A reflexão bíblica é elaborada por Adroaldo Palaoro, padre jesuíta, comentando o evangelho do 24º Domingo do Tempo Comum, ciclo A do Ano Litúrgico, que corresponde ao texto bíblico de Mateus 18,21-35.
“Não devias tu também ter compaixão do teu companheiro, como eu tive compaixão de ti?” (v. 33)
O evangelho deste domingo traz a última parte do “discurso comunitário” (Mt 18), totalmente dedicado ao perdão, que não é uma formalidade a ser cumprida, mas uma atitude fundamental e permanente, através da qual o(a) seguidor(a) de Jesus prolonga o modo de proceder do Pai.
Deus, na sua essência é perdão, e a comunidade cristã é o lugar privilegiado da visibilização desse perdão.
Jesus tem plena consciência que sua comunidade de seguidores não é constituída de “perfeitos”, mas de pessoas frágeis e limitadas e que só o perdão pode sustentar os vínculos entre elas.
Pouca gente, mesmo entre cristãos, compreende o sentido profundo do perdão.
A maioria pensa que é uma forma de anistia do sentimento, esquecimento, ato interno capaz de compreender o ofensor e desculpá-lo no fundo do coração misericordioso; para uns o perdão significa passar por cima de um erro ou violência, deixando o agressor ir embora; para outros, o perdão é até imoral.
Jesus colocou no perdão fraterno uma das características do ser cristão; ao perdoar-nos, Deus cria em nós um coração novo, feito de acordo com o Seu, capaz de perdoar à sua maneira; não pode dar o perdão quem não tem consciência de tê-lo recebido; a capacidade de perdoar é diretamente proporcional à expe-riência de ser perdoado. Não perdoar é resíduo de poder que fica em mãos de pessoas fracas. A verdade é que o perdão exige uma grande liberdade interior.
O perdão é a aceitação do outro tal qual ele é. Uma das formas mais importantes do perdão é desejar que cada um encontre seu lugar para ser o que é. O perdão, pela superabundância que implica, revela, no outro, recursos desconhecidos, que ele permite atualizar.
O perdão é movimento, é expansão de si, é des-centramento e impulso em direção ao outro. O prefixo “per” é o mesmo que encontramos nos verbos per-correr, per-durar, per-fazer..., e leva à plenitude a ação expressa pelo verbo. O perdão é o dom realizando-se no supremo grau de sua gratuidade; é dom em excesso.
Nesse sentido, perdão é um estilo de vida, uma atitude de quem não se prende ao que o outro merece e nem se escandaliza com sua miséria. “Devemos perdoar como pecadores, e não como justos”.
Por outro lado, o perdão, que tem como fonte o coração do Pai, faz aparecer a verdade mais profunda de nós mesmos, nos faz recuperar uma estima radical que elimina todas as nossas sensações de inferioridade.
Antes de tudo, o perdão nos revela nossa culpa e, ao mesmo tempo, nossa dignidade.
Faz-nos compreender nosso êrro, mas é também mensagem eficaz de estima e de confiança: em sua compaixão, Deus confia em nós e nos torna novamente dignos de seu Amor. O milagre é exatamente esse: poder reconhecer nossa própria fragilidade e permanecermos serenos; descobrir-nos pecadores sem desesperar-nos e deprimir-nos; sentir-nos re-criados, porque perdoados; dignos de estima porque reconci-liados.
Seu perdão é gesto criativo e redentivo: continua a criar em nós um coração novo.
A ação do Deus que perdoa não está em função do passado, mas a serviço do nosso futuro.
Perdoar é re-criar. Deus nos re-cria a cada instante. Cada dia que passa é um perdão sempre novo, pessoal, criativo, mas também discreto e silencioso.
Inspirado pela compaixão do Pai, o(a) seguidor(a) de Jesus vive em contínua atitude de perdão (77x 7). Perdoar não é um gesto rotineiro, não é um costume de cada dia: é, antes de tudo, flor escondida, única e original, que floresce cada vez no duro terreno da fragilidade humana e do auto-domínio, sem se deixar determinar pelos sentimentos negativos que podem brotar.
