05 Setembro 2026
Óscar Martínez é o editor-chefe do jornal El Faro, que tem jogado luz sobre os aspectos mais obscuros do regime de exceção de Nayib Bukele em El Salvador nos últimos anos. Exilado no México, acaba de publicar Bukele, el rey desnudo (Anagrama), obra que serviu de ponto de partida para esta conversa com Brecha, na qual faz um alerta: “Se você quer o que chamam de modelo Bukele, precisa aceitar que, no dia em que lhe tirarem o seu filho inocente, não vai reclamar”.
A entrevista é de Camilo Salvetti, publicada por Brecha, 04-09-2026. A tradução é do Cepat.
Eis a entrevista.
Sete anos após o início do primeiro mandato de Bukele, qual é a situação hoje?
Ele já controla todo o Estado. Em El Salvador, não existem mais freios e contrapesos. E isso não é apenas um ditado, não é uma crença. Bukele nomeou ilegalmente seu procurador-geral, impôs os juízes da Câmara Constitucional e modificou todo o sistema eleitoral. Ele fez diversas mudanças que, na essência, tornam muito mais difícil para um partido da oposição – que já são minúsculos – ser eleito para uma cadeira no Congresso, por exemplo, ou para a prefeitura. Bukele já reformou a Constituição e também a forma como ela é emendada. A Carta Magna não é mais uma Constituição, mas um livro de intenções de Nayib Bukele.
Já existem mais de 53 jornalistas exilados, segundo a Associação de Jornalistas de El Salvador. Há dezenas de presos políticos e, de acordo com o grupo de especialistas das Nações Unidas [1], há fortes indícios de que crimes contra a humanidade foram cometidos nas prisões do regime e pelo próprio regime. E, por fim, 2 em cada 100 salvadorenhos estão na prisão; todos eles em julgamentos secretos, com processos e procedimentos secretos. Há julgamentos coletivos com até 900 pessoas em um único tribunal, pessoas que não se conhecem.
Dito isso, Bukele continua a manter uma enorme popularidade. Ele continua sendo alguém que gera tanta popularidade quanto amor e medo. Na pesquisa realizada pela universidade jesuíta [Universidade Centro-Americana José Simeón Cañas], Bukele e seu regime obtiveram mais de 80% de aprovação. Mas quando as pessoas foram perguntadas se acreditavam que poderiam sofrer repressão caso falassem mal do governo, quase 63% responderam que sim. É amor misturado com medo. Em termos de independência eleitoral, El Salvador já está atrás de todos os índices eleitorais das Américas, perdendo apenas para a Venezuela e a Nicarágua. Na Nicarágua, já decretaram que nem sequer eleições haverá; com isso, dá para imaginar o nível de aprovação.
Cada vez mais políticos na região elogiam a política de segurança de El Salvador. Alguns falam em importar o modelo para seus próprios países; outros simplesmente elogiam certos aspectos da política. Você acha possível importar parte do modelo Bukele sem todas as suas implicações?
Bukele conseguiu exterminar as gangues em El Salvador. Isso é um fato. Não existem mais gangues em El Salvador como as conhecíamos. Bukele, com seu regime de exceção, as desmantelou. A questão é: a que custo? O modelo Bukele foi como pescar com dinamite. É isso que um regime de exceção representa. Claro, você vai pegar alguns dos peixes que queria e vai matar muita vida marinha. O que Bukele fez foi liberar os poderes do Estado repressivo para prender qualquer pessoa. Eles prenderam 97.000 pessoas em menos de um ano. A tortura é permitida nas prisões, o prazo legal para prisão preventiva foi estendido para sete anos, permitindo que pessoas sejam encarceradas sem condenação, e todos os juízes foram substituídos. Em outras palavras, em qualquer sistema que mantivesse o equilíbrio de poderes e o devido processo legal, 50% das pessoas presas sob o regime estariam livres, o que não seria o modelo Bukele: seria um modelo eficiente para processar crimes.
Em 2024, quando Bukele assumiu seu segundo mandato presidencial inconstitucional, ele violou quatro artigos da Constituição que são bastante claros, estabelecendo que ninguém pode permanecer no poder por mais de cinco anos, nem um dia a mais. Por que isso não funcionou para [Daniel] Noboa, que alega ter importado o método Bukele para o Equador? Eu lhe digo por quê: porque o método Bukele não é um arquétipo de ideias. Primeiro, tudo começou com um pacto com as gangues – embora secreto, como até mesmo as autoridades estadunidenses confirmaram, sancionando dois funcionários – e depois terminou com um regime de exceção. Bukele, mais do que ideias, tem caprichos. A única regra do modelo Bukele é: todo o poder para um só homem. Não funcionou para Noboa porque ele não tem todo o poder.
