Abelardo de la Espriella afirma que o terremoto foi um “teste de Deus” para o seu governo

Abelardo de la Espriella (Foto: Wikimedia Commons)

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21 Agosto 2026

O presidente de extrema-direita distribuiu bolas com o logotipo do seu partido às vítimas; aceitou ajuda seletivamente e um dos seus ministros saiu de férias durante a tragédia.

A reportagem é publicada por Pagina|12, 21-08-2026.

O presidente colombiano, Abelardo de la Espriella, afirmou que o terremoto que atingiu o país em 10 de agosto foi enviado por Deus para testar seu governo, em meio a críticas da oposição sobre sua gestão do desastre.

“O que Deus faz, meus caros compatriotas, só Deus sabe. Ele escolheu nos apresentar esta difícil provação e, em Sua sabedoria, fez isso precisamente no dia em que iniciei meu mandato”, disse De la Espriella em um discurso. “Nosso dever diante da adversidade é enfrentá-la e unir o país sob um princípio claro e decisivo: juntos reconstruiremos nossa pátria”, acrescentou.

Nesse contexto, o presidente De la Espriella declarou estado de emergência econômica, social e ecológica por trinta dias em quinze departamentos devido ao terremoto de magnitude 7,4 que devastou a região centro-oeste do país. O decreto, publicado pelo Departamento Administrativo da Presidência (Dapre), visa facilitar a resposta à tragédia. Durante o estado de emergência, o Poder Executivo pode emitir decretos legislativos com força de lei para adotar quaisquer medidas adicionais que julgar necessárias "para enfrentar a crise e evitar a propagação de seus efeitos", bem como realizar as operações orçamentárias e de crédito público necessárias para implementá-las.

Ajuda seletiva

As declarações do presidente sobre Deus surgem num contexto em que ele tem sido alvo de críticas pela forma como lidou com o desastre. O senador colombiano e líder da oposição, Iván Cepeda, já questionou o caráter "seletivo" da ajuda recebida pelo governo após o terremoto. "Houve uma atenção seletiva dada às ofertas feitas a certos governos sem qualquer explicação", disse Cepeda à agência de notícias EFE.

O senador, do partido de esquerda Pacto Histórico, do ex-presidente Gustavo Petro, afirmou que a possibilidade de a Colômbia receber parte da ajuda internacional oferecida após a tragédia foi "negada" e questionou por que, enquanto alguns países receberam uma resposta favorável, outras ofertas não foram aceitas, como as do México, país governado pela política progressista Claudia Sheinbaum.

Nesse sentido, citou como exemplo a chegada a Cali de um contingente de 82 militares das Forças de Defesa de Israel, incluindo socorristas, engenheiros e especialistas, para apoiar os esforços de busca e salvamento, e solicitou informações sobre suas funções e as condições de sua permanência na Colômbia. Cepeda observou que a Constituição estipula que o Senado é responsável por autorizar o trânsito de tropas estrangeiras pelo território colombiano e considerou necessário determinar "as circunstâncias em que" os militares israelenses chegaram e quais tarefas desempenharão.

O senador também anunciou que a oposição irá monitorar a distribuição da ajuda para garantir que critérios políticos não sejam usados ​​para decidir quem a recebe: "A ajuda não deve ser dada de acordo com a filiação política ou com quem foi votado nas últimas eleições."

Bolas grátis

Além disso, Abelardo de la Espriella visitou a cidade de Buenaventura no fim de semana, e sua viagem a este porto do Pacífico resultou em uma foto que gerou críticas nas redes sociais: o presidente distribuiu bolas de futebol às vítimas do terremoto de dentro de um veículo blindado.

As bolas eram amarelas e traziam o logotipo de seu movimento político, "Defensores da Pátria", por isso ele foi condenado por fazer política em uma cidade onde mais de 10 mil famílias foram afetadas pelo terremoto, com 9 mil casas danificadas e 954 completamente destruídas.

A denúncia foi feita pelo ativista Carlos Parra, que compartilhou um vídeo do presidente em suas redes sociais junto com uma mensagem questionando suas ações: “Enquanto muitas famílias enfrentam as consequências do terremoto, Abelardo de la Espriella chegou em Buenaventura distribuindo bolas.”

Férias em meio à crise

Entre outros problemas, uma viagem de fim de semana durante a emergência do terremoto colocou o Ministro da Habitação da Colômbia, Jaime Andrés Beltrán, em uma posição delicada, com pedidos de sua renúncia vindos de vários setores, inclusive de aliados do governo. Beltrán foi fotografado com sua esposa em um hotel de praia em Santa Marta, uma das cidades da costa caribenha da Colômbia. Nos dias que se seguiram ao terremoto, o ministro visitou diversas cidades afetadas para avaliar os danos e anunciar planos de recuperação, mas no sábado compareceu a um casamento em Santa Marta e, aparentemente, permaneceu lá para passar férias, segundo reportagem do site da Desigual.

“Isso é inacreditável! Ninguém menos que o Ministro da Habitação em meio a uma tragédia. Que falta de consideração. Esse gesto deveria resultar em sua destituição e em umas férias tranquilas”, reclamou a Deputada Cathy Juvinao, do partido Aliança Verde, nas redes sociais. Enquanto isso, o Senador Jota Pe Hernández, aliado do governo, chamou Beltrán de “insensível” por tirar alguns dias de folga.

“É uma vergonha que a insensatez e a falta de discernimento de um ministro manchem o excelente trabalho que o Governo tem feito para enfrentar a crise do terremoto”, disse o senador Andrés Forero, do Centro Democrático Uribista, partido aliado do Governo.

Beltrán, que tem ligações com igrejas evangélicas, foi eleito prefeito de Bucaramanga em 2023, mas sua eleição foi anulada em 2025 devido à dupla filiação partidária. Na última campanha presidencial, ele foi um dos políticos regionais mais ativos e um aliado próximo de De la Espriella, que o escolheu para chefiar o Ministério da Habitação. 

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