Isto indica que as pessoas que têm por hábito o perdão, que vivem segundo a ética do perdão, deparam-se raramente com uma longa lista de coisas para perdoar, pois elas não guardam estas listas.
Elas não estão preocupadas com os insultos, as agressões e outras expressões de violência. Elas não nutrem sentimento de ressentimento pelo mal-feito a elas. Ao invés disso, cultivam a perspectiva que Jesus tinha em relação aos malfeitores.
Quando alguém perguntou a Mahatma Gandhi, grande líder indiano da não-violência, se ele tinha perdoado todas as ofensas recebidas, declarou: “Nada tenho que perdoar a ninguém, porque nunca ninguém me ofendeu”. A ofensa é objetiva; considerar-se ofendido ou não é subjetivo.
Gandhi simplesmente não considerou a ofensa como ofensa.
O maior dano de uma ofensa – frequentemente maior que a própria ofensa – é que ela contamina nossa liberdade de sermos nós mesmos, pois percebemo-nos involuntariamente dominados pela raiva e ressentimentos interiores (uma espécie de veneno emocional que penetra todo nosso ser) que exercerão uma influência velada, mas poderosa sobre quase todos os aspectos de nossa vida.
Perdoar é aceitar a responsabilidade por nossa maneira própria de olhar a vida e as relações entre as pessoas. Se a mágoa provocou uma desconfiança fundamental em relação aos outros, quem perdoa deve questionar essa atitude.
No entanto, a libertação das emoções negativas é possível porque no perdão começamos a ver o outro muito mais do que simplesmente alguém que foi culpado pela ofensa ou mágoa.
“Perdoar... é a única reação que não apenas reage, mas age de forma nova e inesperada, não se deixando condicionar pelo ato que a provocou e libertando assim de suas consequências, tanto o que perdoa como o que é perdoado” (Hannah Arendt)
De fato, o perdão nunca se encaixa confortavelmente dentro dos padrões naturais do comportamento humano. Ele não nasce espontâneo dentro do coração do ser humano.
O perdão viola as sensibilidades sociais, e sempre fará isso. O perdão transgrede.
O perdão não é um gesto fácil; o perdão é um gesto ... “inumano”, porque toda a nossa impulsividade natural vai em direção contrária a ele.
Representa considerável avanço em relação ao mais primitivo desejo de vingança.
Sabemos que, no nível mais primitivo, o desejo humano não visa o perdão, mas a retaliação, o revide.
Perdoar é ir além do princípio de retaliação. Por isso é uma atitude atrevida e ousada.
O perdão representa a inovação: ele ataca, com todo vigor, aquilo que parece ser uma lei de nossa história. Isso porque a lógica que regula as relações inter-humanas é regida pela lei do mais forte, ou, no melhor dos casos, pela lei da reciprocidade, da equivalência, como norma de justiça.
Perdão não é esquecimento do passado, é o risco de um outro futuro que não aquele imposto pelo passado ou pela memória ferida. É convite à imaginação para responder com um gesto inovador e criativo a quem causou dano ou ofensa. É preciso aventurar-se no encontro com o outro.
O perdão “inventa” uma atitude não prescrita e nem prevista em nenhum manual de comportamento.
O cristianismo é tão revolucionário que exige do ser humano não apenas a grandeza de compreender e desculpar o ofensor, mas a capacidade de amá-lo. O perdão é superlativo do amor.
Reinhold Niebuh descreveu o perdão como a “forma final do amor”. Perdão é amor que reconstrói o passado e que só Deus podia inventá-lo. O perdão nos configura à imagem de Deus.
Joan Chittester chama o perdão “o mais divino dos atributos divinos”. “Perdoar é ser como Deus”, afirma ela.
- Fazer “memória” dos momentos em que você experimentou a força criativa do perdão do outro, ou foi presença por onde fluiu o verdadeiro perdão.