28 Agosto 2026
Mas pode uma igreja realmente evitar confrontar-se com uma questão tão central? Pode permitir-se não assumir uma posição diante de uma situação que muitos juristas internacionais definem como uma violação sistemática dos direitos humanos? Do ponto de vista ético, a resposta é não. Uma igreja não pode evitar a verdade. Não pode se eximir de sua responsabilidade profética.
A reportagem é de Giovanni Arcidiacono, publicada por Riforma, 28-08-2026. A tradução é de Luisa Rabolini.
O debate iniciado em julho de 2026 no Sínodo da Igreja da Inglaterra sobre o documento Kairos Palestine II não é um episódio isolado nem uma simples disputa interna. Pelo contrário, sinaliza uma tensão mais ampla que atravessa as igrejas europeias: a dificuldade de assumir uma posição clara e profética diante da tragédia palestina, em um contexto onde pressões políticas, diplomáticas e inter-religiosas tendem a restringir a liberdade de expressão eclesial. O artigo publicado pelo Riforma.it em 14 de julho de 2026 destacou essa tensão com precisão cirúrgica: de um lado, a exigência insistente das comunidades palestinas, cristãs e não cristãs, de serem escutadas em seu sofrimento e na análise de sua situação; de outro, a pressão exercida por grupos judaicos britânicos para que a Igreja da Inglaterra se distancie de um documento que define a política israelense como "apartheid" e "colonialismo de assentamento".
O Sínodo viu-se, assim, no centro de um conflito que não é apenas político, mas profundamente teológico: pode uma igreja ocidental permitir-se ignorar a voz dos cristãos palestinos? Pode evitar de se confrontar com acusações tão graves, sustentadas por organismos internacionais, ONGs israelenses e uma parcela crescente da comunidade acadêmica? E, acima de tudo, pode renunciar ao seu papel profético por receio de comprometer relações inter-religiosas? Essas perguntas não dizem respeito apenas à Igreja da Inglaterra, mas a todas as igrejas europeias, incluindo as Igrejas italianas. O debate britânico é um espelho que reflete nossas próprias hesitações, nossos medos e nossas responsabilidades. O aspecto mais significativo do debate do Sínodo foi a mudança da proposta inicial de "acolher" o documento Kairos Palestine II para uma formulação mais cautelosa: "escutar as vozes palestinas". Essa modificação, aparentemente mínima, é, na realidade, profundamente política.
"Acolher" um documento implica reconhecer sua legitimidade e aceitar sua inclusão no debate eclesial como uma contribuição que possui autoridade. "Escutar", por outro lado, é uma formulação mais fraca: não acarreta compromisso, não vincula e não envolve a assunção de responsabilidade. A decisão do Sínodo de optar pela segunda formulação foi interpretada por muitos como uma capitulação diante de pressões externas. E não é difícil entender o motivo: nas semanas que antecederam o Sínodo, vários líderes judaicos britânicos, entre os quais o Board of Deputies of British Jews e o Rabino-Chefe, haviam manifestado profunda preocupação com a linguagem utilizada no Kairos Palestine II, definindo-a como "inflamatória", "unilateral" e "potencialmente prejudicial às relações judaico-cristãs". A Igreja da Inglaterra viu-se, assim, em uma posição delicada: de um lado, a necessidade de manter relações inter-religiosas positivas; de outro, a responsabilidade de escutar os cristãos palestinos, que pedem às igrejas ocidentais para não serem abandonados.
O Sínodo escolheu um caminho intermediário. Mas será esse caminho intermediário suficiente? A questão permanece em aberto. O documento Kairos Palestine II utiliza uma linguagem forte: fala em "apartheid", "colonialismo de assentamento", "genocídio lento" e "limpeza étnica". Muitos criticaram esses termos, classificando-os como excessivos ou ideológicos. Mas, o fato é que tais acusações não nascem do nada: são sustentadas por uma vasta literatura internacional, por relatórios de ONGs israelenses como a B'Tselem, pela Anistia Internacional, pela Human Rights Watch e, o que é ainda mais relevante, por pareceres jurídicos do Tribunal Internacional de Justiça. Ignorar essas acusações significa ignorar um debate global. Significa esquivar-se da responsabilidade de se confrontar com a realidade. Ao optar por não "acolher" o documento, o Sínodo evitou implicitamente assumir uma posição sobre essas acusações.
Mas pode uma igreja realmente evitar confrontar-se com uma questão tão central? Pode permitir-se não assumir uma posição diante de uma situação que muitos juristas internacionais definem como uma violação sistemática dos direitos humanos? Do ponto de vista ético, a resposta é não. Uma igreja não pode evitar a verdade. Não pode se eximir de sua responsabilidade profética. Houve numerosas críticas ao documento, especialmente por parte de grupos judaicos britânicos e de alguns setores eclesiais ocidentais. Essas críticas podem ser resumidas em quatro categorias principais: a linguagem "inflamatória"; o risco de prejudicar as relações judaico-cristãs; a suposta "parcialidade" do documento; a acusação de antissemitismo.
1. Muitos argumentaram que termos como "apartheid" ou "colonialismo de assentamento" são excessivos, ideológicos e geram divisão. No entanto, essa crítica ignora um fato fundamental: esses termos não foram inventados por cristãos palestinos. São categorias utilizadas pela B'Tselem, uma ONG israelense de direitos humanos, pela Human Rights Watch, pela Anistia Internacional, pelos Relatores Especiais da ONU e pelo Tribunal Internacional de Justiça (pareceres de 2024 e 2025).
A linguagem de Kairos Palestine II é, portanto, jurídica, não retórica. É uma linguagem que descreve uma realidade, não que a inventa.
2. O risco de prejudicar as relações judaico-cristãs é a crítica mais recorrente. Argumenta-se que o documento poderia comprometer o diálogo com as comunidades judaicas, alimentar tensões e gerar incompreensões. Porém, aqui se abre um nó teológico crucial: o diálogo inter-religioso pode tornar-se um álibi para evitar a verdade? Se o diálogo serve para proteger a sensibilidade de uma das partes, mas impede de ouvir o sofrimento da outra, então não é diálogo, é diplomacia eclesial. E a diplomacia eclesial não é a tarefa da Igreja.
3. Quanto à suposta "parcialidade" do documento, segundo a qual o Kairos Palestine II não reconheceria o sofrimento israelense, particularmente após os eventos de 7 de outubro de 2023, é preciso afirmar categoricamente que essa crítica é infundada. De fato, o documento afirma claramente que: a violência contra civis é sempre inaceitável, que o sofrimento israelense é real e deve ser reconhecido, e que a paz exige segurança para ambos os povos. O que o documento rejeita é o uso do sofrimento israelense como justificativa para um sistema de opressão permanente.
4. A acusação de antissemitismo. Essa é a crítica mais grave, mas também a mais infundada. Rotular uma política como "apartheid" não significa atacar um povo. Significa analisar um sistema político. Confundir crítica política com antissemitismo é um erro conceitual que corre o risco de impedir qualquer discussão séria sobre a situação na Palestina.
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