Especificamente, como é o patrulhamento territorial das forças de segurança em El Salvador hoje?
El Salvador é um estado policial há anos. Há alguns anos, cortou o orçamento da educação e da saúde em 130 milhões para repassá-lo ao Exército. Uma das primeiras coisas que fez foi conquistar os militares, tê-los ao seu lado, e também controla a comissão de promoções [responsável por decidir sobre as promoções militares]. Em outras palavras, Bukele decide quem passa de almirante a contra-almirante, quem passa de coronel a general, e assim por diante. Bukele controla tudo. As ruas estão cheias de soldados e policiais; um Estado onde o Exército já desempenha uma função de segurança cidadã.
O Exército tinha funções de segurança em governos anteriores?
Havia as chamadas patrulhas conjuntas: tinha que ir um policial e também podiam ir dois soldados, especialmente em 2015. Com Bukele, o Exército agora está totalmente integrado; ou seja, temos o ministro da Defesa Nacional, que é um oficial militar, um contra-almirante, patrulhando as ruas com um fuzil e sendo filmado por drones. Ora, El Salvador é, acima de tudo, um Estado policial, porque a polícia pode prender qualquer pessoa sem motivo algum.
Quando o regime começou, sabendo das atrocidades que iriam cometer, a primeira coisa que impôs foi o que em El Salvador se chama de sigilo total, uma ordem judicial que proíbe a divulgação de qualquer processo de prisão, qualquer parte do procedimento ou qualquer prova, a qualquer momento. Qualquer pessoa que revele essa informação pode cometer um crime. Nós [El Faro] não nos importamos com as regras do regime. Então, temos 690 inquéritos contra nós.
Em muitos desses processos, constava apenas: “Ele demonstrou nervosismo”. Só isso. Havia outros em que constava apenas o número do documento de identidade. Em outras palavras, aqueles policiais e soldados nem se deram ao trabalho de escrever um relatório de uma linha explicando por que diabos prenderam aquelas pessoas. Isso é um Estado policial, um Estado onde a polícia, o exército e as forças de segurança têm muito mais ferramentas para te capturar do que você para se defender.
No seu último livro, você destaca dois discursos: o de 4 de fevereiro e o de 1º de junho de 2024, quando Bukele assumiu seu segundo mandato. Por que você acha importante enfatizá-los?
Penso que em algum momento me tornei muito leniente com Bukele. Acredito que ele já havia acumulado todo o poder em maio de 2021, quando demitiu ilegalmente o procurador que o investigava. Todos esses procuradores estão agora exilados, aqueles que investigaram a corrupção de Bukele e seus pactos com as gangues. Acredito que, quando alguém controla todo o poder, torna-se ditador. Destaco esses dois momentos porque esperei até o último instante, até que qualquer formalidade administrativa da democracia republicana fosse eliminada. Quando Bukele se candidatou às eleições de 2024, ele já estava violando a Constituição, quatro artigos. Se nem mesmo a Constituição está acima de você, então nada mais importa.
O primeiro sinal do perfil autoritário de Bukele não foi a farsa da tomada da Assembleia Geral em fevereiro de 2020? Isso foi antes de ele obter o controle parlamentar em 2021 e pisotear a Constituição para se reeleger.
A Assembleia ainda se opunha a ele. Ainda havia uma Suprema Corte, que em 2020, por exemplo, considerou inconstitucionais muitas de suas decisões durante a pandemia. Ainda existiam alguns mecanismos frágeis de controle e equilíbrio, mas existiam. Muitas prefeituras eram ocupadas por outros partidos. Penso que a tomada da Assembleia, quando ele a usurpou com o apoio dos militares e pessoas o filmando de todos os ângulos, e com drones, é a imagem mais sincrética de Bukele. Esse é Bukele: muita publicidade, Deus, os militares e aquele conceito abstrato que ele chama de “povo”. Todos os elementos com os quais Bukele construiu seu poder estavam presentes.
No livro, você também relata como a tomada do poder na Assembleia Legislativa acabou sendo impulsionada por memes…
Nós publicamos essa história; investigamos o caso por mais de um mês no El Faro e documentamos tudo. Ele toma o controle da Assembleia Legislativa para escapar de uma narrativa nas redes sociais que não lhe convinha. Acho que ele é um ótimo relações-públicas. Ele consegue direcionar a atenção das pessoas para onde quer que elas olhem. Deixe-me dar um exemplo: o Cecot [Centro de Detenção para Terroristas]. Existem 22 prisões em El Salvador. Por que o mundo só quer ver uma? Porque é a que Bukele mostra. Bukele quer que o mundo só veja essa, e o mundo a vê, e youtubers e jornalistas chegam dos Estados Unidos pensando que têm uma entrevista exclusiva. Toda vez que entram, lhes oferecem um verdadeiro safari humano sem que façam uma única pergunta, e membros de gangues são trazidos para dar entrevistas com o torturador ali ao lado. E os jornalistas acham que estão fazendo uma entrevista interessante.
