune e não concede misericórdia àqueles que pedem perdão, um Deus que não reitera o perdão.

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Um exemplo acima de todos, que é uma negação literal do Nome do Senhor dado a Moisés (cf. Ex 34,6-7), encontra-se no início da profecia de Naum: “O Senhor é um Deus zeloso e vingativo; o Senhor é vingativo, cheio de ira. O Senhor se vinga dos seus adversários e guarda rancor contra os seus inimigos. O Senhor é tardio em irar-se, mas grande em poder, e nada deixa impune” ( 1,2-3).

Mas Jesus nos dá a narrativa final e definitiva de Deus. Para nós, cristãos, a misericórdia de Deus é a característica essencial para conhecê-lo e é a ação com a qual o próprio Deus nos coloca em comunhão consigo: é assim que Deus revela a sua onipotência! Não é fácil aceitar essa face de Deus, porque todas as religiões sempre pregaram um Deus que faz justiça, que pune o mal cometido, que castiga em sua onipotência. Não é fácil porque nós, humanos, temos dentro de nós um conceito de "justiça humana" e pretendemos projetá-lo em Deus. Mas Jesus nos revelou a face de Deus como a face daquele que

Ele nos amou quando éramos seus inimigos,

Ele nos perdoou quando pecamos contra ele,

Ele veio ao nosso encontro enquanto o negávamos (cf. Rm 5,8,10).

É por isso que Jesus nos pede até mesmo para amarmos nossos inimigos (cf. Mt 5,43-47), um novo desenvolvimento do mandamento de amar o próximo (cf. Mt 19,19; 22,39; Lv 19,18), que se estende até mesmo aos nossos inimigos. Em obediência ao Senhor Jesus, portanto, o amor e o perdão de um cristão devem ser livres, sem cálculos ou restrições, “de coração”. Se um cristão perdoa calculando, ele desvaloriza o perdão que proclama em palavras. Perdoar o imperdoável: esta é a única medida do perdão cristão!

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