29 Agosto 2026
“A tecnologia não tem um propósito social predeterminado, nem dita um único futuro. Isso é especialmente verdadeiro no caso da IA, que abrange uma ampla gama de tecnologias. Atualmente, o foco está na automação: sempre que possível, substituir o trabalho humano. Mas existe outro caminho. As ferramentas da IA também podem ser projetadas para complementar os trabalhadores, aprimorando suas capacidades e produtividade, em vez de substituí-los”. A reflexão é de Daron Acemoglu, em artigo publicado por Sin Permiso, 24-08-2026. A tradução é do Cepat.
Daron Acemoglu é professor do Instituto de Economia do MIT. Ele recebeu inúmeros prêmios e reconhecimentos, incluindo o Prêmio Sveriges Riksbank de Ciências Econômicas em Memória de Alfred Nobel de 2024, também conhecido como o Prêmio Nobel de Economia.
Eis o artigo.
A inteligência artificial está transformando o mundo diante dos nossos olhos. No entanto, as preocupações em torno da IA vão além da incerteza e da disrupção que acompanham qualquer outra mudança tecnológica radical. Essas tendências decorrem, em parte, da direção que o desenvolvimento da IA tomou: muitas empresas líderes embarcaram em uma busca obsessiva pela inteligência artificial geral (IAG).
A inteligência artificial geral é geralmente entendida como um sistema de IA capaz de igualar ou superar as capacidades humanas na maioria das tarefas de alto valor agregado. Em um mundo assim, a automação do trabalho não se limitaria a setores específicos ou a funções rotineiras. Pelo contrário, as máquinas assumiriam muitas formas de trabalho, incluindo profissões altamente especializadas. As consequências dessa substituição da mão de obra humana seriam sem precedentes.
Para chamar a atenção para esse desafio urgente de política pública, juntei-me a milhares de economistas e pesquisadores da IA na assinatura da declaração We Must Act Now (Precisamos Agir Agora), que insta os formuladores de políticas e líderes tecnológicos a direcionar a IA para complementar, e não substituir, o trabalho humano.
Estudos sobre o mercado de trabalho nos EUA sugerem que, desde 1980, a automação tem desempenhado um papel crucial no aumento da desigualdade, reduzindo a demanda por trabalhadores que realizam tarefas rotineiras (D. Acemoglu e P. Restrepo, Econometrica 90, 1973-2016; 2022). A adoção de robôs industriais no setor manufatureiro oferece um exemplo claro: os dados mostram que, embora a produtividade tenha aumentado, muitas das comunidades mais expostas à automação sofreram declínios no emprego e nos salários (D. Acemoglu e P. Restrepo, J. Polit. Econ. 128, 2188-2244; 2020).
A dinâmica já observável com robôs industriais provavelmente se intensificará à medida que a adoção da IA se expandir. Em jogo não está apenas a prosperidade compartilhada, mas também o nosso sistema democrático. As sociedades não podem permanecer estáveis se um grande número de pessoas for excluído das oportunidades econômicas.
No entanto, esse resultado não é inevitável. A tecnologia não tem um propósito social predeterminado, nem dita um único futuro. Isso é especialmente verdadeiro no caso da IA, que abrange uma ampla gama de tecnologias. Atualmente, o foco está na automação: sempre que possível, substituir o trabalho humano.
Mas existe outro caminho. As ferramentas da IA também podem ser projetadas para complementar os trabalhadores, aprimorando suas capacidades e produtividade, em vez de substituí-los. Essa abordagem favorável ao trabalhador poderia gerar benefícios mais amplamente distribuídos e incluir maior crescimento da produtividade.
Tomemos a educação como exemplo. Em vez de substituir os professores, as ferramentas de IA poderiam ajudá-los a identificar áreas em que os alunos estão com dificuldades e permitir que eles forneçam suporte mais personalizado em larga escala. Os formuladores de políticas poderiam incentivar esse tipo de inovação complementar e favorável ao trabalhador por meio de legislação e incentivos direcionados.
Por que existem atualmente tão poucos exemplos de ferramentas de IA amigáveis com os trabalhadores? Parte da resposta é econômica: a IA focada em automação provou ser lucrativa para as empresas envolvidas. Mas a trajetória atual também é moldada pela ideologia. Grande parte do boom da IA foi impulsionada por um grupo homogêneo de pessoas influenciadas por uma ideia compartilhada – inspirada em parte pela filosofia e pela ficção científica – de que as máquinas acabarão superando e suplantando a humanidade.
A sociedade precisa se unir para direcionar o desenvolvimento da IA em uma direção diferente. Nenhum governo sozinho pode ditar o curso do progresso tecnológico, e nenhum órgão regulador sozinho pode determinar exatamente como a IA irá evoluir. Mas as políticas públicas e a participação democrática podem moldar os incentivos. Três medidas poderiam ajudar a direcionar a IA para um caminho mais favorável aos trabalhadores.
Primeiro, os sistemas tributários de muitos países subsidiam o capital e tributam o trabalho, criando um forte viés a favor da automação e contra a complementaridade com os humanos. Nos Estados Unidos, por exemplo, mesmo quando uma máquina e um trabalhador podem realizar uma tarefa a um custo semelhante, as empresas que optam pela automação teriam uma vantagem de custo de 20 a 25% devido aos vieses inerentes ao código tributário. Uma solução seria tributar a renda de forma mais neutra, independentemente de ser classificada como renda do trabalho ou do capital, reduzindo assim o viés em favor de tecnologias que substituem a mão de obra.
Segundo, precisamos de uma agência dedicada à IA em nível federal nos Estados Unidos, assim como no Reino Unido e na União Europeia, inspirada em parte nos Institutos Nacionais de Saúde dos EUA, para desenvolver conhecimento especializado sobre os impactos sociais da IA e criar diretrizes de melhores práticas. Assim como os Institutos Nacionais de Saúde, esta agência deveria receber financiamento adequado para apoiar caminhos socialmente benéficos e pouco explorados, incluindo alguns que favoreçam os trabalhadores.
Em terceiro lugar, precisamos de um arcabouço legal para os mercados de dados. Os dados são frequentemente descritos como a força vital da economia da IA, mas as regras que regem sua propriedade e uso ainda são pouco desenvolvidas. Isso não só permite que grandes empresas de tecnologia capturem grande parte de seu valor, como também enfraquece os incentivos para produzir e compartilhar os dados de alta qualidade necessários para construir sistemas de IA que complementem a expertise humana.
Acima de tudo, precisamos de um debate lúcido sobre o que a IA pode fazer e o que queremos que ela faça. O futuro da IA não deve ser determinado pelos sonhos de um pequeno grupo de tecnólogos, mas por decisões democráticas sobre o tipo de sociedade que queremos construir.
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