E quanto às outras 21 prisões em El Salvador?
Em pelo menos 14 delas, onde há prisioneiros do regime, a superlotação é total. A organização Socorro Jurídico Humanitário já documentou 537 cadáveres sendo removidos de lá desde 2022. Muitos deles – como nós, do El Faro, documentamos – apresentavam sinais de tortura. O último que documentamos foi o cadáver de um jovem sem antecedentes criminais, mas com ficha criminal por ser vítima de gangues, que saiu com um buraco no peito que atravessava todo o corpo. Todas as autópsias assinadas pelos peritos forenses do regime dizem a mesma coisa: ele morreu de edema pulmonar, o que é como dizer que você morreu porque parou de viver. Porque o edema pulmonar é resultado de algo, de um golpe, por exemplo, que encheu seus pulmões de sangue.
Alguns dizem que não existe um modelo Bukele, mas sim o chamado produto Bukele. Qual a sua opinião sobre isso?
Essencialmente, o que ele tem é um projeto autoritário, e ele fará o que for preciso para concretizá-lo. Se necessário, ele se vestirá de vermelho e dirá que Che Guevara foi a maior coisa que já existiu e que a Nicarágua era o modelo a ser seguido na América Central; depois dirá que [Donald] Trump, a Heritage Foundation e o movimento MAGA [Make America Great Again] são melhores. Bukele fará o que for preciso para alcançar a única característica de seu projeto político: manter o poder absoluto. Portanto, é claro que isso o torna um produto muito maleável e com muitas características vazias.
Falando sobre o que ele vende, deixe-me voltar à sua primeira campanha. Que características do descontentamento e da impotência do eleitorado e da população salvadorenha você acha que Bukele conseguiu canalizar para se eleger presidente? O que estava acontecendo com a Frente Farabundo Martí de Libertação Nacional (FMLN) e a ARENA, os partidos tradicionais de El Salvador, quando Bukele venceu seu primeiro mandato? Como era o sistema político salvadorenho?
Penso que havia sinais de que Bukele estava chegando. A questão é que a população salvadorenha, com toda a razão, estava farta dos partidos do pós-guerra… Eles roubaram tudo o que puderam, transformaram-nos no país mais violento do mundo por vários anos seguidos. Em 2015, chegamos a ter uma taxa de homicídios de 106 por 100 mil habitantes. Isso significa que uma em cada 970 pessoas era assassinada. Era ultrajante. Eles eram corruptos; os últimos quatro presidentes foram acusados de corrupção. Em outras palavras, as pessoas estavam fartas, nós os detestávamos profundamente e, eleitoralmente, ninguém mais os queria, ninguém os quer agora.
A FMLN, partido que governou o país por dez anos antes de Bukele, tem sequer um representante. E sua figura mais importante é uma vereadora na capital, um cargo sem qualquer relevância. Eles conquistaram o que têm por serem ineptos e corruptos. Agora, Bukele, com todo esse poder, poderia ter usado sua popularidade para outra coisa. Bukele a usou para dizer algo às pessoas: “Eu me livrei do problema das gangues e, em troca, peço tudo. Todo o poder, sem reclamações; deixem-me prender quem eu quiser, deixem-me tirar direitos civis e conceder privilégios aos militares e soldados, e manter este regime de exceção pelo tempo que eu quiser”.
Os uruguaios precisam saber disso: se você quer o que chamam de modelo Bukele, se você quer o jeito de Bukele, você tem que aceitar que, no dia em que lhe tirarem seu filho inocente, não vai reclamar. Você não terá o direito de apresentar um pedido de habeas corpus, porque a Suprema Corte não se pronunciará sobre o caso, já que é favorável a Bukele. Você não terá o direito de exigir que seu filho não seja julgado junto com outros 900 criminosos. Você não terá o direito a uma defesa efetiva por parte do Estado. O povo uruguaio – isso é óbvio – anseia por uma vida melhor, tem o direito de ansiar por ela e acredita – creio que a grande maioria, em profunda ignorância – que alguém como Bukele pode satisfazer esse anseio.
Nota
1. Referência ao Grupo Internacional de Especialistas para a Investigação de Violações dos Direitos no Marco do Estado de Exceção em El Salvador.
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