A fé não habita em meio às ruínas do dogma (sobre as declarações do presidente da Colômbia). Artigo de Jesús Lozano Pino

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28 Agosto 2026

"Se o presidente insiste que foi uma mão divina que fez a terra tremer justamente no dia de sua posse, seus teólogos de confiança deveriam sugerir a ele um tom menos complacente: na tradição profética, quando a terra se abre diante de um rei, raramente é para saudá-lo; pelo contrário, costuma ser o primeiro aviso da divindade, que revela seu profundo desacordo com o ungido... Mas nós certamente não vamos cair na armadilha oposta, certo?"

O artigo é de Jesús Lozano Pino, missionário e filósofo em formação, em artigo publicado por Religión Digital, 22-08-2026. A tradução é de Luisa Rabolini.

Eis o artigo.

O devastador terremoto de magnitude 7,4 que atingiu a Colômbia em 10 de agosto de 2026 deixou um rastro trágico de perdas humanas e dor coletiva em todo o país. No entanto, a divisão mais profunda não foi causada apenas pelo terremoto, mas pela desoladora leitura teológica do presidente Abelardo de la Espriella. Durante seu primeiro pronunciamento televisivo em 17 de agosto – com o objetivo de apresentar o plano de reconstrução – o presidente afirmou que "só Deus conhece as coisas de Deus", acrescentando que "Deus, em Sua sabedoria, fez isso acontecer justamente no dia em que meu mandato começou" e "decidiu nos fazer passar por essa dura provação".

As reações subsequentes alimentaram um intenso debate público sobre a mistura entre religião e gestão de emergências.

Para as comunidades cristãs de base, teólogos e crentes que compartilham a proposta de uma fé madura e crítica, essas palavras ressoam como uma dolorosa profanação da mensagem do Evangelho e uma perigosa regressão a formas mais arcaicas de manipulação religiosa.

A teologia do castigo: instrumentalizar Deus para legitimar o poder

Apresentar uma catástrofe natural como uma decisão de "sabedoria divina" instrumentaliza o sofrimento de milhares de famílias que perderam entes queridos e viram seus bens destruídos. Essa retórica ressuscita uma concepção arcaica e punitiva do Absoluto: aquela de um Deus rígido que inflige desastres para testar a força de um líder ou justificar um projeto político.

A partir da perspectiva bíblica do Novo Testamento, Deus não envia terremotos. O Deus revelado em Jesus de Nazaré não manipula as placas tectônicas para testar a coragem de um governante ou castigar um povo. Deus habita, isso sim, os escombros: na mão do socorrista, nas lágrimas da mãe que perdeu tudo e na imediata solidariedade que nasce entre as vítimas. Enquanto uma teologia do poder usa o sofrimento para justificar a providência, um Evangelho encarnado na dor acompanha a ferida, oferece consolo e exige justiça.

Relevância política e social: do messianismo à desorientação

A gravidade dessas afirmações vai além do quadro puramente conceitual ou do debate ético, atingindo a própria estrutura da sociedade:

  • Exclusão da responsabilidade pública: atribuir as consequências de um fenômeno natural à "sabedoria divina" desvia o debate da gestão de riscos, da infraestrutura inadequada e da vulnerabilidade histórica de regiões marginalizadas. Se a tragédia é vista como um ato cósmico ou uma lição providencial, a responsabilidade política desaparece.

  • Messianismo político: enquadrar o drama coletivo em função da própria figura do governante – como se a natureza e a divindade conspirassem em volta do início de um mandato presidencial – reflete uma visão narcisista do exercício do poder. O sofrimento do povo deixa de ser o ponto central e se torna meramente o pano de fundo para a narrativa épica do líder.

  • Ruptura no tecido ético: exortar os cidadãos a aceitarem a tragédia como parte de um projeto sábio significa desativar a justa reivindicação social e anestesiar a compaixão, promovendo uma resignação submissa que contrasta com a indignação profética que a mensagem do Evangelho exige diante da miséria.

  • Onde o Sagrado realmente mora: do estrondo à brisa. O poder político sempre foi fascinado pelos deuses do trovão e do medo, pois no terror da catástrofe, é fácil incutir a obediência e projetar uma autoridade de viés messiânico. Qualquer um que use o estrondo da terra para intimidar um povo e abençoar seu próprio domínio, confunde deliberadamente a força bruta com o Espírito de Deus. Essa manipulação não é novidade, mas encontra seu antídoto mais profundo na memória profética do Antigo Testamento. Quando o profeta Elias buscou o Senhor no Monte Horebe, encontrou um vento forte que fendeu as montanhas, mas Deus não estava no vento; testemunhou um terremoto que abalou os alicerces da terra, mas Deus não estava no terremoto; viu a terra consumida por um fogo devorador, mas Deus também não estava no fogo. Foi somente depois da tempestade que um murmúrio suave surgiu, uma brisa leve, quase imperceptível: ali, na delicadeza do silêncio e na fragilidade do cotidiano, residia a Verdade (cf. 1Reis 19,11-13).

A retórica política busca nos fazer acreditar que Deus emite decretos bem no meio de uma catástrofe, justificando a ruína como parte de um plano supremo. Contudo, uma fé emancipada reconhece que o Deus da vida não destrói para governar, nem usa o sofrimento humano como instrumento de propaganda. Deus não se encontra nos pronunciamentos ensurdecedores dos governantes, nem na violência das placas tectônicas; Deus habita na brisa suave da compaixão, na solidariedade silenciosa que  varre os escombros e na mão anônima que se estende para reconstruir a dignidade de um povo.

Se o presidente insiste que foi uma mão divina que fez a terra tremer justamente no dia de sua posse, seus teólogos de confiança deveriam sugerir a ele um tom menos complacente: na tradição profética, quando a terra se abre diante de um rei, raramente é para saudá-lo; pelo contrário, costuma ser o primeiro aviso da divindade, que revela seu profundo desacordo com o ungido... Mas nós certamente não vamos cair na armadilha oposta, certo?

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